Encerrada rebelião mais cruel do Paraná

Janaina Monteiro Publicação 16/01/2010 - 00h00 Atualizado 19/01/2013 - 21h45

A agonia de dezenas de familiares de presos terminou depois de quase 20 horas de rebelião na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Piraquara, a maior do Estado, que abriga cerca de 1.500 homens, dentro de sua capacidade, em 14 galerias.

Por volta de 15h, os presos começaram a se entregar depois de negociação com a polícia. O saldo de mortes oficial é de cinco presos, mas outros corpo podem ser encontrados durante a operação pente-fino que começou ontem.

Quatorze agentes penitenciários estavam na PCE, quando o motim começou por volta de 20h30 de quinta-feira. Três deles, que contavam os detentos foram rendidos na galeria 10 e logo em seguida o tumulto tomou conta das outras galerias. Um quarto agente que acompanhava a contagem conseguiu fechar o cadeado e escapar.

Facilidade

Com as próprias mãos, os presos conseguiram quebrar as portas das celas e fizeram os três agentes reféns. Chegaram a arrancar os tijolos das paredes. De madrugada, os presos destruíram unidade, como a enfermaria do presídio, e botaram fogo nas alas e em colchões.

Pela manhã, os detentos começaram a queimar as caixas de água. Uma das cenas mais fortes, registradas, foi a cabeça de um detendo exibida pelos presos em uma bandeja. Parentes dos presos ficaram desesperados e houve comoção geral.

Há informações que o motim teria sido facilitado pelo chefe da segurança, que teria levado presos condenados por estupro, que ficam em uma ala separada para junto de outros presos. Essa versão foi contestada pelo Sindicato dos Agentes Penitenciários.

A selvageria tomou conta e os presos foram até as galerias onde estavam os desafetos, jurados de morte. Alguns dos detentos que não quiseram aderir pularam pela laje para escapar.

Informações extraoficiais davam conta que pelo menos 15 detentos se feriram. Um deles teria caído e quebrado a perna. Os detentos ainda jogaram um tijolo na cabeça do ferido.

Por volta do meio-dia de ontem, tiros foram ouvidos na laje da PCE e um corpo foi visto sendo arrastado. Na manhã de ontem, a reportagem do Paraná Online flagrou detentos na laje com dois presos reféns. Um deles foi agredido com uma “pá” na cabeça.

Fábio Alexandre
Motim durou quase 20 horas, na maior penitenciária do Estado. Pente-fino pode achar mais vítimas.

 

Cabeça na bandeja


Giselle Ulbrich

Dos cinco corpos encontrados dentro do presídio, afirmou a Polícia Militar, três deles estão carbonizados e outros dois morreram com agressões e golpes de estoques (facas improvisadas). Entre os carbonizados, um deles foi decapitado. A cabeça foi mostrada pelos presos em uma bandeja.

A polícia tenta identificar as vítimas e fazer a contagem de quantos presos morreram. O Paraná Online conseguiu alguns nomes, não confirmados oficialmente, que seriam dos presos mortos: Orlando Quarteroli, 25, Fernando Damásio, Daniel e Osni.

O quinto morto é um dos carbonizados. Orlando, conforme disse um preso por telefone ao programa Tribuna da Massa, seria o preso que teve o corpo queimado e a cabeça no programa de televisão. Já quanto ao número de feridos, nenhuma autoridade tem, por enquanto, este levantamento.

Famílias apreensivas


Janaína Monteiro

Para se comunicar com parentes, os presos mandavam recados usando celulares. Dezenas de parentes de presos passaram a noite em claro, em frente à PCE, como é o caso de Cleuzi Barnabé, 40 anos.

Seu filho está preso há três anos por porte ilegal de arma e faltam apenas cinco meses para ele cumprir a pena. “Sempre tive medo que isso pudesse acontecer. Ele é meu único filho. Só tem eu para chorar por ele”, lamentou.

Jessica Andriele de Lara Gomes, 20, estava apreensiva, esperando notícias de seu pai e primo. Segurando o filho de 3 anos no colo, ela contou que o pai está detido na PCE por ser foragido da Colônia Penal Agrícola (CPA).

Seu primo está preso há um ano e dois meses por tráfico de drogas e roubo. “É um nervoso que não passa. Meu pai já tinha falado no sábado que a rebelião estava para estourar”, confidenciou.

Negociações rápidas, reféns soltos


Janaína Monteiro

As primeiras negociações começaram por volta de 9h30. Presos e autoridades conversaram por cerca de uma hora. O agente penitenciário Antônio Alves foi liberado pela manhã, e Emerson e Justiniano, depois da rendição dos presos por volta de 16h.

Os presos se comunicavam com a polícia através do rádio comunicador dos reféns e tinham como porta-vozes um detento que se autodenominava “JJ” e outro que disse se chamar Fernando.

As conversas foram acompanhadas pelo juiz-corregedor da Vara de Execuções Penais Marcio Tokars, pelo secretário da Justiça, Jair Ramos Braga, pelo coordenador do Departamento Penitenciário (Depen), Cezinando Paredes, pela advogada Isabel Kugler Mendes, da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), e pelo presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Estado do Paraná, Clayton Agostinho Auwerter.

Precaução


Para não machucar os agentes reféns, os presos exigiram a presença da imprensa e se renderam. Os primeiros a se entregar foram os cerca de 200 presos que prestam serviços na PCE e não teriam aderido ao motim.

Em seguida, em grupos de 30, eles foram distribuídos em quatro pátios internos para facilitar a contagem, a revista e a identificação. Segundo a Polícia Militar, Antônio Alves sofreu lesões leves e passa bem. Ele foi libertado depois que o juiz-corregedor assinou uma lista contendo os nomes dos presos que os rebelados exigiram que fossem transferidos.

Além da transferência de presos para outras regiões do Estado e fora do Paraná, os presos pediam modificação no sistema de visitas, verificação de penas, mais tempo para banho de sol, assistência jurídica e melhoria no atendimento psicológico. Além disso, pediram que, depois da rendição, não houvesse represálias.

Fábio Alexandre
Presos usavam rádios comunicadores das vítimas.

 

Responsabilidade pelo motim é jogada de um pra outro


Márcio Barros e Janaina Monteiro

O secretário de Justiça, Jair Ramos Braga, disse que, durante a semana, recebeu informações sobre conversas de presidiários de Londrina e de Curitiba. De forma preventiva, ele transferiu 30 presos perigosos e líderes de facções criminosas. Também afirmou ter mandado dois ofícios para o secretário estadual de Segurança Pública, Luiz Fernando Delazari. “Alertei sobre os risco da retirada da Polícia Militar do presídio. Disse que poderia criar um desconforto, e na verdade, foi muito pior.” Logo que ficou sabendo da rebelião, Braga afirmou ter entrado em contato com Delazari, que garantiu não ter determinado a saída dos militares.

Previsão


“Avisamos que isso iria acontecer. Já estava prevista uma vistoria no presídio, mas infelizmente a rebelião aconteceu antes”, afirmou Isabel Kugler Mendes, da Comissão de Direitos Humanos da OAB. Isabel, que acompanhou o decorrer das negociações, descreveu o cenário dentro do presídio como o de um campo de batalha. Para ela, é lamentável que o Paraná seja o único estado do Brasil que não providencia assessoria jurídica para os presos. “Falta uma defensoria pública, os presos têm que ter advogado. É uma exigência constitucional”, reclamou.

Destruição

O secretário disse que boa parte do presídio ficou destruída, algumas alas por conta da briga entre as facções e outras, queimadas. Braga disse que ainda não sabe qual será o destino dos presos. “Temos 30 vagas disponíveis na penitenciária de Catanduvas, que serão destinadas aos presos de maior periculosidade.”

Aliocha Maurício
Secretário da Justiça, Jair Braga, disse ter alertado sobre perigo do afastamento de policiais militares.

 

PM empurra pra facções


Giselle Ulbrich

Marco Charneski
Carstens: policiais ociosos.

O coronel Luiz Rodrigo Larson Carstens, comandante-geral da Polícia Militar, explicou a retirada de 20 policiais do Batalhão de Polícia de Guarda (BPGD) - que tem sua principal função dar segurança externa a unidades prisionais do apoio interno aos agentes da PCE. Ele afirmou que estudo feito pela PM apontou que os policiais estavam “ociosos” e que seriam melhor aproveitados em outras funções.

Apesar das informações de que os 20 policiais foram colocados para atender os telefonemas do 190, na Operação Viva o Verão, Carstens não detalhou para onde os policiais foram removidos. “Eles estão preparados para atuar em várias situações e setores da PM”, desconversou o coronel.

Facções

Carstens ainda negou que o motivo da rebelião tenha sido a retirada dos policiais. “Não seria a presença de 20 policiais a mais, ou a menos, que evitaria a rebelião. O motim foi provocado pela rivalidade entre facções diferentes. Mesmo assim, continuaremos dando apoio ao sistema judiciário, até que tudo volte a sua ordem normal.” Ele não disse se recolocará os 20 policiais de volta na segurança interna do presídio. Dos 48 policiais do BPGD, que atuavam na PCE, 28 continua na segurança externa da unidade.

Preso culpa agentes


Márcio Barros, Janaina Monteiro e Giselle Ulbrich

Durante as negociações, o preso que se identificava como “Fernando”, porta-voz do da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), a todo instante dizia que o estopim foi articulado pelos próprios agentes. Segundo contou, os agentes ficaram enfurecidos com a retirada da Polícia Militar da guarda interna do presídio e deixaram que os presos da Ala 2, destina aos presos “seguros” (estupradores, matadores de crianças) fossem soltos junto com os demais, o que para eles é motivo de desonra.

“Não posso afirmar que houve a facilitação por parte dos agentes, mas todos os fatos serão investigados”, garantiu o secretário Jair Braga. “Acho muito difícil terem tomado essa atitude para atacarmos nós mesmos. Não tem lógica”, completou o presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Estado do Paraná, Clayton Agostinho Auwerter.

Barreira

Auwerter culpa a saída da PM pela rebelião. “Todo o manejo de detentos era feito pelos agentes. Mas a presença de policiais fardados, armados e munidos de vários aparatos de segurança, criava uma barreira para que os presos não invadissem locais não autorizados. Sem eles, os detentos se sentiram seguros em tomar os agentes reféns.” O sindicalista disse que a PM quer maquiar o verdadeiro motivo do motim, colocando a culpa exclusivamente na briga de facções. “O sangue dos cinco mortos lá dentro é inteira responsabilidade da PM e do secretário (da Segurança)”, declarou Auwerter.

Greve não é descartada


Giselle Ulbrich

Clayton Auwerter afirmou que, em quatro assembléias realizadas pelo Estado, ano passado, os agentes decidiram entrar em greve para reivindicar, entre outras coisas, mais segurança e melhores condições de trabalho. “Estamos apenas aguardando o desenrolar jurídico para paralisarmos as atividades”, afirmou Auwerter

Os três agentes penitenciários feitos reféns tiveram apenas escoriações. “Já os danos psicológicos são muito maiores”, disse Auwerter. Ele ira pedir para que Antônio, Justiniano e Emerson, tenham um tempo para se recuperar. “Se deixarmos, a PCE os coloca imediatamente de volta ao trabalho.”


Publicidade

Publicidade