Lula chora ao receber diploma de presidente

Redação O Estado do Paraná Publicação 14/12/2002 - 23h00 Atualizado 19/01/2013 - 20h36

Brasília - A explosão de emoção foi tamanha que a rigidez do protocolo e a formalidade dos ministros togados na cerimônia de diplomação do presidente eleito não resistiram ao choro compulsivo de Luiz Inácio Lula da Silva. Duramente criticado na campanha eleitoral por não ter cursado uma universidade, Lula não deixou por menos: "Se havia alguém no Brasil que duvidasse que um torneiro mecânico saído de uma fábrica chegasse à Presidência da República, 2002 provou exatamente o contrário."

O presidente precisou de um gole de água e tomar fôlego para concluir: "Eu, que durante tantas vezes fui acusado de não ter diploma superior, ganho o meu primeiro diploma, o diploma de presidente da República do meu País", disse, encerrando com um tapa na mesa, já sob aplausos da platéia. Mais tarde, no restaurante Piantella, onde almoçou, Lula disse que não quis responder às elites. "Fiz um desabafo." O vice-presidente eleito, senador José Alencar (PL), a quem Lula chamou de "lúcido e leal companheiro", também chorou muito.

O presidente do Congresso, senador Ramez Tebet (PMDB-MS), assumiu suas lágrimas. "Me emocionei sim, muito, e tenho orgulho de ver a democracia brasileira." Até o sisudo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Nelson Jobim, amigo de Lula desde a Constituinte de 1987, cedeu à emoção e aos argumentos do presidente eleito. "Evidentemente, um diploma conferido pela maioria de uma nação é melhor do que qualquer outro." O documento é o reconhecimento da Justiça Eleitoral de que os 52,7 milhões de votos garantem a Lula o direito de governar o País.

No discurso feito pouco antes, Jobim já havia dado um tom mais emotivo à cerimônia, ao lembrar uma frase do ex-presidente do PMDB, Ulysses Guimarães, morto em 1992. "Vá em frente. Caminhe rumo ao sol que é luz e não rumo à lua, que é noite." O futuro ministro da Fazenda, Antônio Palocci, que a partir de janeiro terá de lidar com a frieza dos números da economia brasileira, também se emocionou. "Política também se faz com fortes emoções, porque o povo indicou nas eleições sua vontade de fazer uma coisa extraordinariamente nova para o Brasil e Lula sabe muito bem que um presidente tem de conhecer essa vontade do povo."

No auditório do TSE estavam políticos, juízes, ministros, advogados e parentes de Lula. A mulher, Marisa Letícia, acompanhou tudo com emoção, mas não chorou. Encerrada a solenidade, o presidente eleito recebeu cumprimentos e deu autógrafos, ainda emocionado.

Ministérios marcam rodas de conversas

Brasília - Emoção e lágrimas a parte, nem mesmo o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu fugir do tema principal de todas as rodas de conversa entre parlamentares do PT e de partidos aliados e integrantes do primeiro escalão do futuro governo: a montagem do ministério petista. Em meio aos cumprimentos do seleto grupo de convidados da cerimônia de diplomação, Lula deixou escapar que anunciará mais um "bloco de ministros" na quarta ou quinta-feira.

Em meio à polêmica em torno da participação do PDT no futuro governo, o presidente de honra do partido, Leonel Brizola tratou de abraçar Lula e foi chamado a posar para uma fotografia ao lado do futuro ministro-chefe do Gabinete Civil, deputado José Dirceu (PT-SP). "Vamos tirar uma foto porque estão intrigando a gente", disse Dirceu. Mais que depressa, Brizola abraçou o petista, abrindo um sorriso.

Meia hora antes, porém, o mesmo Brizola havia se queixado do PT, especialmente por ainda não ter sido procurado diretamente por Lula. "Temos grande apreço pelo José Dirceu, mas no regime presidencialista quem faz os entendimentos é o presidente da República", ponderou o ex-governador. Embora tenha prometido o apoio de seu partido ao futuro governo, com ou sem ministério, Brizola não disfarçou a irritação com a insistência de alguns petistas de confirmarem, nos bastidores, a indicação do líder na Câmara, Miro Teixeira (PDT-RJ), para o Ministério das Comunicações. "O Miro é uma personalidade. O que nos incomoda é a prática de um governante de querer nossa participação e nos considerar prateleira de supermercado, pela qual se passa com um carrinho, carregando o que se quer. Nem o Miro nem ninguém pode ser tratado como prateleira", protestou Brizola.

Ele insistiu na tese de que o tratamento tem que ser institucional e acabou contestado pelo presidente nacional do PT, deputado José Genoíno (SP). "Essa crítica não procede porque estamos tratando o PDT com muito respeito", respondeu Genoíno, ao lembrar uma reunião com o próprio Brizola no último domingo. "Combinamos de não falar nada sobre a conversa e estamos cumprindo o combinado." Genoíno aproveitou para pedir "bom senso" aos aliados, deixando claro que os entraves da negociação decorrem mais de disputas internas nos partidos do que do PT ou do presidente eleito.

E ao mesmo tempo em que Dirceu insistia não ter culpa alguma dos problemas internos no PSB, PDT ou mesmo o PMDB, Genoíno o defendia. "É bom que fique claro que o presidente Lula não vai entrar nas questões dos partidos. José Dirceu tem delegação e plenos poderes para negociar. Não aceitamos, portanto, a prática de procurar diretamente o presidente da República para resolver questões internas dos partidos, nem vamos permitir que o envolvam nas negociações", sentenciou Genoíno, ao explicar que Lula só entra em campo na hora de bater o martelo.

O PMDB, que deve ficar fora do ministério, também não mandou representante à solenidade no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O senador Ramez Tebet (PMDB-MS) compareceu na condição de presidente do Congresso Nacional.

Escolha de equipe precisou de concessão

São Paulo - Na montagem de seu ministério, Luiz Inácio Lula da Silva teve de fazer concessões e escolhas que, muitas vezes, não foram sua primeira opção. Além do caso clássico do futuro presidente do Banco Central, Henrique Meirelles - indicado quase em cima da hora para ser sabatinado pelo Senado -, Lula enfrenta dificuldades para nomear, por exemplo, os titulares de Transportes e Saúde.

O presidente eleito queria pôr o cardiologista Adib Jatene na Saúde, mas não conseguiu. Ex-ministro da Saúde no governo de Fernando Collor, Jatene chegou até a se animar com a sondagem. Mas desistiu depois de saber que não teria autonomia total para indicar o segundo escalão da equipe. Até agora, o cargo está em aberto. São cotados os petistas Humberto Costa, candidato derrotado ao governo de Pernambuco, e Eduardo Jorge, secretário de Saúde licenciado da Prefeitura de São Paulo. Mas o cargo ainda está em disputa pelos aliados.

O primeiro nome que Lula pensou para o Ministério dos Transportes foi o do governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra (PT). Logo viu, porém, que se tratava de outra pasta cobiçada pelos partidos, em troca de apoio ao governo do PT no Congresso. O PMDB reivindicou o cargo. Os petistas resistem porque o partido de Michel Temer enfrentou um turbilhão de denúncias no controle da máquina desse ministério.

O único peemedebista que Lula gostaria de ter nos Transportes seria o senador Pedro Simon (RS). Do chamado grupo autêntico do PMDB, Simon é amigo do presidente eleito e de várias estrelas petistas. O senador, porém, foi vetado pela cúpula de seu próprio partido. A vaga ainda está em aberto e seu preenchimento depende das negociações. Com todo o ajuste a ser feito, o mais provável é que Olívio fique, agora, com a presidência da Itaipu Binacional.


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