Esquecimentos constantes são sintomas do transtorno cognitivo leve

Redação O Estado do Paraná Publicação 29/11/2006 às 15:38:24 Atualizado 19/01/2013 às 21:07:41

Uma pessoa acostumada a ler muito, muitas vezes é capaz de recitar trechos de diálogos encontrados nos livros. Em certa ocasião, ao tentar contar o conteúdo de uma obra para um amigo, simplesmente não consegue lembrar das personagens. Se essa pessoa está bem perto dos 65 anos, os outros dizem que isso é algo normal da idade. Que a pessoa não tem que lembrar de tudo e que isso não é motivo para preocupação.

Segundo o especialista em clínica médica e geriatria Antonio Augusto de Arruda Silveira Júnior, não é bem assim. “Esquecer coisas pode até ser normal porque as pessoas têm memória seletiva, guardando, muitas vezes, apenas o que é realmente importante para elas”, explica, salientando que o problema acontece quando elas esquecem coisas que são realmente importantes. “Coisas como reuniões de trabalho, a panela no fogo, ou seja, coisas relacionadas à memória e que antes jamais esquecia”, frisa.

Segundo o médico, esse distúrbio é conhecido por transtorno cognitivo leve (TCL) ou comprometimento leve da memória, surge normalmente após os 45 anos – podendo acontecer inclusive antes, em algumas situações específicas – e deve ser sempre investigado por um especialista.  É um distúrbio exclusivo de memória, por isso, muitas vezes, passa despercebido das pessoas. Num paciente com TCL, a primeira coisa que precisa ser feita é afastar a possibilidade de depressão. “Um paciente deprimido de 55, 60 anos pode muito bem estar apresentando um TCL”, diz. Nesse caso, além do transtorno de memória, existirão outros sinais e sintomas da doença depressiva.

Piora gradual

Para não correr o risco de emitir um falso diagnóstico, o médico não pode se ater apenas ao fato dos lapsos de memória, o que seria o normal do TCL. É preciso verificar se não há outros diagnósticos como, por exemplo, o uso de medicamentos para dormir, altos níveis de estresse, comportamento depressivo, baixo nível educacional e hipotireoidismo. “Isso é muito importante”, segundo Silveira Júnior, porque o diagnóstico precoce é fundamental para a eficácia do tratamento.

Estudos científicos feitos com grupos de pacientes têm demonstrado que o comprometimento leve da memória apresenta piora gradual em 40% dos pacientes, podendo evoluir para demência em poucos anos. “Temos de lembrar que 60% dos pacientes não costumam evoluir para a demência, mas, sem dúvida, também merecem atenção a seu quadro clínico”, enfatiza.

Para detectar o comprometimento leve de memória, médicos e psicólogos com especialização em neuropsicologia aplicam testes de avaliação, que devem ser feitos semestralmente, para verificar se há piora do quadro cognitivo e iniciar, assim, o tratamento medicamentoso. A avaliação neuropsicológica é a única que funciona nos casos de TCL, porque consegue adiantar em cinco anos o que mostram as ressonâncias magnéticas.

A causa do TCL ainda está em investigação, mas acredita-se que os possíveis gatilhos sejam os mesmos da demência. Para prevenir, deve-se evitar o uso abusivo de álcool, tabaco e o sedentarismo. De acordo com Silveira Jr., o declínio cognitivo não é determinante do envelhecimento. O que é comum com a idade é a lentidão do raciocínio, motivada até por questões de inibição. As doenças degenerativas cerebrais são muito mais sacrificantes para a família do que para o doente. Se a pessoa detecta os sintomas e não quer ser um ‘problema’ para a família, deve procurar ajuda. “O tratamento no momento adequado melhora inclusive as condições de vida do próprio paciente e não deve ser ignorado”, conclui.

Também são promissores os resultados obtidos com os portadores de transtorno cognitivo leve, um distúrbio ainda pouco estudado. "O TCL é diagnosticado, geralmente, em pessoas com mais de 50 anos que se queixam de problemas de memória e apresentam piores resultados em testes cognitivos, comparados aos idosos saudáveis, mas ainda não têm comprometimento das atividades do dia-a-dia. Alguns melhoram com o passar do tempo, mas 5% a 10% evoluem para Alzheimer", revela Bottino.

Os pacientes com TCL tiveram níveis menores de fosfolipase A2 em relação ao grupo controle, mas níveis maiores em relação ao grupo com Alzheimer. Esses dados permitiram estabelecer um gráfico no qual o TCL ocupa a porção mediana. No entanto, o grupo de TCL é muito heterogêneo: alguns tinham valores muito semelhantes ao da normalidade, enquanto outros beiravam os limites da demência. "Por isso, queremos, agora, fazer um estudo de seguimento com amostra maior.

Como 10% dos portadores de TCL evoluem para demência, precisamos de uma amostra com 100, 150 pessoas. Assim, poderemos investigar se os pacientes que se encontram mais para baixo no gráfico serão aqueles que evoluirão para Alzheimer. Seria mais um estudo confirmatório do valor preditivo da enzima e é isso que está nos movendo agora", informa Gattaz. E resume: "Essa é a medicina do século 21. Nosso objetivo não é tratar ninguém, mas evitar que se fique doente".

Transtorno caracterizado por uma alteração da memória, por dificuldades de aprendizado e por uma redução da capacidade de concentrar-se numa tarefa além de breves períodos. Ocorre freqüentemente uma forte sensação de fadiga mental quando tenta executar tarefas mentais e um aprendizado novo é percebido ser subjetivamente difícil mesmo se objetivamente bem realizado. Nenhum desses sintomas é de tal gravidade que possa conduzir ao diagnóstico quer de demência (F00-F03) quer de delirium (F05.-). Este diagnóstico deverá ser feito apenas quando houver uma associação com um transtorno físico especificado e não deverá ser feito caso haja presença de qualquer transtorno mental ou de comportamento classificados em F10-F99. O transtorno pode preceder, acompanhar ou seguir-se a uma ampla variedade de infecções e de transtornos físicos, tanto cerebrais como sistêmicos, entretanto não havendo a necessidade de evidência direta de comprometimento cerebral. O diagnóstico diferencial com a síndrome pós-encefalítica (F07.1) e com a síndrome pós-traumática (F07.2) é feita com base na sua etiologia diferente, na restrição maior da amplitude dos sintomas geralmente mais leves e freqüentemente na menor duração.


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