Poluição toma conta dos rios da capital

Rosângela Oliveira Publicação 03/10/2006 às 00:00:00 Atualizado 19/01/2013 às 21:06:02

Foto: Chuniti Kawamura/O Estado

Rio Belém é o mais prejudicado pela poluição e o que mais preocupa os estudiosos. Rio Iguaçu também apresenta problemas.


Boa parte da área de 432 quilômetros quadrados que forma Curitiba é cortada por rios e afluentes. Ao longo dos anos, muitos desapareceram devido ao crescimento populacional da cidade. Outros ainda resistem, apesar do alto índice de poluição, que tem como principais causadores o despejo de esgoto doméstico, ocupações irregulares, depósito de lixo e desmatamento. Várias iniciativas são promovidas para melhorar esse quadro, mas o resultado ainda é muito lento.

A tentativa de recuperar os rios é antiga, lembra o diretor do curso de Engenharia Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Carlos Mello Garcias. “Por volta de 1800, a Câmara de Vereadores já se preocupava com o Rio Belém, um dos mais importantes de Curitiba, e que naquela época já estava morrendo devido à aproximação da cidade”, comentou. Hoje, afirma Garcias, o Belém encabeça a lista dos rios considerados mortos na capital, juntamente com o Atuba e Barigüi. O único rio classificado como “vivo” na cidade é o Passaúna, porque desde a década de 90 ele está incluído em um programa de proteção.

O diretor do curso de Arquitetura da PUCPR, Carlos Hardt, foi na época o coordenador do primeiro zoneamento do Passaúna. Ele lembra que um plano diretor foi montado pelo governo do Estado em convênio com uma agência financiadora da Alemanha. “Foi feito um detalhamento com base no zoneamento da bacia e identificado quais as áreas comprometidas pela ocupação urbana”, disse.


Crescimento populacional afeta diretamente os rios da cidade.

Entre os problemas levantados na época estavam a aprovação de loteamentos e práticas agrícolas inadequadas. Segundo o diretor, a Emater desenvolveu um trabalho com os agricultores e o governo fez desapropriações. Outra intervenção feita foi o alargamento da cabeceira da pista de uma ponte na BR-277, que foi considerado um ponto de risco em caso de acidente com carga química. Carlos Hardt lamenta que essa atenção que se deu ao Passaúna, e hoje garante a sua boa condição, não foi dada aos demais rios de Curitiba.

Poluição difusa


Carlos Hardt, professor da PUCPR: “Áreas comprometidas”.

Na opinião do diretor do curso de Engenharia Ambiental da PUCPR, Carlos Mello Garcias, “a situação crítica em que se encontram os rios de Curitiba são reflexo da mediocridade da cidade, que não se compromete ambientalmente”. Ele ressalta que ao longo dos anos muitos rios desapareceram, como é o caso do Ivo e Água Verde. Em muitos pontos - o que acontece em cinco partes do Rio Belém - eles foram canalizados e as obras exploradas politicamente. “A canalização é uma forma de jogar a sujeira para debaixo do tapete”, comentou.

Mas uma grande discussão que os especialistas estão levantando hoje sobre a condição dos rios é a chamada poluição difusa. A sujeira que é levada pela água das chuvas das ruas, carros e telhados, e também está sufocando os rios. Garcias pondera que a sociedade não é alfabetizada ambientalmente, e que tem esperança de que as futuras gerações possam mudar essa realidade. “As crianças já estão aprendendo na escola sobre o problema da falta d’àgua”, finalizou.

Prefeitura aposta no trabalho de conscientização

Foto: Lucimar do Carmo/O Estado

Cláudia Boscardin, da Sema.

Trabalhar com a conscientização das pessoas que moram próximas aos rios de Curitiba tem sido uma das estratégias que a Prefeitura tem desenvolvido, para tentar melhorar as condições desse locais. A proposta é que a comunidade tenha o rio como uma referência, sendo propriedade de cada um. Além disso, o município está revendo a coleta de esgoto feita na cidade pela Sanepar, para que sejam identificadas possíveis falhas.

A bióloga e coordenadora de Recursos Hídricos da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Sema), Cláudia Boscardin, afirma que a empresa de saneamento informa que realiza 80% da coleta de esgoto na cidade. No entanto, isso está sendo revisto, pois em alguns pontos podem existir falhas, até mesmo pelo tempo que essas redes foram instaladas. Paralelo a isso, o município possui equipes que promovem a limpeza dos rios. De janeiro a setembro deste ano, a equipe já retirou mais de uma tonelada de lixo. Este volume, diz Cláudia, parece uma incoerência, pois a cidade possui 100% de coleta de lixo regular.

A construção de parques e bosques também é iniciativa adotada para preservar a qualidade dos rios. Alguns parques são lineares, ou seja, são implantados ao longo dos rios e em fundos de vales. Funcionam como uma espécie de barreira para impedir a ocupação indevida das áreas, sujeitas a enchentes, e para livrar os rios e córregos da degradação, como a transformação em depósitos de lixo. Os lagos de alguns parques servem para conter enchentes, porque funcionam como reguladores da vazão das águas. Segundo Cláudia, um desses exemplos foi a construção do Parque Barigüi, na déca de 70. “Na época, a função do lago era a retenção da água para evitar enchentes, mas o ganho foi também na preservação do seu entorno”, comentou.

A Sanepar e o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) foram procurados para falar sobre a situação dos rios de Curitiba, mas os órgãos não retornaram as ligações da reportagem.


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