O Lazarillo de Tormes do picaresco espanhol

Jornalista Externo Publicação 16/10/2005 às 01:00:00 Atualizado 19/01/2013 às 20:55:53
d6a.jpgProduto típico do gênio literário espanhol, o romance picaresco surge no início do século dezesseis. São geralmente consideradas obras precursoras (deixando de lado o Satiricon, de Caius Petronius Arbiter, no século I DC) Corbacho o reprovación del amor mundano, de Talavera, Propaladia, de Bartolomé Torres Navarro, Celestinas, de Fernando Rojas, e El retrato de la lozana andaluza, de Francisco Delgado.

O arquétipo do gênero, porém, é o Lazarillo de Tormes, cuja edição “princeps” é de 1554, embora fosse conhecido em manuscrito desde 1525. Surgida sob o signo do anonimato, será muito depois da sua aparição atribuída a diversos autores. Entre eles, Sebastián de Horozco, Diego Hurtado de Mendoza e Juan Ortega.

Embora Mendoza tenha preferências majoritárias, não é meu propósito discutir aqui o problema da autoria do livro, que divide a própria crítica espanhola. Pretendo apenas situar historicamente a famosa obra, caracterizar o gênero literário que ela representa e, na medida do possível, dissecar rapidamente a sua estrutura formal e conteudística. Numa perspectiva talvez axiológica. Talvez.

O que vem a ser o pícaro, termo que está na raiz de picaresco? O pícaro, que normalmente narra a sua história, a sua autobiografia, não importa se real ou fictícia, é um personagem de baixa extração social. Começando por ser uma criança abandonada à própria sorte, sem pais, parentes ou amigos, sem teto, que desde cedo se vê condenado à luta pela sobrevivência. Sua educação é nula. Restringe-se praticamente às lições que a vida – a grande mestra – lhe vai ministrando, no quotidiano rasteiro e miserável. Situado desde cedo à margem da lei, da moral e das próprias convenções sociais, o pícaro (irmão dos menores abandonados e dos “trombadinhas” de hoje) é obrigado a uma ginástica cujo grande objetivo, senão o único, é alimentar-se. Por isso, um crítico da estatura de Dâmaso Alonso não hesita em considerar a novela picaresca “o épico da fome”.

 Assim, o pícaro vai desenvolvendo uma mentalidade e cultivando uma escala de valores onde o pragmatismo é transparente. Feito de expedientes oportunistas, quase sempre tendentes ao atendimento dos reclamos do estômago.

Temos aí esboçado, em pinceladas breves, o retrato de corpo inteiro do Lazarillo. As primeiras linhas do capítulo primeiro já nos dão as coordenadas básicas da sua psique e os parâmetros da sua filosofia de vida. Acompanhemos a saborosa tradução lisboeta: “Pois saiba Vossa Mercê que me chamo Lázaro de Tormes e sou filho de Tomé Gonzalez e de Antona Perez.

O meu pai, que Deus o perdoe, era encarregado do moinho que fica na margem do rio, onde foi moleiro por mais de quinze anos. E estando a minha mãe uma noite no moinho, ali me deu à luz. De maneira que posso em boa verdade dizer que sou filho do rio. E quando eu era ainda menino de oito anos, atribuíram a meu pai certas sangrias mal feitas, pelo que foi preso e confessou, em vez de negar: e foi condenado. Espero em Deus que esteja em sua glória, pois aos do gênero dele chama o Evangelho bem-aventurados. A minha mãe, viúva, resolveu chegar-se aos bons, para ser um deles: foi viver para a cidade, onde alugou um buraco. E começou a fazer comida para estudantes e a lavar a roupa dos ajudantes de estrebaria do comendador da Madalena. E foi assim que ela começou a freqüentar as cavalariças.”

Temos aí a radiografia espiritual do pícaro. Feita de cinismo ingênuo, esperteza, amoralismo, disponibilidade para as mais variadas transgressões dos códigos: o furto, o logro, o contodovigário, a mentira e até, em último caso, o crime. Mas essas transgressões são cometidas com tanta graça, as artimanhas são tão sutis, o humorístico, o cômico e o grotesco são tão eloqüentes, que nós somos obrigados a rir com as peripécias em que o pícaro se envolve. Chegando a transformá-lo num simulacro de herói. Ou, pelo menos, de um herói às avessas. Numa palavra: anti-herói. Caricatura, contrafação, antítese do herói clássico. Se dependesse do “nihil obstat” de Gregório Marañon, da Real Academia Espanhola, o Lazarillo de Tormes há muito teria perdido o título de obra-prima. E por quê? Simplesmente porque ela se limita a mostrar uma Espanha que nem de longe corresponde ao ideal gregoriano – a Espanha bela, luminosa, rica, apolínea, imperial, que cintila nas cores de alguns quadros de Velásquez.

Está mais perto da outra Espanha, a noturna, patética, dionisíaca, que estremece em alguns quadros atormentados de Goya. Mas são essas duas faces de Janus, uma feita de claridades genesíacas, outra de sombras crepusculares, que fazem a Espanha inteira, imortal, na sua fisionomia milenar inconfundível.

É evidente que não podemos nem devemos esquecer a Espanha da literatura de honra, do gênio alado dos místicos e da poesia do “romancero”. Mas não há dúvida que o conhecimento da outra Espanha, nos quadros definitivos que a literatura e a arte nos mostram, de modo algum diminui, amesquinha ou desonra. Qual o país que não exibe a mesma dicotomia existencial, histórica, feita de píncaros e abismos, luz e trevas?

Lamenta Marañon o fato de o pícaro virar quase sempre um grande personagem, que ganha sempre, à força de esperteza e cinismo, os confrontos que mantém com pessoas honestas, de bem, que ficam parecendo estúpidas se comparadas ao herói que as engana.

É aí, porém, que reside a principal razão do agrado com que é lido o Lazarillo ou qualquer outro clássico do gênero: o leitor acaba por identificar-se com ele. E é em função dessa iniludível projeção empática que o pícaro se afirma, ganhando a dimensão de personagem maiúsculo. Literariamente expressivo. Só aparentemente a estória é alienada. Na verdade, subjacente, ela possui crítica clara, denúncia social, ora expressas nas entrelinhas, ora mostradas com clareza meridiana.

A narrativa tem como suporte uma linguagem extremamente saborosa, coloquial, popular. Embora não literária em si mesma, ela não deixa de sê-lo em termos de estruturação, arquitetura, travejamento orgânico. No microcosmos que ela nos revela estão abolidos valores morais, leis, normas, regras de conduta humana. O próprio lirismo foi exilado desse universo de tintas escuras, pardacentas, iluminadas apenas pelo riso. Este é despertado permanentemente pelas situações equívocas ou pelos diálogos saborosos com que o tecido romanesco (ou novelístico) vai sendo costurado.

O êxito da novela picaresca, não apenas na Espanha mas em toda a Europa, foi extraordinário. E como se justifica tal êxito? É fácil responder: generalizava-se então por toda a parte, do retângulo extremo (Portugal) aos contrafortes dos Urais, um certo cansaço dos valores heróicos mais ou menos oficiais, patentes nos grossos volumes em que a cavalaria andante imperava à rédea solta. Inteiramente divorciada da realidade.

Mais do que cansaço, verificava-se uma espécie de frustração ou saturação, na medida em que tais livros, tanto os de cavalaria como os pastoris, espelhavam um mundo ideal que nada tinha de semelhante ao mundo real da época. Com efeito, o feudalismo em processo de decadência, a sucessão interminável das guerras européias e o começo da emigração para as terras novas da América, recém-descoberta pelos marinheiros ibéricos, portugueses e espanhóis, despovoavam os campos. Mais do que isso: criavam uma fauna intérmina de fidalgos empobrecidos, pouco imunes ao vírus da ociosidade e do parasitismo. Assim, num quadro de crise econômica e social aguda, afetando a maioria das pessoas, a novela picaresca, despertando o riso, respondia à carências poderosas.

O gênero picaresco é uma das primeiras fontes de enriquecimento do século dezessete, o “siglo d’oro”. Com sua constelação de nomes como Lope de Veja, Calderón de la Barca, Tirso de Molina, Alarcón, Gracián, Gôngora e Cervantes.

 É indiscutível, inclusive, que é no picaresco que entronca o imortal Quijote cervantino, certamente o primeiro romance moderno. E talvez o maior de todos. Mas esse é outro tema.

 João Manuel Simões é poeta e prosador 


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