Como tratar o déficit de atenção

Jornalista Externo Publicação 04/06/2002 - 00h00 Atualizado 19/01/2013 - 20h33

Certa vez, um menino de 9 anos com déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) fez um desenho de um boneco e disse: "Eu fiz um garoto fechadura! Seus olhos são fechaduras, sua boca é uma fechadura, suas orelhas são fechaduras, seus braços e pernas também são fechaduras. Seu corpo todinho é uma fechadura". Quanto perguntei o motivo de tantas fechaduras, ele prontamente respondeu: "Ele é um garoto fechadura, mas vive num mundo sem chaves!"

Cerca de 6 a 9% das crianças em idade escolar sofrem de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, que se caracteriza por incapacidade de concentração, hiperatividade, falta de controle dos impulsos, além de distúrbios da coordenação motora e do aprendizado. A hiperatividade é decorrente da incapacidade destas crianças fixarem a atenção na execução de determinada tarefa.

A criança com o TDAH apresenta dificuldade da atividade motora fina, que se verifica quando começa a escrever. O problema ocorre devido à incapacidade de fazer os muitos músculos da mão dominante trabalharem juntos. E as crianças e os adolescentes com este problema têm um grafia lenta e feia.

Também podem apresentar dificuldade de percepção visual e, às vezes, percebem as letras ao contrário ou giradas. Outra queixa comum é a falta de coordenação entre aquilo que a criança se propõe a fazer e a respectiva ação, o que prejudica a expressão através do corpo.

Para pais e professores, a criança com o TDAH é "inexplicavelmente difícil", porque tem inteligência (na maioria das vezes acima da média), mas costuma fracassar na escola. Essas crianças são propensas ainda a desenvolverem um distúrbio de impulso e tendem a permanecer explosivas ou agressivas.

Algumas podem ser emocionalmente frágeis, gritando e chorando por qualquer frustração. Apesar de não controlarem seus impulsos, são extremamente afetivas. Seus fracassos, suas inadaptações e suas fracas interações com colegas e adultos significativos fazem essas crianças se sentirem iradas e desvalorizadas.

Os estudos mostram que o TDAH não mostra uma lesão anatômica circunscrita, e sim, uma demora seletiva na maturação do sistema nervoso central, sendo suas variantes de caráter disfuncional.

Embora o substrato neural e fisiopatológico do TDAH permaneça desconhecido, a literatura neuropsicológica e de neuroimagem sugere que anormalidades nas regiões frontais ou uma disfunção frontoestrial sejam o substrato neurológico do problema.

Pesquisas atuais reforçam que a disfunção dos sistemas noradrenérgicos, dopaminérgico e serotoninérgico é bastante clara no TDAH. Na verdade, a regulação da atividade neuronal, por neurotransmissores no córtex e no hipocampo está alterada no TDAH. Em outras palavras, neurotransmissores são substâncias químicas que mandam mensagens de uma célula nervosa para outra.

De acordo com estudos, crianças e adolescentes com o TDAH provavelmente sofrem de alterações na ação desses neurotransmissores, como, por exemplo, a serotonina, norepinefrina e a dopamina. Admite-se que determinadas crianças herdariam a tendência à anormalidade desses neurotransmissores, que regulam a transmissão do impulso nervoso.

Estudos com famílias sugerem origem genética. Entretanto, problemas no parto, doenças ou traumas sofridos durante os anos críticos para o desenvolvimento e a maturação do sistema nervoso central podem agir como fator desencadeante em crianças geneticamente predispostas.

Pais e professores precisam compreender que a dor que essas crianças sentem por causa de suas frustrações e fracassos é real. Se não for tratada, pode causar grande impacto no desenvolvimento da personalidade. Por esse motivo, se você tem um filho ou um aluno com TDAH saiba que existe tratamento adequado para que ele possa enfrentar a vida.

O tratamento do problema deve ser multidisciplinar. A psicofarmacoterapia é indicada e o medicamento de escolha é o cloridrato de metilfenidato, que aumenta a liberação das monoaminas (a serotonina, noradrenalina e dopamina) através de um bloqueio na recaptação, melhorando assim a disponibilidade destes neurotransmissores frente aos receptores. Portanto, o metilfenidato estimula a descarga de monoaminas.

Outra medida é a psicoterapia de apoio para diminuir a ansiedade. Na verdade, os problemas da criança não se restringem à escola, mas ocorrem também no lar e na sociedade.

A reeducação psicomotora também está indicada em alguns casos, com o objetivo de libertar a criança de movimentos sem finalidade, estimulando-a a dominar seu corpo, situando-o adequadamente no espaço. Assim será mais fácil controlar seus movimentos e respectivos tempos. Os terapeutas em redução psicomotora utilizam muito freqüentemente exercícios físicos adequados à música, dança, pintura e modelagem para essas crianças.

Alfredo Castro Neto é psiquiatra infantil.


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