Animais também têm problemas de visão

Cintia Végas Publicação 28/10/2005 - 00h00 Atualizado 19/01/2013 - 20h56

  Foto: Chuniti Kawamura/O Estado

  Cachorro é submetido a exame oftalmológico para verificar a existência de doenças.

Embora não sejam vistos usando óculos, os bichos também sofrem de problemas de visão, o que faz da Oftalmologia um importante ramo da Medicina Veterinária. Algumas doenças consideradas comuns em seres humanos - como a catarata e o glaucoma - também são freqüentes em animais.

A semelhança com os problemas oftalmológicos verificados em homens é tanta que, segundo o médico veterinário especialista em Oftalmologia João Alfredo Kleiner, existem registros até de cães e gatos vítimas de miopia e hipermetropia, embora neles os problemas tenham características um pouco diferentes.

Catarata

A catarata é um dos problemas oftalmológicos mais constantes entre os animais, podendo atingir, além de mamíferos, aves, répteis e peixes. A doença é caracterizada por uma opacidade no cristalino do olho, podendo levar à cegueira. De caráter hereditário, pode tanto atingir um único olho quanto ser bilateral. É desencadeada pelo contato com substâncias tóxicas, presença de tumores intra-oculares, e doenças como a diabetes e as uveítes (inflamações na parte interna do olho).

Ao contrário do que muita gente pensa, a enfermidade não atinge apenas idosos, podendo ser verificada mesmo em filhotes e indivíduos jovens. “Em animais, dificilmente a catarata é percebida em fase inicial. Os proprietários geralmente só desconfiam do problema quando os bichos começam a perder a visão ou quando o olho já está bem esbranquiçado.”

O tratamento do problema começa com a realização de uma série de exames, como de sangue e electroretinograma (verifica a resposta da retina a impulsos visuais). Depois, são feitos tratamentos de possíveis doenças de pele e tártaro dentário - que podem gerar inflamações intra-oculares - e das próprias inflamações. Por último, é realizada cirurgia, que consiste na dilatação da pupila, realização de um pequeno corte na córnea e retirada da catarata.

“Com um equipamento, que parece uma caneta, a catarata é fragmentada e aspirada. O procedimento pode ser feito em qualquer estágio da doença, necessita de anestesia geral, dura cerca de vinte minutos, custa entre R$ 1,2 mil e R$ 1,5 mil por olho, e tem entre 90% e 95% de chances de sucesso”.

Também existe a possibilidade de implantação de uma lente intra-ocular, como é feito em humanos. Porém, normalmente o procedimento não é realizado devido ao alto preço. Além do custo da cirurgia, é preciso gastar entre R$ 500 e R$ 800 com a confecção de cada lente.

Glaucoma

Outro problema comum é o glaucoma. Entre os animais domésticos, costuma ser bastante freqüente em gatos. A enfermidade consiste num conjunto de patologias que afetam tecidos intra-oculares (principalmente a retina) e que têm como conseqüência o aumento da pressão intra- ocular. “A doença se caracteriza pelo excesso de produção da água do olho (chamada humor aquoso) ou da deficiência de drenagem desta água”, comenta o veterinário.

O sintoma do glaucoma é dor ocular, que em animais se manifesta através de vermelhidão dos olhos, aumento do lacrimejamento e, em estágios mais avançados, através de córnea azulada. Muitas vezes, devido à dor, o animal pára de comer, fica quieto e demonstra desconforto. “Na maioria das vezes o problema leva à cegueira. Porém, é possível retardar a perda da visão através de controle da doença em fase inicial. Isto pode ser feito através de cirurgia de drenagem do humor aquoso ou do uso de colírios que diminuem a pressão intra-ocular.”

As causas do glaucoma podem ser inflamações, alterações metabólicas, traumas ou mesmo catarata.

Descoberta da doença gera sofrimento nos donos

A descoberta de que um animal de estimação tem um problema oftalmológico grave e pode perder a visão geralmente gera muito sofrimento aos proprietários. Alguns, chegam a fazer adaptações na própria vida para atender às necessidades do bichinho.

É o caso da empresária Marlene Dei Recadi, dona de Fluffy, uma cadelinha poodle de 12 anos e que há três desenvolveu catarata nos dois olhos. O animal perdeu totalmente a visão do olho direito, mas ainda pode recuperar a do esquerdo através de cirurgia.

“A catarata de Fluffy está associada a diabetes. Ela usa até cinco tipos de colírios diariamente e necessita de aplicações de insulina”, conta Marlene. “Preciso dar atenção especial à ela, adaptando meus horários e mesmo deixando de fazer algumas viagens, mas tenho certeza que parte da visão será recuperada após a cirurgia, que ainda não tem data marcada”.

Depois que Kika, uma cocker de 11 anos adquiriu catarata, também nos dois olhos, o casal Doris e José Carlos Schultz teve que fazer algumas adaptações no ambiente doméstico. Como o cão perdeu totalmente a visão, eles precisam cuidar para manter sempre a mesma disposição dos móveis e para não esquecer objetos fora do local habitual.

“A Kika se locomove bem dentro da casa, subindo e descendo escadas, sabendo onde ficam os móveis e encontrando seus brinquedos, potinho de água e comida. Porém, temos que tomar alguns cuidados, como manter a piscina coberta e ao passear com ela, sempre utilizando coleira. Quando vamos a um lugar novo, temos que ser pacientes, ensiná-la e dar um tempo para que ela conheça o novo espaço e se adapte às novas condições”, revelam. (CV)

Capacidade de reconhecer as cores é questionada

É muito questionada a capacidade ou não que os animais têm de enxergar cores. Especialistas dizem que alguns animais são capazes de perceber diferentes variações de tons mas, de acordo com o veterinário João Alfredo, tudo não passa de especulação.

“Para saber se um animal consegue enxergar cor, são consideradas determinadas características anatômicas e a presença ou não de células responsáveis pela distinção de cores. Porém, é difícil saber se estas células, quando presentes, são ou não ativas, o que não permite saber com certeza quais cores os animais são ou não capazes de ver”, afirma.

O veterinário diz que existem suspeitas de que algumas aves e peixes são capazes de enxergar uma maior quantidade de cores do que os seres humanos. Algumas aves, inclusive, possuem a visão bem mais aguçada, sendo capazes de enxergar e identificar suas presas a longas distâncias. “As gaivotas, por exemplo, são consideradas bastante curiosas por conseguirem identificar suas presas dentro da água. Elas possuem uma estrutura ocular especial que lhes permite mergulhar para caçar sem machucar os olhos.”

João acredita que tanto os cães quanto os gatos conseguem enxergar pelo menos o vermelho, o azul e o cinza, podendo visualizar sombras, que para os seres humanos possuem uma única cor, em tons degradês. Outra curiosidade diz respeito aos cães. Segundo o médico, muitas pessoas questionam o fato de seus cachorrinhos gostarem de assistir televisão. Na verdade, eles percebem as imagens na tela de forma bem diferente.

“Assim como as onças e os tigres, os cães têm uma adaptação visual diferente, tendo maior noção de movimentos lentos do que o homem”, informa. “Quando eles olham para a tela da TV, eles não vêem imagens contínuas como nós, mas sim “flashs” de imagens. Eles enxergam a televisão ligada como algo que acende e apaga ou pulsa a todo momento”. (CV)

Algumas raças tendem a ser mais afetadas nas córneas

Algumas raças de animais têm maior tendência em desenvolver problemas oftalmológicos. Entre os cães, um exemplo é o sharpei, bastante sujeito a úlceras, traumas, inflamações e, principalmente, deficiências de pálpebras.

Muitos representantes da raça nascem com a pálpebra de cima ou de baixo virada para dentro do olho. Desta forma, os cílios ficam roçando a córnea, o que causa conjuntivite, ulcerações e pode levar à cegueira. O problema é corrigido através de técnicas de cirurgias plásticas palpebrais.

Outro cachorro bastante levado para consultas veterinárias oftalmológicas é o pequinês. É uma característica da raça ter os olhos saltados, o que faz com que seus representantes sejam freqüentes vítimas de traumas e estejam predispostos a úlceras, infecções e protrusão do globo ocular (quando o olho pula para fora da órbita). Este último problema também é solucionado através de cirurgia.

Já os gatos costumam ter mais predisposição a desenvolver problemas oftalmológicos antes de completar um ano de idade. Neste período, eles não têm o sistema imunológico totalmente desenvolvido e ficam bastante sujeitos a conjuntivites virais ou bacterianas, que também podem estar associadas a problemas respiratórios. O mesmo pode ocorrer com gatos adultos não vacinados.

Indivíduos de raças como persa e himalaio também são mais propensos a ter problemas ligados à drenagem de lágrimas, úlcera e uveíte. (CV) 


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