Cadeira de rodas melhora a vida de cães

Cintia Végas Publicação 09/09/2005 - 00h00 Atualizado 19/01/2013 - 20h54

  Chuniti Kawamura / GPP
Chuniti Kawamura / GPP

Gildo Cougo diz que é preciso
saber todas as medidas do cachorro
para fazer a cadeira de rodas.

Alguns acidentes e problemas de coluna característicos de determinadas raças ou que aparecem com o passar da idade podem gerar danos físicos irreparáveis aos cães, comprometendo a mobilidade das patas traseiras dos animais e impedindo-os de caminhar normalmente.

Com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos bichinhos e facilitar sua locomoção, muitos proprietários têm optado em adquirir cadeiras de rodas ortopédicas especiais aos cães. O equipamento - que é indicado pelos médicos veterinários como recurso aos cachorros com paralisia dos membros posteriores que não obtiveram melhoria após cirurgia - vem sendo uma alternativa à necessidade de eutanásia.

Escorregão

A operadora de telemarketing Silvana Torres Custódios sofreu muito depois que sua cadelinha Fifi, uma mestiça de pequinês com boxer de 11 anos de idade, levou um escorregão no quintal, bateu a coluna e ficou com as patas traseiras paralisadas. “Depois do acidente, a Fifi ficava de pé com as patinhas da frente e arrastava a parte traseira do corpo, machucando a barriga no chão. Ela sofria e eu ficava muito chateada”, lembra.

O animal passou por tratamento, mas não apresentou boa recuperação. Com pena de sacrificá-lo, Silvana buscou informações sobre a cadeirinha. Há cerca de sete meses Fifi utiliza o equipamento e, devido a ele, adquiriu maior qualidade de vida e recuperou parte da força das patas. “Na época do acidente, muitas pessoas me condenaram por eu não querer levar a cadelinha para eutanásia. Hoje, todos se surpreendem com a vitalidade do animal”, revela.

Atropelamento

Há um mês, uma vira-lata vítima de atropelamento tocou o coração do engenheiro Alexandre Reali Costa. Ele encontrou a cadela toda machucada em uma rua de Curitiba e percebeu que o animal havia sofrido uma lesão na coluna, pois não tinha sensibilidade na parte traseira do corpo. “Recolhi o bichinho e o levei a um veterinário. Foram feitos uma série de exames e o profissional constatou uma fratura na coluna”, conta.

Já sentindo-se responsável e afeiçoado à cadela, o engenheiro não teve coragem de permitir que ela fosse sacrificada e nem de abandoná-la. “Acabei adotando-a e descobrindo que havia a opção da utilização da cadeira ortopédica, à qual ela se adaptou rápido. Hoje a Pretinha (como é chamada) precisa de mais atenção do que um cão que tem todos os movimentos, mas está bem e é muito feliz. O equipamento permitiu que ela conquistasse maior qualidade. Compensa vê-la alegre e brincando”.

Não adotada

Brenda, uma dachshund de seis anos, teve problemas de coluna e deixou de andar. Sua dona estava de partida para o Japão, não poderia levar o animal e estava em busca de alguém que pudesse adotá-lo. Devido às condições da cadelinha, ninguém queria ficar com ela e, às vésperas de viajar, a proprietária resolveu levá-la para eutanásia. O animal foi deixado na clínica da veterinária Célia Regina Takaoka, que ficaria encarregada de realizar o procedimento. A médica acabou não tendo coragem de cumprir a função a qual foi designada.

“Vi que a cadela era esperta e ativa. Os seres humanos, quando ficam paralíticos, ficam deprimidos e até perdem a vontade de viver. Com os animais isso não acontece. Mesmo se arrastando eles continuam a ter energia e não querem morrer”, diz. “Mandei fazer uma cadeirinha para a Brenda e a levei para minha casa. O problema na coluna acabou afetando o funcionamento dos rins e ela precisa usar uma fraldinha, mas vive bem e é muito carinhosa”.

Recuperação

Para a cadelinha dachshund Mila, da professora Anísia Peluchneo, o uso da cadeirinha significou a recuperação dos movimentos das patas. Após passar por duas cirurgias de coluna, o equipamento foi indicado ao animal como método de fisioterapia. “Quando a Mila começou a usar cadeirinha, ela não conseguia ficar de pé sozinha, não balançava o rabo e não segurava a urina. Hoje, ela já começa a dar os primeiros passos sem precisar do equipamento”.

ONG cuida de animais com paralisia

Na sede da Sociedade Protetora dos Animais, em Curitiba, dois cãezinhos sem raça que tiveram paralisia das patas traseiras aguardam adoção. Ambos utilizam cadeira de rodas ortopédica especial, são considerados bastante dóceis e ativos.

O primeiro animal, que recebeu o nome de Negão, foi abandonado na frente da sociedade bastante machucado. Logo que o encontraram, representantes da ong perceberam que ele arrastava a parte posterior do corpo e havia sido vítima de trauma na coluna.

“Não sabemos direito o que aconteceu, mas suspeitamos que ele possa ter sido atropelado. Mandamos fazer uma cadeirinha e hoje ele leva uma vida praticamente normal. Quando chegou, mal conseguia se mexer. Atualmente, passeia, corre e atropela a gente com as rodinhas da cadeira”, conta a voluntária da organização, Sula Gal-leno Brackmann.

Já o segundo cão é conhecido como Pelé. O animal é considerado um pouco tímido, mas bastante carinhoso e brincalhão. Assim como Negão, Pelé foi abandonado na entidade com lesões na coluna e sem conseguir andar. Hoje, a cadeira ortopédica, além de ajudar o bichinho a se locomover, também serve para fisioterapia.

“Acreditamos que Pelé nunca vá conseguir andar normalmente, mas desde que ele começou a utilizar a cadeirinha tem adquirido mais força nas patas traseiras. Ele já recuperou parte dos movimentos que tinha perdido e chega a ficar de pé com a parte traseira do corpo por alguns instantes. Ele e Negão são animais muito especiais. Por isso, uma pessoa para querer adotá-los também precisa ser muito especial, paciente e cuidadosa. Os animais requerem um pouquinho mais de cuidados do que os que não necessitam de cadeirinha”.

Quem quiser mais informações sobre os cães e tiver interesse em adotá-los deve ligar para (41) 3256-8211. No momento da adoção, é necessário apresentar documento de identidade, comprovante de endereço e assinar um termo de compromisso. (CV)

Cadeirinhas feitas sob medida

A cadeirinha de rodas ortopédica para cães é confeccionada como se fosse uma roupa. Para fazê-la, é preciso saber todas as medidas do animal. Informar apenas a raça não adianta, pois cachorros da mesma raça podem ter medidas bastante diferentes.

“É preciso saber a altura do corpo, a altura do chão até o tórax, a medida entre as pernas e a largura do animal”, informa o fabricante do equipamento em Curitiba, Gildo Cougo. “A cadeirinha é feita totalmente sob medida, com a utilização de alumínio, parafusos de aço inoxidável e rodas de carrinhos de bebê”.

Gildo confecciona as cadeirinhas de forma artesanal, fazendo uma média de oito por mês. O preço do equipamento varia conforme o tamanho do cachorro. Para cães pequenos, como o dachshund, o custo é de cerca de R$ 180,00. Já para cães maiores, como o São Bernardo, o preço médio é de R$ 350,00. Encomendas são atendidas através do telefone (41) 3339-0278.

Depois que o equipamento fica pronto, ele não pode ser utilizado em tempo integral pelo animal. O ideal é que o cão vá se acostumando aos poucos e, depois de bem adaptado, passe a noite e mesmo algum período do dia fora da cadeirinha. (CV)

Raças têm propensão a ter problemas

É muito comum que a paralisia dos membros posteriores dos cães seja gerada por traumas na coluna verificados após quedas e acidentes de trânsito. Porém, segundo o médico veterinário João Alfredo Kleiner, que é especialista em ortopedia animal, algumas raças têm propensão a ter problemas de coluna devido à existência de deficiência no disco intervertebral.

“Cães poodle, pequinês, lhasa apso e principalmente dachshund (‘lingüiça’) são os que mais apresentam a deficiência. Eles geralmente têm a parte dorsal mais fraca e, diante de uma queda pequena, já podem apresentar problemas de locomoção. Muitas vezes, o trauma pode vir a afetar o funcionamento da bexiga e do intestino, causando deficiência urinária e fecal”, explica.

Em animais de grande porte pode haver degeneração das vértebras da coluna e lesão do disco intervertebral em função de idade avançada. O problema é semelhante ao chamado bico-de-papagaio, verificado em seres humanos. Independente de tamanho, os cães vítimas de lesões do disco intervertebral passam por exame neurológico, raio-X e cirurgia. Posteriormente, são submetidos à fisioterapia.

A cadeirinha de rodas ortopédica, de acordo com João Alfredo, pode ser utilizada como último recurso para preservar a vida de animais que tiveram um trauma muito grande na medula espinhal ou não passaram por tratamento adequado, já não tendo recuperação eficiente. “As cadeirinhas são feitas sob medida e geralmente os animais se adaptam muito bem a elas”, finaliza. (CV)


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