Delícias do romance policial e da narrativa de enigma

Jornalista Externo Publicação 18/03/2007 - 00h00 Atualizado 19/01/2013 - 21h11

Foto: Divulgação

O romance policial é um dos gêneros mais lidos no mundo.

O romance policial é um dos gêneros literários mais lidos no mundo inteiro. O tipo de trama envolvida numa história policial captura o leitor desde suas primeiras páginas. No centro da trama, uma vítima, um culpado e um detetive. Algumas vezes, temos uma história mais cerebral: um enigma não solucionado, uma vítima tardiamente localizada, alguém que reclama por uma investigação crucial. Do outro lado, um detetive de raciocínio dedutivo ímpar, acompanhado, muitas vezes, de um assistente suspeito, ou quem sabe ainda, o culpado. O leitor certamente irá encontrar nos romances e nas narrativas todos estes clichês, que nem de longe significam textos desinteressantes, menos densos, pouco instigadores. Os leitores dos romances policiais ou das narrativas de enigmas se identificam com os detetives e tentam desvendar os casos, em parceria, ou até mesmo antes dele (essa é uma das grandes aventuras na leitura de um desses textos, antecipar as descobertas).

Alguns autores chamam isso de livro-jogo, considerado também por outros teóricos da literatura como sendo narrativas de enigmas ou ainda romances de enigmas. Outras vezes podemos ter uma história na qual impera mais ação, mais violência, mais ódio e vingança. Nesses casos os detetives, personagens quase sempre centrais dessas investigações, são mais humanizados, mais profissionalizados. Essas características os colocam no meio do povo, envolvidos, quase que imperceptivelmente, para, sem demonstrar qualquer suspeita, localizar e desvendar o suposto mistério. Eles saem a campo, vão às ruas. Saem à cata dos criminosos até que isso se concretize. É uma deliciosa aventura da leitura e, como tal, necessita somente que o leitor se deixe levar por elas. Como em todos os textos literários, textos de ficção, é necessário que o leitor faça uma espécie de pacto inicial com o autor. Sem o pacto fica muito complicado, para não dizer impossível, saborear a trama, deliciar-se com a tessitura. É preciso uma certa inocência, uma dose de ingenuidade para que este pacto aconteça. Mas é imprescindível que você leitor tenha uma outra cartada na manga, essa para ser usada na tentativa de antecipar as estratégias do autor, e assim, antes que ele descubra, você pode localizar o criminoso, surpreender o detetive e chegar, antes do final do livro, à solução do enigma. É um desafio constante colocado ao leitor. Exige-se dele inocência e perspicácia ao mesmo tempo. A primeira, colocada às claras, a segunda mantida em segredo: o maravilhoso ato de ler se concretiza aqui.

Nessas narrativas e nesses romances, muitas vezes o crime é fruto de uma dimensão maior, mais social, e não de um indivíduo, embora seu protagonista seja efetivamente o criminoso. Nestes casos, podemos considerá-los como romance noir. Há também os casos em que a trama é desvendada já nos primeiros versos do texto. Estes são os chamados romances de vítima ou romances de suspense. Neles o sabor passa a ser tentar, ao lado do investigador, fazer a prisão do culpado, que, sorrateiro e esperto, tentará, até o último instante da trama, se safar da justiça. É um outro sabor, mas de igual forma, majestoso.

Embora esses textos pareçam simples, eles prendem, surpreendem e se modificam a cada dia. As fórmulas são sempre reproduzidas ou copiadas, mas isso não leva o gênero ao desgaste, mesmo que alguns tentem assim colocar. Prova disso é o número cada vez maior de leitores deste gênero. O que vale, neste caso, é o acesso às aparentemente banais e perigosas histórias policiais, assassinatos, tramas diabólicas e tantos outros. É esse acesso que pode, apesar de não garantir, mas pressupor, entradas e permanências de novos leitores neste gênero, e se nossos alunos assim se comportarem, amém. Chegamos onde deveríamos.

A escola precisa, de uma forma ou de outra, redescobrir esses textos sob a pena de deixar passar um momento maravilhoso para colocá-los à disposição de mentes e cérebros pensantes, que adoram um desafio. Nossos jovens estão ávidos por aventuras intelectuais, mistérios aparentemente impossíveis, mas bem ao gosto da adolescência. Nossos alunos infanto-juvenis precisam urgentemente se relacionar com esses criminosos. Nossos alunos precisam conhecer as artimanhas do crime, do roubo, dos assassinatos. Eles necessitam encontrar dentro de si mesmos a maldade, a morbidez, a sordidez e o peso que tudo isso representa ao homem, à vida e às coisas que daí advêm. E, antes que os puritanos nos digam, ler esses textos não levará ninguém ao mundo real do crime. Ler esses textos não fará com que nenhum aluno, ou leitor, se torne devasso ou imoral. A viagem da leitura nos leva para outros universos, outros lugares, quase todos muito irreais, ficcionais, embora o concretizemos em nossas mentes.

E que os professores, na redescoberta do trabalho com esses textos, não os tratem de forma utilitarista, lendo-os, e discutindo-os como mote, ponto de partida, “ganchos” para se trabalhar as questões de violência hoje, vividas por todos nós. Não é só para isso que servem as letras e as artes, pelo menos no primeiro momento. As leituras desses textos são, para todas as coisas, desde que sejam elas legítimas, e se não sabemos quais são as legítimas, que tal perguntarmos aos alunos? “Sê plural como o universo”, já dizia Fernando Pessoa. 


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