Cresce o interesse por adoção de crianças mais velhas

Mara Andrich Publicação 05/10/2008 às 00:00:00 Atualizado 19/01/2013 às 21:27:49

Um dos grandes problemas nos processos de adoção brasileiros sempre foi o fato de que as crianças maiores de 10 anos são renegadas, acabam permanecendo nos abrigos sem perspectivas de vida. Isto porque 80% dos casais que procuram uma criança para adotar em Curitiba preferem bebês ou crianças com no máximo dois anos de idade, segundo dados da Vara de Adoção. Porém, para alegria dessas crianças, essa realidade vem mudando.

Segundo os mesmos dados, de uma média de 40 casais que procuram a Justiça para tentar adotar na capital, cerca de 20% deles já estão querendo crianças com mais de dez anos, o que demonstra o início de uma mudança cultural da sociedade e, acima de tudo, um alívio para quem passou muito tempo em um abrigo, sem saber do seu destino.



O juiz da Vara de Infância de Curitiba, Fabian Schweitzer, faz um alerta: “As pessoas que querem adotar têm que se conscientizar de que vão começar a faltar bebês, pois os juízes só vão poder disponibilizá-los para quem realmente estiver impossibilitado de gerar”, afirma. Para se ter uma idéia, há cerca de cinco anos a Vara de Adoção recebia cerca de 80 bebês, mensalmente. Hoje o número não chega a 20. A quantidade de casais é o dobro.

Para Schweitzer, essa diminuição se deu principalmente pelo fato de que as mães têm mais oportunidade de desenvolverem a gestação com saúde, sem riscos e, com isso, ficam mais confiantes e não entregam o filho. “Hoje temos muitas políticas públicas de atendimento às gestantes e a mortalidade infantil vem diminuindo bastante. Com isso, essas mães se sentem mais protegidas e não abandonam tanto seus bebês”, analisa.

A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) realizou em abril deste ano a pesquisa Percepção da População Brasileira Sobre a Adoção. O estudo - que ouviu 1.562 pessoas em todo o País - apontou que a grande maioria dos entrevistados (32,1%) só adotaria bebês na faixa etária de zero a seis meses. Uma minoria (1,1%) afirmou que adotaria crianças maiores de 12 anos. O interessante é que 18% das pessoas disseram que não se importariam com a faixa etária, 2,7% adotariam crianças entre 9 e 12 anos, 3,4%, de 6 a 9 anos, 13,7% de 3 a 6 anos, e outros 28,2% adotariam na faixa etária de seis meses a 3 anos de idade.

O juiz de Florianópolis, em Santa Catarina, que coordenou a pesquisa, e também vice-presidente da AMB, Francisco Oliveira Neto, diz que é preciso desmistificar os processos de adoção, tirar a idéia das pessoas de que adotar é muito demorado, que os processos emperram por conta da burocracia. Para ele, o que é preciso é mudar a cultura de querer apenas bebês, de preferência do sexo feminino, brancos e de olhos claros.

“Claro que todos têm direito de escolher, não nego isso. Porém, nosso dever é alertar as pessoas da conseqüência dessas escolhas. Quanto mais se escolhe, mais vai demorar o processo”, analisou o juiz.


Desinformação preocupa


A desinformação a respeito da adoção foi outro ponto preocupante que a pesquisa Percepção da População Brasileira sobre a Adoção, da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), apontou. A AMB também vem realizando a campanha Mude um Destino. Na segunda fase da campanha, este ano, a idéia é conscientizar as pessoas sobre a chamada “adoção à brasileira”, ou o famoso “jeitinho brasileiro” na hora de adotar, o que é totalmente errado e fora da lei.

Aliás, o que a pesquisa sobre a percepção apontou foi justamente isso: 37,4% dos entrevistados, a maioria, disse que procuraria uma criança para adotar em um hospital, e 28,7%, em abrigos. A quantidade de pessoas que procuraria em uma vara de adoção, que é o modo correto, é de 35%.

A Mude um Destino quer chamar a atenção para que os candidatos à adoção façam todo o processo na Justiça, para evitar aborrecimentos.

O que ocorre muito, segundo o juiz da Vara de Adoção de Curitiba, Fabian Schweitzer, é que os casais tentam achar primeiro a criança e só depois ajeitar os “papéis”. “Isso é totalmente errado. O casal vai correr o risco de ter que enfrentar um processo na polícia, outro na Justiça e ainda a mãe biológica pode querer de volta o filho”, diz. Outro alerta que Schweitzer faz é com relação à penalidade da mãe biológica. Ou seja, as mães que não querem ou não têm condições de criar os filhos devem entregar ao juiz, e não abandonar. O site da campanha é www.amb.com.br/ mudeumdestino/.

Apadrinhamento para tentar reverter situação


Para os especialistas, um dos grandes problemas que leva casais a escolherem tanto na hora de adotar é a vontade de satisfazer seus próprios desejos, esquecendo de que quem realmente está precisando de afeto é a criança. Essa afirmação é da psicóloga Ana Lúcia Cavalcante, que atua no Projeto Recriar, organização não-governamental que (ONG) orienta interessados em adotar). O Recriar, por sua vez, está tentando reverter a situação de crianças com mais de dez anos de idade que estão esquecidas nos abrigos, com o projeto Apadrinhamento Afetivo. O projeto visa a recrutar pessoas que tenham disponibilidade e vontade de apadrinhar uma criança com mais de dez anos. Em Curitiba, segundo a ONG, há 120 crianças em condições de serem adotadas - que já foram destituídas do poder familiar - mas até agora apenas 20 delas têm este “padrinho”. Segundo Ana Lúcia, as crianças que têm alguma doença, possuem deficiências físicas ou negras são mais renegadas ainda. A triste realidade levou a ONG Recriar a criar o projeto Apadrinhamento Afetivo.

Quem participa assiste a três palestras (sempre aos sábados pela manhã) para entender um pouco do histórico de cada criança. A ONG procura cruzar o perfil do padrinho com o de alguma criança que está em abrigos (atualmente quatro abrigos participam do projeto). Depois disso, o padrinho inicia um período de convivência com a criança, sempre supervisionado pela Recriar.

Segundo Ana Lúcia, o projeto é uma prevenção necessária. “Se não ocorrer a adoção ou o apadrinhamento, estas crianças vão chegar aos 18 anos tendo que se virar sozinhas, sem um rumo na vida. Por isso esse projeto é tão importante para todos os que estão envolvidos nele”, explica a psicóloga.

Quem quiser apadrinhar uma criança, o mês de outubro será a última chamada, com palestras nos próximos dias 18 e 25. O telefone da ONG é (41) 3264-4412. O site é www.projetorecriar.org.br.

Adoções internacionais com grande freqüência


As adoções internacionais também ocorrem com freqüência no Paraná. Os países que mais adotam são a Itália e os Estados Unidos. No ano passado, 37 adoções internacionais foram efetuadas no Paraná, com 74 crianças. Em 2006, foram 39, com o encaminhamento de 39 crianças. A diferença entre o número de adoções e a quantidade de crianças se dá porque outros países optam com mais freqüência à adoção de grupos de irmãos.

O órgão responsável pelas adoções internacionais no Paraná é a Comissão Estadual Judiciária de Adoção do Paraná (Ceja). O foco da Ceja são justamente as crianças que não são adotadas por aqui, como por exemplo aquelas com grupos de irmãos, com doenças ou deficiências, ou negras. Quando foi criado, em 1989, o órgão tinha a finalidade de atuar em questões de tráfico de crianças, mas hoje disciplina todos os processos.

Porém, como explica a assistente social da Ceja, Jane Prestes, os processos não são tão simples. Primeiramente elimina-se a possibilidade da criança ser adotada por um casal brasileiro. Em seguida, a preferência fica com os brasileiros residentes no exterior. Não dando certo quaisquer dessas alternativas, a Ceja procura estrangeiros residentes no Brasil e, por último estrangeiros residentes fora do Brasil.

“O Brasil obedece à convenção de AIA. Os países possuem organismos cadastrados que se responsabilizam pelos casais de fora”, explicou Jane.

Para ela é um trabalho minucioso. “Nós não podemos nos equivocar em hipótese alguma, pois não podemos deixar a criança sofrer mais uma vez”, afirma.


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