Feiras noturnas se tornam grande atração em Curitiba

Rhodrigo Deda Publicação 20/03/2005 - 00h00 Atualizado 19/01/2013 - 20h50

  João de Noronha / GPP
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De terça a sexta-feira, população comparece em grande número nos
pontos espalhados pela cidade.

Todas as noites, de terça a sexta, acontecem feiras noturnas em diversos bairros de Curitiba. São derivações de feiras livres, que segundo o diretor de Unidades de Abastecimento da Secretaria Municipal de Abastecimento, Luiz Dâmaso Gusi, dão oportunidades para que as pessoas que trabalham o dia todo possam fazer suas compras de produtos como frutas, verduras, hortaliças, entre outros, além poderem degustar comidas étnicas e regionais. “Estamos observando uma mudança de hábitos de compra dos consumidores, que procuram uma disponibilidade maior de serviços, com horários flexíveis que atendam suas necessidades”, afirma.

Gusi diz que Curitiba é uma cidade que chama as pessoas para as ruas, o que vem contribuindo para o crescimento das feiras. Além disso, ele ressalta que o fato de a capital ter mais de 30 etnias instaladas nos bairros há muito tempo reflete-se nas feiras, que acabam por diversificar a oferta de produtos.

Gusi quer aproveitar a diversidade cultural para que as feiras possam trazer mais informações sobre as etnias que deram origem ao povo curitibano. Além disso, a quantidade de produtos é enorme, destaca.

Segundo ele, a secretaria está começando um processo de aproximação junto aos consulados, para poder resgatar a formação desses povos. “Assim podemos fazer uma caracterização mais verdadeira, criar novos produtos e, também, levar cultura às pessoas”.

Conforme estimativas do diretor, as nove feiras noturnas envolvem 111 permissionários, gerando 513 empregos diretos e indiretos. Segundo ele, estima-se que mais de seis mil consumidores visitem os locais. Todas juntas, as feiras livres, orgânicas, gastronômicas e noturnas vendem mais de 160 toneladas de 600 produtos diferentes. Há em Curitiba 41 feiras livres e cinco de alimentos orgânicos. “Tudo começou com as feiras livres, a partir das demandas da população é que os nichos de mercados foram se segmentando”, diz ele.

Pesquisa

Esses dados deram motivo para que a seção das Unidades de Abastecimento da secretaria iniciasse uma pesquisa, numa parceria voluntária das Faculdades Dom Bosco, para levantar o perfil do público das feiras noturnas, livres, gastronômicas e orgânicas da capital. Gusi diz que o objetivo da pesquisa é  identificar o perfil e os hábitos de compra do público de cada feira. Segundo ele, a pesquisa de campo deverá acontecer neste mês, para que em abril as informações sejam tabuladas. “As pesquisas vão servir de base para o planejamento de políticas públicas, contribuindo para a eliminação de erros e antecipação de tendências de consumo”, afirma.

Gusi pretende também, através do perfil diagnosticado, utilizar o espaço das feiras para trabalhar conteúdos de todos os tipos. “Queremos trazer novas informações a respeito de qualidade de alimentos e seus aspectos nutricionais, mas também queremos realizar atividades culturais. Quanto mais novidade for desenvolvida, mais pessoas comparecerão aos locais.” Segundo ele, para isso, estão sendo organizadas parcerias com outras secretarias municipais, como a de Esportes, de Turismo e a da Cultura, através da Fundação Cultural de Curitiba. “Precisamos somar ações, para trazermos outros atrativos para as feiras, tornando-as também espaços de cultura”, diz.

Gusi afirma que, após a pesquisa estar concluída, a cada dois anos serão realizados novos estudos a fim de que se possa aferir a efetividade das políticas públicas adotadas. “Queremos não só cuidar do abastecimento, pretendemos influenciar tendências.”

Comunidade

Para Gusi, a comunidade local precisa ser envolvida no processo. “As feiras noturnas têm também a função de ser um ambiente de socialização e de encontro de pessoas.”

Ele afirma que uma das vantagem das feiras para os bairros em que elas acontecem é que tornam os locais mais seguros. “Nesses ambientes, há reforço da Guarda Municipal”, considera.

Turistas de todo o país

Com uma média de 13 mil visitantes todos os domingos, a feira do Largo da Ordem exerce influência significativa no comércio ao seu redor e atrai os turistas de todas as partes do Brasil. Segundo o coordenador de Apoio ao Empreendedor da Fundação de Ação Social (FAS), Luciano Martins Oliveira, é estimado que a metade dos visitantes seja de turistas, o que fez com que a FAS começasse a procurar criar uma estrutura para atendê-los melhor. “Além de ser um instrumento de geração de renda, a feira do Largo é um espaço em que é possível divulgar e promover Curitiba”, afirma.

Se a feira já foi em tempos passados um atrativo para lojistas do interior, que vinham comprar produtos para posterior revenda, atualmente o seu perfil está mudado. Nos últimos anos, a diversidade de produtos, assim como o número de barracas, foi ampliado consideravelmente. Com isso, surgiram problemas de trânsito, que, segundo Oliveira, é a principal reclamação recebida pela FAS. “Estamos querendo reorganizar o espaço, posicionando melhor as barracas.”

Livros

A feira do Largo abriga também um mercado cultural livreiro extremamente variado, para todos os gostos, em que se pode encontrar obras como O Manual do Guerreiro da Luz, de Paulo Coelho, até Os Irmãos Karamazov, de Feódor Dostoievski. O expositor Ronaldo de Souza afirma que traz os livros de acordo com os pedidos dos clientes. Seja com vendedores expondo na própria feira, ou em lojas no próprio Largo da Ordem, a venda de produtos culturais é intensa. É o que atesta Valéria Vargas Costa, dona da Trovattore. “A maior parte das vendas da loja acontece aos domingos”, afirma ela.

Os bares e restaurantes que circundam o Largo da Ordem têm público garantido. Aos domingos, as barracas de comidas típicas, um tema recorrente das feiras curitibanas, são da mesma forma bastante freqüentadas. Um dos primeiros a vender comida étnica na feira, Tadeu Kawalec, diz que na feira do Largo a sua receita chega a ser equivalente à de toda a semana. (RD)

No Batel, muita opção de divertimento

Local de socialização, conveniência para fazer compras, comidas típicas e qualidade. São esses alguns motivos que levam as pessoas a freqüentar as feiras noturnas. Se as feiras livres realizadas pelas manhãs vendem sobretudo frutas, verduras e hortaliças e outros produtos para consumo em casa, as feiras noturnas, ainda que também o façam, trazem outros atrativos - as comidas étnicas e regionais. Para Tadeu Kawalec, que afirma trabalhar no ramo de comidas típicas desde 1987, o que atrai as pessoas é qualidade, bom atendimento e diversidade.

Nas feiras é possível encontrar pratos da cozinha italiana, polonesa, japonesa, chilena, entre outras, além de regionais da cozinha brasileira. O construtor Amauri Stubert, por exemplo, diz que é praticamente só em feiras noturnas que encontra comida baiana. “Esse é um bom motivo para vir à feira”, afirma.

Ainda que sejam lugares em que se concentre uma grande variedade de comidas típicas, um fator comum atrai as pessoas às diversas feiras da cidade: a proximidade de casa. Nas terças-feiras, Rafael, 10 anos, e Gabriela, 5 anos, filhos da engenheira de segurança Fernanda Somenzari, sabem que após a escola é dia de pizza frita na feira da Rua Carneiro Lobo, próxima à Praça do Batel. “Eles lancham e eu aproveito para fazer compras”, diz ela, mostrando quatro sacolas com frutas e verduras. Fernanda diz que o local funciona também como ponto de encontro de conhecidos.

Há também o caso de quem alie a praticidade com a qualidade. A bioquímica Margaret Dallstella, que trabalha no Hospital Santa Cruz, aproveita o momento em que sai do trabalho para passar na feira do Batel. “Aqui eu encontro produtos de qualidade”, afirma ela. (RD)

Inovações no Cristo Rei

A primeira feira noturna coberta de Curitiba vem acontecendo desde o final do ano passado, às quintas-feiras, no Cristo Rei, e conta com o apoio da Secretaria Municipal de Abastecimento, que nas últimas semanas atendeu o pedido de permissionários e colocou asfalto no local. “Eles estão demonstrando visão empreendedora e merecem incentivos para a geração de renda”, afirma Antônio Leonel Poloni, secretário de Abastecimento de Curitiba. Para ele, a feira coberta cumpre o papel social de encontro e de resgate de diversos grupos, o que justifica as ações da Prefeitura.

Os feirantes estão formando uma associação, para poderem viabilizar seus projetos. O comerciante Osvaldo Brasil diz que são eles mesmos que alugam os toldos e que a intenção é de buscar patrocínios para a feira. Conforme a Secretaria de Abastecimento, técnicos estão ajudando os feirantes na elaboração do plano de patrocínio, que tem intenção de colocar um palco no local para realizar apresentações culturais. Segundo o diretor das Unidades de Abastecimento, Luiz Gusi, a intenção é que a feira do Cristo Rei se torne um modelo de organização, que possa ser usado em outras feiras.

Os empreendedores querem aproveitar o potencial da feira do Cristo Rei, capitalizando recursos junto à iniciativa privada para investir na ampliação do espaço coberto, iluminação e outras melhorias que possam agregar valor. Outra iniciativa que estão pensando em implantar, segundo a comerciante Maria do Carmo, é de um serviço de entrega de alimentos na região. Em relação a essas atividades de inovação e empreendedorismo, o comerciante Hélio Kajita diz que todo o possível está sendo feito para melhorar os negócios.

Segurança

Contudo, uma das preocupações atuais dos comerciantes diz respeito à segurança. Para o comerciante Luis Carlos Lopes, é preciso melhorar o policiamento. “Temos algum tipo de problema em todas, mas aqui é um pouco mais complicado”, afirma ele. (RD) 


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