A estonteante Taís Araújo é a primeira protagonista negra em novela contemporânea

Jornalista Externo Publicação 24/01/2004 às 16:00:00 Atualizado 19/01/2013 às 19:43:17
Gianecchini e Araújo em Da Cor do Pecado.

Antes mesmo da estréia, Da Cor do Pecado já entra para a história da teledramaturgia brasileira como a primeira novela contemporânea protagonizada por uma atriz negra. O responsável pela façanha é João Emanuel Carneiro, em sua primeira experiência solo em novelas. "Não quero suscitar polêmica ou fazer um tratado sociológico. Quero contar uma bela história de amor. Tem tanta gente branca e negra no Brasil que é natural haver romances inter-raciais", desconversa o autor.

O privilégio de ser a primeira protagonista negra de uma novela da Globo vai ser de Taís Araújo. Ela já havia protagonizado Xica da Silva, novela de época exibida em 1997 pela extinta Manchete. "É o momento de nós, negros, celebrarmos mais essa vitória sobre o preconceito. Torço para que essa novela abra caminho para a gente não só na teledramaturgia, mas também em outras áreas culturais", discursa. Na nova novela das 19h, Taís interpreta Preta, jovem maranhense que trabalha como vendedora de ervas medicinais em São Luís. Certo dia, ela se apaixona por Paco, ricaço que rejeita a fortuna da família, vivido por Reynaldo Gianecchini. O que Preta não imagina, porém, é que Paco deixou uma noiva no Rio. Uma típica dondoca mau-caráter, interpretada por Giovanna Antonelli, que planeja dar o golpe do baú no próprio noivo. "Até hoje, só fiz mocinhas fortes e heróicas. Com a Bárbara, vou explorar um outro lado da minha personalidade. Afinal, ela é o próprio ’ a que se refere o título da novela!", brinca.

Mas Paco não vai ser a única preocupação de Reynaldo em Da Cor do Pecado. Em sua quarta novela na Globo, o ator de 31 anos já encara uma empreitada digna de veteranos, como Tony Ramos em Baila Comigo e Glória Pires em Mulheres de Areia: viver o papel de gêmeos. Além do botânico Paco, ele vai interpretar também o lutador Apolo. "Sei que a responsabilidade é grande: os papéis são densos, gravo todos os dias, quase não sobra tempo para decorar. Mas esta é uma daquelas oportunidades que eu classificaria como irrecusável", afirma. Como os dois são diferentes entre si, Reynaldo precisa ir de um extremo ao outro. Para compor Apolo, por exemplo, teve aulas de kung fu com o mestre Dani Hu. Sobre eventuais críticas, Reynaldo se defende: "O meu maior crítico sou eu mesmo. Sempre assisto às minhas cenas e tento melhorar o que ficou ruim", avisa.

Mas nem só de atores jovens, como Taís, Giovanna e Reynaldo, é formado o elenco de Da Cor do Pecado. "Na hora de compor os núcleos, procurei mesclar estreantes e veteranos. Isso me deixa segura para experimentar e arriscar", observa a diretora Denise Saraceni, que aponta o novato Jonathan Haagensen, o Cabeleira do filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, como uma das revelações da novela. Juntos, os veteranos e estreantes de Da Cor do Pecado não somam mais que 25 personagens. Um número reduzidíssimo se comparado, por exemplo, a Mulheres Apaixonadas, que tinha mais de 105...

Embora garanta que a novela já esteja "fechada" em sua cabeça, João Emanuel ressalva que o gênero é interativo por natureza. "Até aceito mudar o rumo do meu trabalho, desde que mantenha a dignidade e a coerência dele", ressalva. "Escrever novela é que nem cozinhar para 40 pessoas: você tem de agradar aos mais diferentes paladares."

Reféns do folhetim

A escolha de João Emanuel Carneiro para escrever a nova novela das sete, Da Cor do Pecado, foi bastante inesperada. Afinal, o autor de 33 anos tem pouco menos de quatro na Globo. Mais famoso pelos roteiros que escreve para o cinema, como Central do Brasil, Orfeu e Deus É Brasileiro, João Emanuel estreou na emissora em A Muralha, de 2000, como co-autor de Maria Adelaide Amaral. No modesto currículo, apenas algumas poucas parcerias, como a novela Desejos de Mulher, de Euclydes Marinho, e a minissérie Os Maias, também de Maria Adelaide. "Para escrever uma novela, você precisa ter uma história de muito fôlego, capaz de se reinventar sempre. E, principalmente, condicionamento físico e mental de atleta para agüentar a maratona", diverte-se.

Como todo autor que se preza, o novato João Emanuel já desenvolveu algumas idiossincrasias. Uma delas é escrever de madrugada, até por volta das 6h. A outra foi decidir reler nos momentos de folga a obra completa de Alexandre Dumas, autor de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo. "Ele seria o melhor autor de novela das sete do universo", acredita. Além do escritor francês, João anda recorrendo também às dicas de Sílvio de Abreu, escalado pela Globo para supervisionar a trama de Da Cor do Pecado. Autor de alguns clássicos da teledramaturgia brasileira, como Éramos Seis, Guerra dos Sexos e A Próxima Vítima, entre outras, Sílvio garante que a maior virtude de um autor é a coragem. "Um bom autor não pode ter medo de dar asas à imaginação. Afinal, ele vai ter 180 capítulos pela frente para dizer o que bem quiser", ensina.

Aos 61 anos, Sílvio de Abreu lembra que já atuou como supervisor de outros autores da casa, como Carlos Lombardi em Vereda Tropical, Alcides Nogueira em O Amor Está no Ar e Maria Adelaide Amaral no remake de Anjo Mau. Vale ressaltar que o próprio Sílvio escreveu Jogo da Vida em 1981, sob a supervisão de Janete Clair. Em Da Cor do Pecado, ele ajudou João Emanuel não só a traçar o perfil dos personagens, mas também a escrever os primeiros 36 capítulos da novela. "A supervisão é fundamental para dar respaldo a quem está começando, mesmo porque não existe escola para formar autores. Novela só se aprende fazendo", teoriza Sílvio.


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