Ensinando filosofia por meio de filmes

Edilson Pereira Publicação 07/06/2009 às 00:00:00 Atualizado 19/01/2013 às 21:37:17
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Professor francês arranjou um método que está funcionando muito bem: ele ensina filosofia aos seus alunos assistindo a filmes, como Colateral, com Tom Cruise.

Basta entrar em qualquer escola - não precisa ser da periferia - para perceber que boa parte dos alunos não se interessa em aprender hoje em dia, embora, claro, se interesse em ingressar numa faculdade para ter diploma, profissão, enfim.

Uma parcela pequena da população estudantil leva o aprendizado a sério, a maior parte para pelo caminho e nem chega a cogitar entrar numa faculdade. Os números não mentem. Pode parecer ambíguo, mas é real.

Aluno estudioso hoje em dia é maltratado por colegas, visto de forma pejorativa, chamado por expressões rancorosas como CDF, caxias e nerd, ainda que seja o orgulho de qualquer pai e professor.

Como enfrentar uma galera sem interesse propondo ensinar filosofia, matéria que pode arrancar risos, deboche ou bocejos dos tipos mais radicais da sala? É preciso ser criativo. E muito.

O professor Ollivier Pourriol desceu do pedestal e foi ao encontro dos alunos. Se os tipos gostam de filmes como Clube da luta, o professor foi descobrir o que havia de filosofia no filme, para, a partir dele, transmitir conhecimento aos alunos.

Se os tipos gostam de Matrix, procurou no filme questões filosóficas para, numa tradução curta e grossa, unir o útil ao agradável. No cardápio cinematográfico também entram Sexto sentido, Colateral, Beleza americana, Forrest Gump, Coração valente, Gladiador, Blade runner, entre outros, que ajudam a disseminar conceitos como liberdade, noções de método, fronteiras entre consciência e percepção, além da diferença entre imortalidade e eternidade, neste caso, claro, pegando o filme Highlander em que o herói não morre nem a pauladas.

Pourriol começou a desenvolver o seu método em sala de aula em 2006, no último ano do colegial. Depois continuou numa sala de cinema, no cineclube MK2 da Biblioteca de Paris. O sucesso imediato o levou a fazer quatro conferências sobre a experiência.

O professor diz que não se trata simplesmente de ensinar filosofia por meio do cinema, mas de confrontar cinema com filosofia. Assim como ocorre na ficção científica em relação à física e outras ciências, ele diz que muitas vezes o cinema esclarece mais sobre filosofia graças a seu poder de identificação.

E foi assim que ele levou a sua galera para a sala de cinema e ensinou noções de dois grandes nomes da filosofia moderna: o francês René Descartes (1596-1650), pai do racionalismo e quem deu o pontapé inicial na Idade Moderna, com a expressão lapidar "Penso, logo existo".

O outro filósofo em questão é o holandês Baruch Spinoza (1632-1677), que, ao contrário de Descartes, achava que a emoção só pode ser superada pela emoção e nunca pela razão. Um duelo de gigantes, aliás, também nome de filme.

Pourriol, jovem francês com cara de jovem professor francês de filosofia, introduziu elementos de cultura pop e botou Brad Pitt, Tom Cruise, Bruce Willis e Cristopher Lambert para ensinar filosofia para a galera.

Pourriol começou com Descartes e Spinoza porque ambos procuraram universalizar o seu pensamento, conferindo uma forma mais acessível, democrática. No caso de Descartes, em vez de escrever suas obras em latim, ele optou pelo francês.

No caso de Spinoza, escreveu à maneira dos geômetras. Os dois também utilizam a metáfora do olho e da visão para falar sobre o espírito. Em Descartes, a luz da razão e em Spinoza "os olhos da alma". Segundo o professor, estas questões se relacionam com o mundo do cinema, através de metáfora, com os movimentos de câmera.

E como é que se dá isso na prática? Em Colateral, de Michael Mann, Tom Cruise personifica um matador profissional. Há uma cena numa boate em que cada movimento de câmera, de acordo com Pourriol, corresponde a um preceito do método cartesiano.

Está tudo ali: "Idéia clara e distinta (do desfocado à definição), divisão da dificuldade (zoom), invenção de uma ordem não natural (montagem), enumeração (panorâmica).

É delicado resumir, ainda mais sem estar assistindo ao filme, e eis por que no livro proponho uma montagem de trechos de filmes com descrições e diálogos, numa ordem que permite construir a idéia", diz ele.

Já no filme Matrix 2, num encontro com o Oráculo, o personagem Neo ouve: "Todos nós temos um papel, e cada um de nós deve desempenhar esse papel. Apenas uma coisa me interessa, o futuro".

O professor comenta: "O Oráculo, com essa pitada de ironia socrática que a caracteriza, uma vez que reivindica o Conhece-te a ti mesmo, está sempre um tempo à frente de Neo".

Todos percebem o problema. Cabe a cada um verificar. "É o que Descartes nos intima a fazer em seu Discurso do Método", sentencia. Como diria o aluno mais encardido da turma: "É bem doido, hein professor!". E o professor poderia responder: "É, mas funciona".

O método de Pourriol virou sucesso e ele, como bom francês, passou tudo para o livro Cine Filô - As mais belas questões da filosofia no cinema (Tradução de André Telles, 257 páginas, Jorge Zahar Editor), que está chegou este mês às livrarias, como parte dos eventos do Ano da França no Brasil, que se comemora este ano.

Em vez de choramingar as agruras da profissão, Pourriol foi em frente, inventivo e ainda ganhou notoriedade. A vida é para quem tem tutano e não para quem fica chorando. Não dispensando um trocadilho, ele poderia dizer que não descarta, jamais, uma missão espinhosa.

O Le Monde considerou Pourriol "um professor original", para Elle o resultado é "assombroso" (um pouco de exagero na declaração de Elle, mas tudo bem: deixemos a revista se assombrar em paz com o rapaz) e Le Figaro diz que "as teorias dos pensadores, aparentemente complexas, ilustradas por cenas ou diálogos memoráveis, se tornam mais claras e mais concretas".

Francês gosta de moda até na filosofia, mas parece que Pourriol andou acertando o alvo. Usar o cinema como instrumento de apoio pedagógico não chega a ser novidade, principalmente em disciplinas como história, arte, entre outras.

Mas dissecar os mecanismos do cinema para ensinar filosofia, não deixa de ser ousado; no mínimo uma tentativa de tirar do marasmo alunos que nas salas de aula insistem em ignorar todo o patrimônio que representa o conhecimento humano.

E Pourriol não pretende parar por aí. Ele já anunciou que tem planos de escalar outros filósofos em seus próximos projetos. Já tem roteiro na medida para Hegel, Kant, Rousseau, Michel Foucault, René Girard, Michel Serres e outros, para levar a seus alunos questões sobre temas como a representação das catástrofes, a manipulação na democracia, a saúde, a criação nas artes cênicas e na arte e assim por diante. Se o aluno não vai à filosofia, a filosofia vai ao aluno. É uma paródia de um ditado árabe, mas que caiu bem na França de Pourriol.

Claro que o livro não se resume ao produto de uma relação entre professor e alunos, de filosofia e cinema. Para quem gosta dos filmes citados, é também uma oportunidade de conferir questões que angustiam os personagens - por consequência o espectador -, resolvidas de forma pouca clara para o público.

Ou seja: é uma maneira de aprofundar uma discussão sobre filmes, servindo também de método para compreender outros. Então é uma questão de método? Sim, diria Jean-Paul Sartre, também filósofo francês. É uma questão de método.


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