"Frei Joe", de Tony Hendra, conta a história de um frei beneditino

Agência Estado Publicação 12/04/2006 - 16h23 Atualizado 19/01/2013 - 21h00

Tony Hendra é um humorista conhecido entre os ingleses. Foi editor-chefe da "Spy" e primeiro editor da "National Lampoon". Colabora ainda com freqüência para as revistas "New Yorker", "Harper's", "GQ", "Vanity Fair", "Men's Journal" e "Esquire", entre outras. É autor também de "Going too far" ("Ir Longe Demais"), clássica história da sátira norte-americana moderna. Ainda desconhecido no Brasil, o trabalho de apresentação é feito agora pela editora Objetiva, que lançou "Frei Joe", um divertido livro de memórias.

Em linhas gerais, ele conta como sua vida foi determinada pela influência do frei Joseph Warrillow, um frade beneditino desengonçado e gago, mas de extraordinária sabedoria. Assim, é apresentada sua trajetória pessoal desde os anos 1950, quando revelou um desejo juvenil de ingressar no sacerdócio, passando pelo fracasso profissional e emocional, marcado por problemas com álcool e drogas, até chegar à felicidade de seu segundo casamento.

Tudo começou em 1955 quando, aos 14 anos, Hendra viu-se envolvido com uma mulher casada e católica. Em plena guerra fria em que o catolicismo dominava as páginas da imprensa e da literatura, ele foi levado pelo marido dessa mulher à presença de um frade, com o propósito de ser salvo. Foi quando conheceu frei Joe.

Ele era um religioso diferente daqueles que Hendra conhecera no colégio católico, onde meninos apanhavam de cinto e eram acossados por cães. O beneditino gago, que jamais utilizava as palavras "erro" ou "culpa", acreditava que Deus estava em todas as pessoas e dizia que o egoísmo era, de fato, o pecado.

"Inicialmente, minha motivação para escrever esse livro foi inteiramente egoísta", disse Hendra, em entrevista à Agência Estado. "Como digo no livro, Joe deixou um vazio inesperado em minha vida e eu não estava em condições de saber como ajustar isso. Sendo escritor, tive de objetivar essa dor e essa perda e, ao mesmo tempo, memorizar o que aquilo significou para mim antes que se desvanecesse."

"Creio que minha geração - ao menos na Europa - enfrentou um problema terrível com seus pais", conta Hendra. "Muitos como eu não conheceram seus pais naqueles primeiros cinco anos cruciais da vida. Como outros, meu pai estava participando da 2.ª Guerra Mundial. Quando vieram finalmente para casa, eles não revelavam nenhum sentimento de falha por nos parecerem desconhecidos. Em nenhum deles havia essa força paternal - e o humor - que todo menino necessita." Hendra, aos poucos, assim como seus contemporâneos, descobriram os incríveis e incomensuráveis danos culturais, políticos e sociais que as guerras causaram à nação. Pior: eles não podiam responsabilizar os próprios pais por essas marcas profundas.

É o que explica, portanto, o caminho da sátira, da ironia, do escárnio escolhido pelo autor. "Recentemente, recebi de minha irmã uma caixa com documentos dos meus tempos de escola e, ao contrário da imagem que concebi de mim mesmo, eu era o verdadeiro palhaço da classe. Só me tornei realmente sério quando primeiro abracei o que pensei ser minha vocação monástica "

O livro revela que, ao se tornar religioso, Hendra evitou propositalmente todo e qualquer comentário satírico, buscando preservar a indestrutível imagem da Igreja Católica. Mas, ao conhecer com mais detalhes a estrutura da instituição e as pessoas que nela trabalhavam, Hendra percebeu que não podia deixar de atacar aquela situação, retratando-a da forma mais ridícula possível.

A recepção ao livro, porém, foi diversificada, colhendo tanto elogios rasgados como silêncio profundo de parte da imprensa. "Para apreciar a sátira, é necessário ter intimidade com a ironia dramática e certo grau de sofisticação pelo qual se processa a informação", comenta o escritor. "Mas, o que encontro é uma maioria formada maciçamente por preguiçosos; mesmo os razoavelmente bem informados têm a mente morbidamente obesa."

Em "Frei Joe", Tony Hendra busca apresentar um perfil de religioso que, acredita, seria ideal para o novo papa Bento XVI. "Eu penso que Joe era exatamente o que João XXIII significou para o Vaticano: democratização da Igreja, quebrando o aperto inoperante da hierarquia, e buscando a revitalização de suas tradições, reinterpretadas para a alma moderna."

Para o próximo livro, o escritor pretende voltar a esse personagem, agora criando um passado para ele, ambientado no século 11. Hendra sustenta que tem a memória de Joe a pendurar sobre a tradição que representa. "Meu livro ajustará o frei Joe ao ponto mais elevado. O passado é território virgem, um inteiro mundo novo."


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