Pios da Mata, patrimônio do Espírito Santo

Redação O Estado do Paraná Publicação 11/01/2005 - 01h45 Atualizado 19/01/2013 - 20h49

O som cadenciado do inhambu-açu. O arrulho suave do juriti, do jacu, do curiango. O som ligeiramente rouco da zabelê. O piado agudo do bem-te-vi, como se recitasse seu próprio nome. O sussurro da coruja. O chilreado do tucano. O grasnado alternadamente suave e forte do jacu-açu e do jacu-pemba. O chororocado do macuco. Tantos sons, e tão diferentes entre si - como são diferentes as plumagens, as cores e as combinações entre elas, os formatos de corpo, os hábitos e os jeitos de ser das aves que os emitem.

Se, em tempos de progressivo afastamento do ambiente natural, é difícil para a maioria de nós embrenhar-se nas matas para ouvi-los, ao menos podemos trazer esses sons para perto de nós. É um artefato feito pelo homem que nos propicia esse re-encontro com a natureza: os pios, instrumentos que, ao serem soprados, imitam os sons de aves.

Há exatos 101 anos uma pequena fábrica em Cachoeiro do Itapemirim, no interior do Espírito Santo, se dedica a esse paciente labor. Ali, mãos hábeis esculpem com preciosismo a madeira para aos poucos extrair dela o exato tom, em 36 modelos que permitem reproduzir o som de mais de uma centena de animais.

A fábrica sobrevive hoje quase intacta, no mesmo lugar onde foi criada em 1903 por Maurílio Coelho, um capixaba nascido em 1868 na fazenda da Saudade, em Muqui, que desde cedo revela pendores criativos. Ao se casar, muda-se para Alegre, onde contraria o destino de fazendeiros, tradicional em sua família, e abre uma marcenaria. O gosto pelas engenhocas e a fama de inventor rendem em 1902 o convite para ir morar na ilha da Boa Esperança, em Cachoeiro do Itapemirim, naquele momento a maior cidade do Espírito Santo, e que então se preparava para ser a primeira cidade do Estado e a décima do país a ter energia elétrica.

A usina iria precisar de uma pessoa habilidosa para cuidar da roda d’água que a movia, confeccionar peças e garantir sua manutenção. Maurílio seria esse homem. Ele se muda com mulher para a ilha, rebatizada naquele ano de Ilha da Luz. Naquela virada de século, Cachoeiro do Itapemirim ainda era uma exuberante floresta constituída por Mata Atlântica e habitada pelos índios puris. Maurílio não se deixa assustar pela fama de "temíveis" e "violentos" dos índios. Enquanto aprende com os ingleses da usina o ofício de ocupar-se do torno, aprende com os puris a andar na mata, a conhecer os animais, a pescar, a caçar. E se interessa particularmente pelos instrumentos que os artesãos indígenas entalham em bambu taquara para atrair pássaros durante as caçadas.

Já um ano após sua mudança para a Ilha da Luz, abre a "Fábrica de Pios de Aves Maurílio Coelho", produzindo os pios em madeira em vez do bambu. Ganha o direito de usar o que os documentos descrevem como uma "lâmina d’água" desviada do rio Itapemirim, necessária para movimentar o moinho d’água que permitiria trabalhar a madeira usando um torno. Desenvolve dentro da fábrica mesmo as rústicas ferramentas necessárias à produção. De experiência em experiência, elege algumas madeiras, como o jacarandá, a peroba e o marfim, por suas propriedades de reprodução do som sem distorções. Nas ilhotas ao redor de sua casa, vai identificando espécies mais leves, como as conhecidas como flexas, para elaborar os trinadores, pequenos objetos inseridos dentro dos pios e que devem vibrar ao sopro humano, para chegar ao som característico de cada ave.

O afinco no desenvolvimento dos produtos não demora a ser recompensado, pelo mercado e pela crítica. A Fábrica de Pios de Aves Maurílio Coelho se torna uma importante fornecedora de pios para os praticantes de caça no país. Em 1922, recebe o Grande Prêmio na exposição internacional realizada em São Paulo em comemoração ao Centenário da Independência do Brasil, um reconhecimento pela "excelência de trabalho".

Até o fim da vida Maurílio permanece à frente da fábrica. Excêntrico e determinado, na velhice, insone, ia nas madrugadas pescar nas margens do rio, conta sua neta Yara. "Ele gostava tanto de caçar e ouvir os pássaros que foi comemorar os 70 anos na mata. Acabou se perdendo e dormiu no alto de uma árvore". Ao morrer, em 1956, já havia transmitido o ofício para seus filhos, com os quais a empresa chega ao seu auge nos primeiros anos da década de 60, exportando os pios para os Estados Unidos, Canadá, Europa, África, Austrália e Ásia. Com um quadro de 28 funcionários, a produção recorde chega a 5.000 pios mensais.

No mercado da música

Em 1967, a lei que proíbe a caça no Brasil traz dificuldades para a fábrica. Aos poucos, contudo, começa a crescer um outro mercado, o da música. O uso de instrumentos de efeitos sonoros é antigo. Leopold Mozart, pai do conhecido compositor, por exemplo, já os empregava largamente em suas composições. Mas foi na segunda metade do século 20 que esse uso se intensifica, a partir de nomes como John Cage, que passa a trabalhar com a paisagem sonora e traz para a música os sons do entorno. É a música como escuta, como a relação que se estabelece com tudo o que se ouve. Nesse novo diapasão, o universo da percussão se amplia e passa a incorporar diferentes instrumentos de efeitos sonoros, tais como o som de cachoeira, da chuva, das ondas do mar... e dos cantos dos pássaros.

Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Jorge Ben Jor, Airton Moreira e Dedé Sampaio são alguns dos músicos brasileiros mais conhecidos que já fizeram uso dos pios vindos do Espírito Santo. No exterior, um grupo que faz uso intenso deles é a banda espanhola de percussão Tacté Queté. O que os músicos frisam em seus depoimentos é a extrema qualidade de seu som algo que os ouvidos normais não sabem conscientemente distinguir, mas que o colecionador Donn O´Meara, americano de Michigan, dono de mais de 500 peças, testemunhou em 1977: "Os pios de caçar Coelho são os melhores, os mais perfeitos e afinados do mercado."

Atualmente, aos 101 anos, a fábrica produz cerca de 1.200 pios mensais, administrada pelo bisneto de Maurílio, Gustavo Coelho. Nela, o que mais surpreende é a visão inusitada da "lâmina de água" que continua jorrando com força dentro do prédio e produzindo um barulho muito forte, como a nos dizer que, ali, no borbotão da água ou no ofício dos pios, tudo remete à natureza. A água não serve mais para movimentar os tornos. Fora isso, contudo, tudo o mais parece parado no tempo: os próprios tornos, as serras, o formão, os instrumentos rústicos feitos por Maurílio, o modo de produção.

Em vez do jacarandá, ou da peroba, caviúna, aroeira, orelha de onça, amarelo do Pará, guaribu rajado, tabaco, pau marfim, peroba e paraju que já foram utilizados ao longo dos anos, agora se usa o ipê roxo (Tabebuia avellanedae) vindo de restos de serrarias do Pará. São pequenos pedaços que, não fossem comprados pela Fábrica de Pios, teriam um destino bem menos nobre: seriam vendidos como sucata pelas serrarias para queimarem como lenha ou carvão.

A manualidade continua permeando todas as etapas, do primeiro corte da madeira à sutil afinação dos instrumentos uma fase que pode por a perder todas as anteriores e, feita com mais pressa ou menos cuidado, simplesmente inutilizar o pio. Tudo pronto, os instrumentos vão para caixas também de madeira para assim chegarem às mãos dos músicos ou dos colecionadores. Nos últimos anos, além de um crescimento do mercado de brindes, a fábrica de pios assiste a um aumento da procura por observadores de pássaros, praticantes de uma atividade que em inglês já ganhou nome próprio, "birdwatching".

Em 2003 a Fábrica de Pios de Aves Maurílio Coelho foi tombada pela Câmara Municipal, considerada pelos vereadores "cartão de visitas de Cachoeiro do Itapemirim", ao lado da casa onde nasceu Roberto Carlos e da casa onde nasceram os irmãos Braga, Rubem e Newton, ambos escritores. Há nesse momento idéias de expandir suas atividades como uma fundação destinada a preservar o saber da elaboração dos pios, um conhecimento que pertence à história do Espírito Santo, difundindo-o às novas gerações e desdobrando as suas implicações e compreensão.

Nada mais necessário. Afinal, os pios de pássaro feitos há 101 anos em Cachoeiro do Itapemirim demonstram que é possível haver integração e harmonia entre o patrimônio natural e o patrimônio construído. Neles, o "artifício" dos homens não rompe, mas se une e se integra ao ambiente natural. Não significa uma cisão, mas uma reconciliação.

Um passarinho pia para se comunicar. A mãe chama o filhote. O filhote pede amparo. Os iguais se chamam para formar os grupos. Os diferentes para demarcar terrenos. Macho e fêmea para se atrair mutuamente e assim celebrar a vida. Ao nos permitir o acesso a essa diversidade de sinfonias, que os pios nos ajudem a afinar o nosso sentido de escuta, de atenção curiosa e amorosa pelo que acontece a nosso redor, em vez desse egoísmo autista a que a chamada civilização, com o acirramento da competição entre as pessoas, nos trouxe. Que sirvam para que nos reconciliemos com a natureza e com a sabedoria de nossos ancestrais, diretos ou não como os índios puris que ensinaram os seus mistérios a Maurílio Coelho. Da cadência do inhambu-açu à suavidade do juriti, da rouquidão da zabelê ao grasnado do jacu-pemba, do chororocado do macuco ao sussurro da coruja, que os pios nos relembrem como é rica e diversificada a vida. E sirvam, afinal, para que a gente escute mais o próprio silêncio.

Adélia Borges diretora do Museu da Casa Brasileira.


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