Cidades do interior

Publicado em 28/04/2007 às 21:00:00 - Atualizado em 20/01/2013 às 09:42:17
Perfil de Wilson Bueno

Wilson Bueno nasceu em Jaguapitã, no norte do Paraná, em 1949. Lançou seu primeiro livro, Bolero's Bar, em 1986. Colabora com resenhas para o jornal O Estado de S. Paulo e a revista Ideias. Bueno também é colunista do jornal O Estado do Paraná e do portal Paraná Online.

Fico sabendo, através de estatísticas recém-divulgadas pelo IBGE, que dos quase 400 municípios paranaenses, 320 têm menos de 15 mil habitantes. Ou seja, a maciça maioria de nossas cidades são quase aldeias, cidadezinhas a pulularem no mapa e a compor uma geografia encantada.

Somos mesmo um vasto hinterland. Não só o Paraná, o país é uma colossal estância sertaneja e interiorana. Quando viajo de avião, notadamente nos vôos noturnos sobre Minas Gerais, o estado brasileiro com maior número de municípios, fico invariavelmente seduzido por aquelas cidadezinhas, cintilando ao longe, profusas, perdidas ilhotas de luz.

Vislumbro o mistério ali, o gozoso mistério de vidas talvez dormindo, talvez sonhando, talvez amando, talvez morrendo, talvez perguntando às estrelas e ao mesmo avião em que passo o que pertence à imaginação da noite, feito um poema de Kaváfis. São assim os céus interioranos onde possivelmente vaguem mais que aviões de carreira.

Um disco-voador, um bólide luminiscente, um objeto não identificado, como nas canções que cantávamos na Ipanema dos anos 70, olhando o pálido céu urbano e a enviar, desde as Dunas da Gal, um beijo amoroso e fátuo ao firmamento sobre nossas jubas. Saudade, nostalgia, notícias levadas pelo vento a quem de direito, no Bacacheri, em Jaguapitã ou Madagascar.

Todo poeta canta sua aldeia. E se por ela, como em Fernando Pessoa, não a atravessa o Tejo, que é um rio vetusto e magnificente, hão de correr nela, sempre, os riozinhos em flor. Como, por exemplo, o Panambi-y, que em guarani quer dizer “borboletinha”, nas cercanias de uma cidade que não sendo minha é como se fosse e vibra em mim feito um haicai afetuoso - Ponta Porã, na fronteira do Mato Grosso do Sul com a paraguaia Pedro Juan Caballero.

Minúscula urbe toda plantada de glicínia, onde a noite mora com sua lua leitosa. A soprar pelas varandas encaloradas uma brisa única e insubstituível que vem de longe, de Cerro-Corá, talvez. Ali, nas nascentes do Aquidaban-Nigui, a tumba de Lopez, o herói paraguaio da Guerra do Paraguai...

Poéticos nomes de cidadezinhas que são na gente assim como um poema namorador: Azul, Limoeiro da Serra, Cordisburgo, Açuanã-Piri (uma homenagem aos vaga-lumes...), Lindóia, Rosa do Vale, Nova Prata, Jaguapitã, Águas do Salto (onde nasci...), Laranjinhas, Novo Oriente, Andaluza, Feliz, Colibri do Mato Dentro, Verbena, Itabira, Conchinha.

E por último e não menos importante, o mais belo nome de cidade de interior que conheço - Arroio d’Água do Alecrim Mimoso, pequenina aldeia do Piauí. Estado onde, às margens do barroso Parnaíba, mora um amigo - o poeta Benjamim Santos, “Beja”, para os íntimos, o que igualmente bem poderia ser o nome de uma dessas aldeias de caminho por onde passa e venta forte a poesia.

Cidadezinhas que a memória da gente recolhe com uma saudade que é maior, bem maior que o domingo que neste momento vige em nós igual que uma canção melancólica. Arroio d’Água do Alecrim Mimoso. Quem lá for, verá.

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