Pausa no meio do caminho

Publicado em 22/05/2002 às 12:04:16 - Atualizado em 20/01/2013 às 09:34:26
Perfil de Armando Nogueira

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Paris - A caminho da Coréia do Sul, meu posto de trabalho, na Copa do Mundo, dou uma paradinha de uma semana em Paris. Se a seleção campeã do mundo não valesse uma pausa, certamente, a cidade bem que vale. E como vale! Pelo azul profundo que celebra a primavera, parisiense, pela brisa da noite que trama, em silêncio, o amor entre às flores - enfim, pra pressentir os fluídos de Guga que chega a Roland Garros, justamente, na semana em que estou me mandando pro fim do mundo, em nome de outra aventura do esporte. Ossos de um ofício de que já me ocupava em priscas eras.

Este ano, Paris transpira euforia. A seleção francesa está prestes a defender o título de campeã do mundo. Dela será a honra de inaugurar o mundial-2002, na sede de Seul, dia 31. Nos jornais, nas revistas, nas esquinas e na tevê, uma só voz ressoa, em tom do mais ardente nacionalismo: "Les Bleus" (Os Azuis), alusão à cor da camisa da seleção nacional. Há quatro anos, a França vem venerando como símbolo pátrio de triunfo, a camisa campeã mundial de 98.

Sou da terra que já viveu quatro vezes a profunda emoção de ganhar a Copa do Mundo. Sei muito bem o que é construir uma legenda, embora saiba, também o que é vê-la destroçada pelo pecado mortal da avidez, da falta de escrúpulos, da mercantilização. A camisa canarinho do Brasil é, hoje, um mero objeto de mercancia nas mãos despudoradas da cartolagem da CBF.

O mito dos "Bleus" tem, pros franceses, o mesmo valor que têm para os italianos a mística da "Azzurra". Quem pensa que camisa não ganha jogo, infelizmente, pouco sabe dos sortilégios do futebol. A camisa é a aura de uma equipe. É a alma que aflora, pra dar mais ânimo ao corpo.

Os franceses estão confiantes, não apenas na força espiritual, mas também, no poderio técnico, tático, físico e mental da equipe. Seu favoritismo é inquestionável, em toda a Europa. Há quem assegure que a seleção de 2002 é superior à de 98. Por ser a mesma base da seleção campeã, com o dobro de experiência. Por estar remoçada pelo frescor da nova geração. Não há no continente europeu exemplo melhor de renovação do que a França, que colhe, hoje, os frutos de um programa iniciado no fim dos anos 70. A Federação Nacional cuida, detidamente, de todas as categorias: dos infantis aos adultos, passando pelos "subs" 17, 20, 23.

Numa entrevista ao "France Foot-ball", o técnico Aimée Jacquet, da seleção de 98, hoje, diretor-técnico da Federação, afirma que "a França representa, no momento, uma verdadeira máquina técnica, altamente poderosa, sobretudo, no aspecto ofensivo". Jacquet acredita que o plano lançado há mais de 20 anos continuará a dar alegrias nos próximos 15 anos.

A França estréia no mundial contra a seleção do Senegal. O rival não chega a assustar, mas os "Bleus" sabem muito bem que o futebol, em si, é um tanto irracional. Daí, que, tal como caldo de galinha, uma dose de cautela não faz mal a ninguém. A França é freqüentadora assídua do mundial. Compareceu a 10 Copas, tendo conquistado a última, derrotando o Brasil por 3 a 0. Já o Senegal é marinheiro de primeira viagem. Tem 120 mil jogadores federados contra dois milhões e 200 mil na França. É sabido que, pelo menos no futebol, não se conhece o gigante pelo tamanho do PIB, mas chega a constranger constatar que a França alcança a renda anual de 23 mil dólares 'per capita', enquanto o Senegal chega a pouco mais de mil dólares.

Copa e cozinha

- 10 a 0 é a maior diferença de gols numa partida de Copa do Mundo. Aconteceu em 82, na Espanha: Hungria, 10, El Salvador, 0.

- A prefeitura de Seul contratou uma claque pra dar força às seleções de parca torcida, durante o mundial. São mil fogueteiros de aluguel, reunidos num canto do estádio, a torcer, febrilmente, pelos times carentes de calor humano.

- Saia justa vai ser o encontro, nos jogos da Copa, do presidente da FIFA, Sepp Blatter, com seu vice-presidente e anfitrião do mundial, o coreano Chung Mong Joon. Chung é um dos mais virulentos signatários da ação judicial com que metade do Comitê Executivo da FIFA pretende provar na justiça suíça, que a gestão Blatter é inidônea. Chung, é bom que se saiba, é presidente da Federação Sul-Coreana de Futebol, é herdeiro do fundador do império da Hyundai e tem chance real de, um dia, vir a ser presidente da República da Coréia do Sul.

- A Coréia do Sul entrou na paranóia americana de 11 de setembro. Nas cidades do mundial, não entra uma carta que não seja severamente examinada pelo serviço de segurança. Os coreanos estão com medo de bater nos correios algum envelope contendo bacilos, como andou ocorrendo nos Estados Unidos.

- O técnico Trapattoni, da Itália, declarou guerra ao sexo, no mundial. Não quer jogador da seleção "Azzurra" metido com mulher. Não é o ato em si que o preocupa. Tanto que permite o acesso de seus craques a suas mulheres ou namoradas, "desde que com a devida moderação!" O que teme Trapattoni é a armação dos concorrentes. Acha ele que prostitutas pagas a peso de ouro pelos rivais, de contrabando, suguem as energias vitais de seus jogadores, deixando-os de "pernas bambas" nas vésperas de um jogo.

Colaborou Andréa Escobar

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