29/07/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 28/07/2010 às 20:57:24

Vivandeiras

Ao longo das investigações do suposto crime do goleiro Bruno, despertam curiosidade as tantas ex-amantes intimadas a prestar depoimento no processo de investigação. Na nomenclatura popular, são elas as “Marias Chuteiras”. Garotas como Eliza Samudio, uma das “mariposa que fica dando vorta em vorta da lâmpida pra si isquentá”, como cantava Adoniram Barbosa.

Na genealogia da libidinagem, a “Maria Chuteira” é filha da “Maria Gasolina” e neta da “Maria Batalhão”. E essas três são descendentes das “Vivandeiras”.

Ao moços do lupanar, faz-se necessário explicar que todas elas são mariposas da mesma espécie e que, ao longo do tempo, só mudaram de “lâmpida pra si isquentá”. Com o mesmo feitiço com que a “Maria Chuteira” hoje gravita em torno do jogador de futebol, em meados do
século passado a “Maria Gasolina” seguia o dono de um automóvel pelo olfato e a “Maria Batalhão” era a dama da noite que, no final do século XIX, se estabelecia nas proximidades de uma guarnição militar.

Na história da libidinagem curitibana, a original “Maria Batalhão”, montou sua própria “casa de tolerância” na Rua Ratcliff (atual Desembargador Westphalen), nas imediações do extinto quartel da atual Praça Rui Barbosa. Ela era uma italiana oriunda dos anarquistas que fundaram a Colônia Cecília nos Campos Gerais e que, por não se atipar com a devassidão do porto de Paranaguá, abriu suas portas e o resto aqui na Rua Ratcliff. Dizia a nossa Messalina:

- Cidade que não tem porto tem quartel!

E assim ficou para a posteridade: “Maria Batalhão”.

Na gênese da lascívia, as novatas pedem bênção às “Vivandeiras”. Desde a Guerra do Paraguai, “Vivandeiras” eram as mulheres que seguiam o rabo do Exército brasileiro. Na Coluna Prestes elas também tomaram suas posições na retaguarda. Mulheres velhas de guerra, muitas delas viúvas do Contestado. Acompanhavam a coluna, porém não eram reconhecidas pelo comando da tropa. Saias permitidas ao longe, o repouso dos guerreiros. Além das tarefas no leito, as “Vivandeiras” serviam na cozinha e cuidavam dos feridos. No pleno combate, juntavam as crianças e se protegiam na brenha do mato.

Soldados em marcha, quando a tropa fazia prisioneiro eram as “Vivandeiras” que faziam o serviço macabro, dar fim ao acorrentado. Em troca, tinham seus privilégios: antes da degola, essas donas, pobres donas, faziam um sorteio para saber quem seria a mulher a deitar com o inimigo para uma noite de sexo, o derradeiro suspiro de amor; e depois matá-lo a golpes de facão.

De autor anônimo, a “Canção da Vivandeira”.

***

Quem a vida quiser verdadeira / É fazer-se uma vez Vivandeira / Só na guerra se matam saudades / Só na guerra se sente o viver

Só na guerra se acabam as vaidades / Só na guerra não custa morrer

Ai que vida, que vida / Ai que sorte tão bem escolhida

Ai que vida que passa na guerra / Quem pequena na guerra viveu

Quem sozinha passando na terra / Nem o pai, nem a mãe conheceu

Quem a vida quiser Verdadeira / É fazer-se uma Vivandeira

Ai que vida é esta que eu passo / Com tão lindo gentil mocetão / Se eu depois da batalha o abraço / Ai que vida pro meu coração

Que ternura cantando ao tambor / Ai amor, ai amor, ai amor

Que harmonia tem a metralha / Derrubando fileiras sem fim / E depois, só depois da batalha / Vê-lo salvo, cantando-me assim

Tuas marchas te fazendo trigueira / Mais te amo gentil Vivandeira

Não me assustam trabalhos da lida / Nem as balas me fazem chorar / Ai que vida, que vida, que vida / Esta vida passada a cantar

Que eu lá sinto no campo o tambor / A falar-me meiguices de amor

Mas deixemos os cantos sentidos / Estes cantos do meu coração

E prestemos atentos ouvidos / Rataplão, rataplão, rataplão

Rataplão, rataplão, que o tambor / Vai cadente falando de amor.

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