19/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 18/03/2010 às 20:42:31

Triângulo amoroso

Na “Ilha da Ilusão” do Passeio Público, onde Emiliano Perneta foi coroado o “Príncipe dos Poetas Paranaenses”, não se fala em outra coisa: no acerto de contas dos escritores Dalton Trevisan e Miguel Sanches Neto. “Dalton, contista de uma nota só”, repete Sanches. “Traveca de araponga louca da meia-noite”, debocha o Vampiro.

Enquanto isso, a bordo de um pedalinho o poeta Emiliano Perneta volteia a “Ilha das Ilusões” saboreando o livro “Chá das cinco com o Vampiro”, a revanche de Sanches. Com a vingança lhe fazendo sorrir, Perneta recorda da gosma raivosa que lhe escorria no canto da boca, em junho de 1946, quando o atrevido do Trevisan lhe atirou a revista “Joaquim” na cara, com este título: “Emiliano, poeta medíocre”. Os dois primeiros parágrafos, e o último, são os que seguem:

***

“Emiliano Perneta foi uma vítima da província, em vida e na morte. Em vida, a província não permitiu que ele fosse o grande poeta que podia ser, e, na morte, o cultua como sendo o poeta que não foi. Há, no Paraná, por razões sentimentais, a mística de Emiliano, que não tem raízes na admiração dos moços; eles não o aceitam e repudiam. Não é em vão que a nossa geração, com sua mentalidade formada entre o suor, o sangue e as lágrimas de duas guerras mundiais, sofrendo a sua inquietude tremenda, a provar experiências decisivas na própria carne, procedeu como um motivo de sobrevivência a subversão de todo os valores. Nossa geração não quer mais nutrir-se de equívocos que a afastem da rua dos homens.

Um desses equívocos é a mística de Emiliano. Ele fez uma poesia de casinha de chocolate, desligada da vida, onde não há lugar para as asas de um pássaro, o grito de um humano amor, o riso de uma criança ao sol, o sonho de saúde de um moço convalescente. A sua experiência poética foi uma experiência frustrada, em todos os sentidos e, lendo-se-lhe a vida, ganha um significado simbólico o episódio de seu discurso em que bradava pela República... O poeta ignorava que a República fora proclamada na manhã daquele dia”. (.....)

“Se assim é, que nos pode dar Emiliano Perneta a nós, moços de nosso tempo, de si, de sua solução poética? Não fez uma poesia essencial, bofé! Ela situa-se nos antípodas da verdadeira poesia, e cujos versos chinfrins não nos podem aproximar do coração selvagem da vida, apenas dela nos afastam (“tantas que adorei e não amei nenhuma”), essa sua versalhada farinhenta de que o primeiro pé de vento já destruiu castelos altíssimos. Os seus temas, sem nenhum sentido ecumênico, são artificiais como florinhas coloridas de papel, Apolo, oh! o Apolo, adultério de Juno oh! o adultério de Juno, de, Juan, oh! o don Juan, lírios, neves, a cigarra e a estrela, o gato e o sapato... Sempre a casinha de chocolate, e cumpre que se digam tais coisas, afim de que os moços, em vez de trilhar seu caminho fechado, tomem as estradas alegradas de sol de um Baudelaire ou um Verlaine ou um Vinícius de Morais. Me entendam bem os chauvinistas. Porque, em arte, não há prata da casa, é-se Dostoiewski ou L. Romanowski, é-se Rimbaud ou................ e pobre de quem lê “Ciúme da Morte”, em vez de Dostoiewski, por causa que um é comunista russo e, o outro, nasceu em Mal. Mallet... E, pois, hélas! Não se perca tempo, vamos aos valores supremos, a essas experiências decisivas de Rilke, Aragon, Drumond de Andrade. “Ilusão” é, porventura, o melhor livro de poesia escrito no Paraná, grato ao nosso coração por um laço afetivo, mas nem por isso é livro que ultrapasse as fronteiras da Rua XV, e, para nós, neste instante, são as fronteiras do mundo, e não as da Rua XV, que procuramos atingir”.

***

Passando ao largo da “Ilha das Ilusões”, Jamil Snege se diverte ao lado de Wilson Martins:

WM: Dalton matou Perneta; Leminski tentou matar o Vampiro; agora o Sanches quer terminar o serviço.

JS: Depois do Dalton me fazer personagem do conto “Eu bicha”, sobre o caso Emiliano/Dalton/Miguel afirmo com conhecimento de causa: é um triângulo amoroso!

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