18/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 17/03/2010 às 21:12:11

Vida selvagem

“A Assembleia Legislativa é um habitat fechado e escuro onde sobrevivem espécies das mais variadas. Como numa floresta, são raros os animais ou insetos que se deixam ver, e quando o fazem em geral é com segundas intenções”, declarou em entrevista o Jacaré do Barigui, agora doutor em Ciências Políticas na USP.

Depois de algum tempo fora das manchetes, período em que se dedicou aos estudos, o jacaré do papo-amarelo do Parque Barigui nos concedeu entrevista analisando o tsunami de excrementos da Assembleia Legislativa do Paraná. Com a autoridade de quem defendeu a tese de doutorado intitulada “Vida selvagem na Política”, Dr. Jacaré concluiu que os fatos ora expostos são da própria natureza política.

Pergunta: Em que sentido podemos comparar a Assembleia Legislativa com a floresta?

Dr. Jacaré: Num mundo de incessante competição de vida ou morte, a necessidade de se esconder de predadores potenciais e de enganar vítimas espertas é uma exigência fundamental para a longevidade da classe política. Assim, essa luta pela sobrevivência no poder produziu uma impressionante gama de atributos e comportamentos destinados a dissimular (ou apagar por completo) qualquer forma visível que um inimigo ou vítima pudesse detectar. Como na floresta, em cada centímetro do espaço e em cada parte do ciclo de dia e noite tem indivíduos que se adaptam para explorar o raro potencial de mudança de aparência oferecido naquela circunstância.

Pergunta: Isto seria o que leva o político a trocar tanto de partido e, conforme o ciclo de poder, mudar a cor da pele do dia para a noite, como se fosse camaleão?

Dr. Jacaré: Perfeitamente. Para tornar mais fácil a tarefa de se esconder, algumas criaturas desenvolvem camuflagens, ou uma coloração enganadora, que as ajudam a desaparecer mesmo diante dos olhos de eventuais predadores. É o caso do Bibinho, diretor-geral da Assembleia, uma espécie comparada a uma jiboia gigante, com suas listras douradas e marrons, que pode praticamente sumir no chão sarapintado da floresta. Por este motivo ele é conhecido por não dar entrevistas, não se deixar fotografar, enfim, é uma criatura das sombras.

Pergunta: Com tantos predadores em volta, inclusive da própria imprensa, como é que os funcionários fantasmas sobrevivem naquela floresta de interesses?

Dr. Jacaré: Quando a coloração protetora não lhes vem naturalmente, algumas criaturas desenvolvem relações com outras espécies que podem fazer o serviço por elas. O funcionário fantasma é um bicho-preguiça, e não há como mudar sua própria natureza. É um mamífero (gosta de mamar nos cofres públicos) que vive pendurado nos galhos e não tem nenhum meio natural de se confundir com a coloração verde das copas das árvores. Cada um de seus pelos desenvolveu-se então de forma a conter sulcos microscópicos que se enchem de algas, dando à preguiça um brilho verde que lhe possibilita desaparecer quando vista do chão.

Pergunta: Diz o ditado popular que no Paraná há três coisas nunca vistas: cabeça de bacalhau, eleitor do Aníbal Curi e funcionário fantasma. Existe explicação?

Dr. Jacaré: No Mercado Municipal o bacalhau só é vendido salgado, seco e sem cabeça; e o eleitor de Aníbal Curi é um dos grandes mistérios da natureza que ninguém ainda conseguiu explicar. Quanto aos funcionários fantasmas, como não podem ser vistos, muitos deles adotam disfarces para confundir, assustar ou iludir potenciais inimigos. São as borboletas voadoras do serviço público: as asas exibem padrões arredondados, em formato de olhos, que surgem de repente no momento do voo, atemorizando possíveis predadores ao sugerir o rosto de uma coruja ou um pássaro e ganhando um precioso segundo de confusão para a borboleta poder escapar.

Pergunta: Seus estudos foram realizados na floresta ou na Assembleia?

Dr. Jacaré: Nos dois campos, sempre nadando de costas.

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