09/02/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 08/02/2010 às 20:58:13
Museu do Carnaval
Quem não simpatiza com o Momo considera o Carnaval de Curitiba uma anomalia e o maior dos paradoxos seria criar na cidade um Museu do Carnaval. Há controvérsias, porque as nossas Escolas de Samba até podem ser, digamos, acanhadas. Mas os carnavalescos teriam muita história para contar e proezas para mostrar. São uns heróis.
Sala especial no Museu do Carnaval de Curitiba seria reservada para o ex-corretor zoológico Oswaldo de Souza, o Afunfa: o maior nome da folia curitibana de todos os tempos. Não pelas suas habilidades de mestre-sala, mestre de bateria ou puxador de samba. Ginga não tinha nenhuma, mas tinha cintura para trazer para a Escola Mocidade Azul o mais importante: cascalho, barão, bolada, cabedal, caixinha, carvão, erva, gaita, grude, mango, merreca, nota, prata, quebrados, tostão, verba e, como se diz na cultura atual, “recursos não contabilizados”.
Afunfa era o Castor de Andrade da Água Verde. Nascido em Paranaguá, veio de uma prole de 13 irmãos. Sua mãe, descendente do lendário Juca Tigre da Revolução Federalista, chegou a ser rainha do Carnaval de Paranaguá; e também tinha orgulho do pai, Roque da Silva, um catarinense que no ano de 1822, na Independência do Brasil, foi de Paranaguá ao Rio de Janeiro de canoa. Ganhou um prêmio de 50 contos de réis que até hoje a família não viu a cor da gaita.
Em Paranaguá a família era abastada, em Curitiba ficou pobre. Com 13 anos, Oswaldo Fernandes de Souza vendia balas nos cinemas e foi o primeiro cambista a vender ingressos na porta do Estádio Durival de Brito. Tinha futuro, pois, o garoto que de tão fanho recebeu dos companheiros de farra o apelido de Afunfa: na volta de uma festa em Matinhos, estava tão bêbado que não conseguia falar, só fazia “fu-fu-fu”.
O Carnaval de Afunfa começou em Paranaguá, mas só foi cair no samba em Curitiba, quando aderiu ao Bloco Ases da Alegria, passando depois para a Escola D. Pedro II que ajudou a fundar. Em seguida, com sua vasta experiência de moleque que ganhou os “tubos” vendendo frascos de lança-perfume como metal, comandou a transformação da D. Pedro II em Mocidade Azul, a maior Escola de Samba que Curitiba já viu desfilar na Marechal Deodoro. Pelas mãos (e bolsos) de Afunfa, foi a campeã das campeãs. Na melhor tradição zoológica, Afunfa investia grande parte de seus imensos lucros na manutenção de uma escola de samba que, na opinião de muita gente, poderia disputar o bloco 3, no Rio de Janeiro. Assim poderoso e generoso, era acusado pelos dirigentes das outras agremiações de inflacionar a festa. Contratava figurinistas e coreógrafos profissionais, comprava o passe dos melhores passistas e ritmistas das outras escolas e chegou a pagar uma nota preta para quatro mulatas do Sargentelli desfilarem num dos carros alegóricos da Mocidade Azul. “Minha alegria é fazer um carnaval bonito para a cidade”, dizia, e respondia as acusações dos vencidos com espírito esportivo: “O mais importante não é competir, é vencer. E vencer no grito, se necessário”. No final das apurações, o grito que dava no portão do Instituto de Educação ecoava pela Rua Emiliano Perneta mais do que um berro de Tarzan em plena selva.
Afunfa era um dos raros bicheiros que assumiam sua profissão. Apesar de várias vezes na cadeia, não tinha papas na língua: “ Em época de eleições, o governo sempre fica em cima. Os bacanas precisam de dinheiro para tocar a campanha. E a polícia sempre levou o dela porque funcionário público sempre foi mal pago. O jogo do bicho, por ser honesto, vai acabar. Não vejo muito futuro no jogo do bicho em Curitiba”.
Depois de 35 anos de Carnaval, na década de oitenta, Afunfa empobreceu. Teve um episódio trágico com a mulher, largou o jogo do bicho, tentou a vida como industrial em Porto Alegre, comprou um movimentado restaurante no Mato Grosso, que não deu certo e a última notícia que tive do carnavalesco foi pelo telefone:
- Estou trabalhando em Miami! Bem de vida e bem com a vida!
Walmart
Walmart
Walmart
Bebel Ritzmann
Noite de autógrafos
Cerimônia de abertura do 19º Festival de Curitiba aconteceu nesta terça-feira (16) no teatro Ópera de Arame.