02/07/2009 às 00:00:00 - Atualizado em 01/07/2009 às 20:38:14
A caneta do Pelé
Quando a biografia definitiva de Pelé vier a ser escrita (no ano 3000, talvez) uma das passagens do Rei por Curitiba deve ser lembrada. No capítulo referente ao caráter de Edson Arantes do Nascimento, e não naquelas seguintes páginas referentes à consagração e reinado de Sua Majestade.
“Eu pensei: ele é feito de carne e osso, como eu. Eu me enganei”, disse o zagueiro italiano encarregado de marcar Pelé durante a final da Copa do Mundo de 1970. Se não foi feito de carne e osso, o episódio curitibano nos leva a supor que o menino de Três Corações também tinha três corações batendo no peito.
É uma história com dois personagens principais: o escritor e publicitário Ewaldo Schleder Filho, então com 15 anos, e Ele, então com 17, campeão do mundo na Suécia.
Naquele ano de outubro de 1958, o Santos F. C. veio comemorar o aniversário do Coritiba completo: Manga, Ramiro, Formiga, Pavão, Zito e Mourão; Sormani, Coutinho, Pagão, Pelé e Pepe. O rebuliço foi grande naquela pacata Curitiba, especialmente no entorno do Hotel Maracanã (hoje Hotel Brasília, na esquina da Barão do Serro Azul com Carlos Cavalcanti), onde a constelação estava hospedada.
Se chegar perto dos craques já era complicado, dar um abraço em Pelé só mesmo com um padrinho poderoso. Para correr para o abraço só mesmo o menino Ewaldo, afilhado do ex-presidente do glorioso verdão, Lauro Schleder, como conta quem apresentou o gramado do Alto da Glória a Pelé:
“Lauro Schleder, sendo primo irmão do meu pai e meu padrinho, tornou-se por isso meu tio. Muito querido, tantas vezes me levava aos treinos e jogos do Coritiba, clube que faz aniversário no dia 12 de outubro, justamente no dia em que nasci. Líder em diversas atividades, Lauro se dividia em papéis de juiz do Tribunal de Contas, jornalista, advogado, professor, escritor, cronista de fino humor e leitor inveterado (nos meus 15 anos ele me presenteou o A Sangue-Frio, de Truman Capote). Naquele aniversário de 1958, eu com os meus 9 anos, fui com meu pai (Ewaldo) e meu tio almoçar com a delegação do Santos na sede social do Alto da Glória. Era um sonho: um piá sentar na mesma mesa com Pepe, Coutinho, Zito, Pagão e Pelé, com uniforme verde-oliva de soldado. Muitos se lembram daquela antiga sede social do Coritiba, onde havia no térreo um restaurante e o salão de baile. Na parte de cima, havia um dormitório, amplo, lembrando um ambulatório de hospital, com duas ou três dezenas de camas de solteiro, onde os jogadores do Coritiba concentravam. Cheguei a assistir de perto a “siesta” do craques do Santos, porém o mais importante ocorrera antes. Era um sábado, dia de feijoada. Depois do almoço, perguntei a Pelé se ele já conhecia o campo. Pelé disse que não, então eu o convidei para ir ver de perto o tapete verde dos coxas. Como eu sempre ia a treinos, era gandula, conhecia todo o labirinto subterrâneo para se atingir o gramado. Imagine: caminhei com Pelé, apresentei um campo de futebol ao Pelé!”
***
Para aquele tão esperado momento, o menino Ewaldo compareceu devidamente armado para o autógrafo: uma caneta Parker 51, objeto de desejo, motivo de inveja na escola. Pena que, enquanto Pelé autografava o caderno de Ewaldo, uma multidão se aglomerou junto ao ídolo e sumiu a Parker 51. Pelé foi embora, a caneta foi embora, onde estaria aquela joia da coleção do pai?
***
Três anos depois, quando o Santos retornou a Curitiba para comemorar outro aniversário do alviverde, quem estava no aeroporto Afonso Penna esperando Pelé? Ewaldo Schleder, já quase esquecido daquela invejável Parker 51.
Quando Pelé desceu do avião, Ewaldo correu para o abraço e, para a surpresa do menino, Edson Arantes do Nascimento botou a mão no bolso do paletó:
- Aqui está a sua Parker 51. Você esqueceu, eu não esqueci!
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