30/06/2009 às 00:00:00 - Atualizado em 29/06/2009 às 20:52:33
Fábula à brasileira
Era uma vez uma formiguinha e uma cigarra muito amigas. Durante todo o outono, a Formiguinha trabalhou sem parar, armazenando comida para o período de inverno. Enquanto isso, a Cigarra só queria saber de cantar nas rodas de amigos e nos bares da cidade. Até que um dia a formiguinha cansou. E a cigarra também.
O Brasil é um país fabuloso com fábulas mais fabulosas ainda, porque quase sempre o desenlace é imoral e a narrativa é verossímil, o que reflete a nossa disposição para a esbórnia e inclinação anárquica.
A Formiguinha brasileira nasceu de boa família, gente humilde, trabalhadora e honesta. Assim de boa formação, seu nome era “trabalho”, e seu sobrenome “sempre”: exatamente como reza a fábula universal. Sempre pensando no amanhã, não aproveitava esse país bonito por natureza, o Sol, a praia e a brisa suave do fim da tarde. O bate-papo com os amigos ao final do trabalho, caipirinha, cervejinha gelada e pasteizinhos de camarão, nem pensar. Enquanto isso, a Cigarra era aquela cigarra do La Fontaine: só queria saber de cantar nas baladas, nos palcos e nos bares da cidade; não desperdiçava nem um minuto sequer. Cantava durante todo o outono, dançava, aproveitava o sol e o mar, curtia para valer, sem se preocupar com o inverno que estava por vir.
Então, certo dia, começou a esfriar. Chegou o inverno. A Cigarra, exausta de cantar noite afora, voltou ao seu casulo bagunçado. Com a ressaca de sempre, as olheiras de sempre. Toc-toc-toc! Alguém chamava por seu nome, do lado de fora da toca. Quando abriu a porta para ver quem era, ficou surpresa com o que viu. Sua amiga Formiga muito bem vestida, de penteado novo, perfumada, com mala e frasqueira nas mãos. E a Formiguinha disse então para a Cigarra:
- Olá, amiga, vou passar o inverno em Brasília. Será que você poderia cuidar da minha toca?
A Cigarra respondeu:
- Claro, sem problemas! Mas o que lhe aconteceu?
E a Formiga respondeu:
- Cansei de trabalhar! Meu primo Formigão, que é assessor do senador Saúva, me arrumou um emprego em Brasília. Assessora técnica do Senado.
- Assessora técnica?
- Alguma coisa assim. Só sei que depois desse inverno, assim que sair minha nomeação, eu volto para ajudar na campanha do Dr. Saúva.
- E o salário?
- Para os nossos padrões, uma fábula!
- E o que você vai fazer na campanha do senador Saúva?
- Laranjada!
- Laranjada?
- Ora, querida, com laranja é que se faz uma boa laranjada! O primo Formigão tem um partido de fundo de quintal e, nas próximas eleições, vai precisar formar uma chapa nanica de deputados estaduais e federais. Aí eu entro como candidata a deputada estadual: “Formiguinha: meu nome é trabalho!”
- Sem nenhuma chance...
- Com chances! Com chances de o primo Formigão ser nomeado secretário de governo. Tudo em família, em 2011 serei assessora especial.
- Formiguinha, amiga, você que é feliz...
- Ora... e você? Parou de cantar?
- Quase. Imagine que eu estava cantando em um bar e um produtor gostou da minha voz.
- Maravilha, Cigarrinha!
- Imagina! O pilantra me propôs um contrato de seis meses para fazer show num bordel! Depois dessa, para mim chega! Vou estudar Publicidade e Propaganda e, de agora em diante, estudo de dia e canto à noite.
- No bordel?
- Deus me livre! Mesmo ganhando pouco, prefiro levar a vidinha de sempre: teatro, barzinho e, conforme a grana de uma herança, quero montar uma produtora de som. Mas a prioridade será a faculdade, porque cansei dessa vida de artista.
- Bom saber, amiga: vou indicar você para produzir o jingle de campanha do senador Saúva! A propósito, deseja alguma coisa de Brasília?
- Desejo sim, Formiguinha. Se você encontrar o La Fontaine na Embaixada da França, manda ele para... Ah! Deixa para lá!
- Até breve, Cigarrinha. Cuida bem do meu casulo: na primavera estarei de volta para te contar a moral da história!
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