05/09/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 04/09/2010 às 20:58:28

Volta ao ponto de partida

Alguns amigos surpreenderam-se com a maneira que inventei para comemorar os meus recém-desfeitos setenta anos... "Desfeitos"?! estranhará o leitor que não leu a coluna da semana passada. Por isso, cumpre-me esclarecer novamente: anos não se faz; perde-se. A lição me foi dada por Rubem Alves e não encontrei
argumentos para contraditá-la: "Os anos de uma vida nunca se somam; eles sempre se subtraem". Portanto, os que fiz, já se foram; os que tenho são os que ainda estão por vir. E só Deus sabe quantos serão.

Há pessoas que comemoram aniversários em Paris ou em Nova York. Ou em Buenos Aires, que tem andado na moda. Fiz diferente: como detesto viajar de avião e sou um brasileiro que ainda ama o Brasil, fui para a Lapa. Sim, a nossa Lapa, de história, tradições e meus amores, aqui pertinho, a 71 km de distância, onde está enterrado o meu cordão umbilical.

Antes, adquiri quatro buquês de rosas. Dois deles deixei aqui em Curitiba, no cemitério Iguaçu: um, para meu pai; outro, para minha sogra, que foi uma terceira mãe que tive. O terceiro buquê ficou no cemitério de Araucária, onde estão sepultadas as tias que me criaram. O quarto seguiu comigo à velha Lapa e foi entregue, com o devido carinho e muita saudade, à minha mãe Alice, que tão cedo se encantou. Fiz ainda uma oração no sepulcro do venerável Francisco Alves Guimarães, o patriarca da família e meu bisavô. A todos agradeci pela vida que me deram e a pela oportunidade de haver chegado tão longe. Pieguice? Talvez. Aos que envelhecem tudo é permitido, até mesmo isso. E pouco importa a opinião alheia. Inclusive porque também aprendi com o meu querido Rubem que somos velhos não porque o tempo passa, os cabelos embranquecem e as rugas aparecem, mas porque dentro de nós moram eternidades. E "é essa eternidade que dá sentido à vida". O tempo, na verdade, é apenas uma ilusão. Ou um fio, onde vão sendo enfiadas todas as experiências que vivemos.

Mas por que a Lapa? Porque ali nasci e lá estão as minhas raízes, de parte de pai e de mãe. E embora alguns recém-descobertos detratores acusem-me de ser um "lapeano de fim de semana", por eu haver pedido para que não tratassem a cidade como outra qualquer, garanto-lhes que, muito mais do que eles, que ali vivem, tenho a Lapa sempre no coração.

Assim, achei que, ao "desfazer-me" dos setenta, nada mais adequado do que rever os velhos casarões coloniais bem conservados da minha infância; passear pela estreitas calçadas, tão irregulares quanto centenárias; descansar a alma num dos bancos da antiga Praça da Matriz, diante da Igreja de Santo Antônio e sob a proteção do General Gomes Carneiro; e meditar com a necessária tranquilidade sobre as alegrias e as tristezas que ali colhi. Não foi o poeta T. S. Eliot que disse que "o fim de nossas longas explorações será finalmente chegar ao lugar de onde partimos"?

Claro que nem tudo é mais como antigamente na Lapa que me trouxe ao mundo. A maioria dos velhos casarões mantém-se fechada; não se flagra mais olhos curiosos atrás das cortinas das janelas entreabertas, a espreitar os passantes; não se sente mais o cheiro de café coado na hora nem o bule fica mais à disposição do visitante sobre a chapa quente do fogão de lenha; não há mais o café com mistura, tão bem memorizado por Maria Thereza Lacerda; e os inesquecíveis e tão tradicionais bolinhos de polvilho azedo ficaram na história... Mas ainda existem as árvores centenárias; os calçadões de pedra calcária extraída das encostas do Monge, e a comida tropeira que só dona Rosa Lipski sabe fazer: virado de feijão com torresminho e ovos fritos, arroz de carreteiro, bisteca de porco e a quirerinha, a divina quirera lapeana... E se não bastasse, tem ainda o macarrão, a couve, o filé de boi e o frango assado... Ah, e o principal: estão voltando as flores!...

A Lapa sem flores é o céu sem estrelas. A festa só não foi completa porque faltou tempo para curtir o silêncio do Mosteiro dos Trapistas de Campo do Tenente e subir aos céus na magia do canto gregoriano ali praticado aos domingos.

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