07/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 06/03/2010 às 18:26:52

Amar a leitura é preciso

Ângela Andrea Horbatiuk, que me honra com a leitura, desde as barrancas do Rio Iguaçu, em União da Vitória, concordou com o que escrevi na última coluna. "De que adianta ser "expert' em "internetês' e sequer conseguir fazer uma conta de cabeça nem interpretar um texto ou mesmo formar um texto?", indaga ela. E deduz: "Quanto menos se incentiva a leitura e a produção de textos manuscritos nas escolas e universidades, menos os estudantes têm interesse em aprender, menos serão conhecedores da Língua Portuguesa, e pior, menos conseguirão se expressar em seus ambientes".

Ângela acredita que, hoje, o incentivo da leitura e, por consequência, à escrita é tarefa de pais, tios, professores e de todos os interessados na educação do País. Está certa. É preciso, porém, saber conduzir essa tarefa.

A leitura e, por decorrência, a escrita, é um dos maiores prazeres da vida. Através da leitura instrui-se, distrai-se, diverte-se, viaja-se, povoa-se a mente, desenvolve-se a imaginação, cria-se, cresce-se, vive-se, enfim. São infindáveis os benefícios decorrentes dela.

Alguns até curiosos. Mario Quintana, por exemplo, desde muito pequeno, lia tudo, inclusive o semanário "O Tico-Tico", avô das revistas infantis produzidas no Brasil. "Uma das coisas que mais me impressionavam" -confessava o poeta "era o que os personagens fariam depois de terminada a história".

Também não há companhia melhor do que a leitura, não importa o local, a idade, a atividade ou o grau de educação do leitor.
O problema, minha prezada Ângela, é fazer com que os meninos e os jovens de hoje entendam isso. Sobretudo diante da quantidade de ofertas tecnológicas, de irresistível atração, à disposição deles. E nem me refiro mais à televisão. O diabo moderno são os games, as lan-houses e afins.

As crianças gostam de aprender. São curiosas por natureza, querem descobrir o mundo. Tenho duas lá em casa (uma já quase adolescente) e tiro prova diária disso. Mas, repito, é preciso saber ensiná-las. Fazer uma criança ler por dever, será uma tragédia. Ela odiará a leitura a vida toda. Ler não pode ser uma obrigação, nem hábito, mas prazer, alegria. Indagaram a Rubem Alves o que fazer para criar o hábito da leitura. A resposta dele foi imediata: "Nada". Em seguida, explicou: "Hábito tem a ver com cortar a unhas, tomar banho... Os hábitos produzem ações automáticas... O que há de se fazer é ensinar as crianças a amar os livros".
Por isso, é preciso ter o cuidado de oferecer às crianças o livro certo, na idade certa. Há autores péssimos, outros descartáveis e outros ainda, insuportáveis, se lidos no momento errado. Obrigue-se um menino de onze anos a ler Camões, Eça, Machado ou Euclídes da Cunha e ele detestará Camões, Eça, Machado e Euclídes.

Rubem Alves, com a vida toda ligada à educação, diz que se fosse ensinar a uma criança a arte da leitura, não começaria com as letras e as sílabas: "Simplesmente leria as estórias mais fascinantes que a faria entrar no mundo encantado da fantasia. Aí então, com inveja dos meus poderes mágicos, ela desejaria que eu lhe ensinasse o segredo que transforma letras e sílabas em estórias".

Eduardo, meu neto, aluno da 8.ª série do primeiro grau, outro dia chegou da escola com uma novidade: a professora passara aos alunos, como tarefa, a leitura de "O Alienista", de Machado de Assis, em quadrinhos... Estava entusiasmado com a ideia. Não sei se, em meio à atual modernidade, dará resultado. Torço que sim. Comigo deu: no meu tempo, em que os gibis eram malditos e não tarefa escolar, li todos os clássicos da literatura nacional e internacional (até a "Odisséia", de Homero -pasmem!) em versão quadrinizada, nas saudosas "Edições Maravilhosas", da Ebal, de Adolfo Aizen. Depois, seguindo o conselho do editor, fui aos originais escritos. Nunca me arrependi. Hoje, amo os livros, pela forma e pelo conteúdo, gosto de senti-los nas mãos, acariciar o papel, sentir o cheiro da tinta da impressão. E acho que até aprendi um pouco a escrever.

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