28/06/2009 às 00:00:00 - Atualizado em 27/06/2009 às 20:28:28
Nossos varões de plutarco
Estou com Jânio de Freitas, da Folha de S. Paulo: a crise do Senado é muito mais grave do que o mensalão da Câmara dos Deputados. Aquela envolvia dinheiro de fora, proveniente de corruptores privados; a atual é bancada com dinheiro público; quer dizer, de todos nós. Neguinho leva a amante para passear de avião, contrata a parentada, paga pensão familiar, mordomo, motoristas e seguranças, distribui vantagens e galanteios de afeto com o nosso dinheiro.
A situação chegou a tal ponto que, além de tudo, das gratificações espúrias, do pagamento de horas extras durante o recesso e de 14.º e 15.º salários, tem quase quatrocentos servidores recebendo mais do que ministro do Supremo Tribunal Federal, isto é, R$ 24.500 por mês, teto salarial constitucional. E tudo baseado em parecer da assessoria jurídica da própria casa, que, como se sabe, tem mais força que a Constituição Federal. Daí a necessidade dos tais atos secretos. Simples e claro como um raio de sol.
Talvez agora a população entenda por que o Legislativo, e não só o federal mas também as Assembléias Legislativas estaduais, e em especial a nossa, inventa toda sorte de embaraço para divulgar publicamente os seus gastos, sobretudo com pessoal. Aqui também temos (e como!) os nossos segredos. Nossos, não; deles. Há uma importante repartição, aliás, cuja função é exatamente fiscalizar a utilização do erário público, que é de uma criatividade ímpar nos atos administrativos: publica-os sim, mas de forma cifrada. Por exemplo: confere gratificações e vantagens através de portarias ou decretos, mas identifica os contemplados única e exclusivamente pelo número das matrículas. De uma ladinice sem par. Pena que ilegal.
O dia em que se tiver coragem de pisar firme nesse charco, vai ser um susto atrás do outro.
A máscara de muito figurão ilibado irá ao chão e muita gente poderá até ir para o xilindró. Enquanto isso não acontece, vamos no vai da valsa. Paciência e muito engov é a receita.
Esses são os nossos “varões de Plutarco”. No Paraná, o principal deles, como se sabe, habita hoje o Palácio das Araucárias. No entanto, o varão-mór da República continua sendo FHC, exemplo de probidade e inestimáveis serviços prestados à pátria, referido na coluna passada. Pois o insigne tem a filha Luciana lotada no gabinete do senador Heráclito Fortes (atual 1º Secretário do Senado), embora ela não vá lá e nem saiba o que faz. Veja parte da entrevista da “servidora” à Mônica Bergamo, da Folha:
- Quais são as suas atribuições no Senado?
- Eu cuido das coisas pessoais do senador.
- Recebeu horas extras durante o recesso?
- Não sei dizer. Normalmente, quando o gabinete recebe, eu recebo. Quem manda pra mil é o senador.
- E qual é o seu salário?
- Salário de secretária parlamentar, amor! Descobre aí. Sou uma pessoa como todo mundo. Por acaso, sou filha do meu pai, né?
- Você cumpre horário?
- Trabalho mais em casa e na casa do senador. Como faço coisas particulares e aquele Senado é uma bagunça e o gabinete é mínimo, eu vou lá de vez em quando. Você já entrou no gabinete do senador? Cabe não, meu filho! É um trem mínimo e a bagunça, eterna. Trabalham lá milhões de pessoas. Mas se o senador ligar e falar “vem aqui”, eu vou lá.
- E o que ele te pediu nesta semana?
- “Cê” não acha que eu vou te contar o que eu to fazendo pro senador. Não nasci ontem. Se eu estou dizendo que são coisas particulares que eu nem faço lá, é porque não é para ficar na boca de todo mundo.
Precisa acrescentar mais alguma coisa?
P.S. Se o leitor não sabe, explico: Plutarco foi um filósofo grego, em cuja obra traçou o perfil de figuras proeminentes do período clássico, “homens de honestidade vertical, sinônimo de integridade absoluta”, e que, por isso, ficaram conhecidos como “varões de Plutarco”.
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