21/06/2009 às 00:00:00 - Atualizado em 20/06/2009 às 19:07:41
A imprudência do velho cacique
Há pessoas na vida pública que, após determinado período de grande notoriedade, particularmente durante a ocupação de elevados cargos da República, deveriam recolher-se ao mais completo anonimato. Sair de cena e, longe dos holofotes, curtir as eventuais glórias acumuladas, antes que elas venham a perder o encanto, que é sempre passageiro e, no mais das vezes, absolutamente falso. Uma dessas pessoas é o lamentável José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, vulgo José Sarney. Outra, o não menos lamentável FHC.
José Sarney é um homem de sorte. Dono da maior rede de comunicação de São Luís, tornou-se o "Rei do Maranhão", onde só tem vez quem pertence à "família". Escreveu seus livrinhos e acabou na Academia Brasileira de Letras. Foi deputado federal, governador do Estado, senador da República, líder e presidente da Arena e do PDS, partidos da ditadura militar. Oportunista de carteirinha, na última hora, passou para o PMDB e, graças a isso, recebeu no colo, sem querer, a presidência da República. Todo mundo já conhece a história. Ao terminar o desastrado mandato, com a inflação beirando os 30% ao dia!, ao invés de buscar o esquecimento entre netos e bisnetos, ajeitou um novo mandato de senador, desta vez pelo Amapá, e manteve-se em Brasília. Hoje, por cortesia de seus nobres pares, preside, pela terceira vez, o Senado Federal, mergulhado na maior crise de decência e credibilidade de sua história (ambos, o Senado e Sarney).
Envolto pela lama, subiu à tribuna e, trêmulo, mas de dedo em riste, proclamou que a crise não é dele, mas do Senado. Que, por acaso, ele preside. E que, com os companheiros Antônio Carlos Magalhães, Jader Barbalho e Renan Calheiros (todos cavalheiros acima de qualquer suspeita), enodoou com nomeações espúrias, atos secretos, privilégios absurdos, vantagens obscenas e sortidas irregularidades. Agora, é inocente, vítima de "interesses externos e grupos interessados em enfraquecer esta Casa".
"Não tenho nenhum problema na consciência a não ser de ter cumprido o meu dever!", bradou do púlpito. "É uma injustiça do País julgar um homem como eu, com tantos anos de vida pública, com correção e vida austera, de família bem composta!".
"Família bem composta"? Sem a menor dúvida. Incluindo uma neta produzida, de forma obtusa, por seu filho Fernando José, atual comandante-em-chefe do "império Sarney", cuja pensão-paternidade era paga pelo erário público, através do gabinete do senador Cafeteira, lídimo integrante do clã.
O velho patriarca, claro, não sabia nada disso.
Outro que nunca sabe de nada, o nosso Lula, de um lugar qualquer do mundo, onde se encontrava de passagem, deu logo apoio ao morubixaba maranhense: "Sarney não pode ser tratado como uma pessoa comum!".
Claro que não, presidente. Ele é mais ladino. Posa de coitadinho e vai contabilizando resultados. Só que ao continuar na vida pública e, a essa altura dos acontecimentos, assumir, outra vez, a presidência do Senado e, ainda por cima, manter-se nas folhas e perante as câmaras e microfones, pisou feio no tomate. Qualquer hora ainda vão lembrar daquela CPI, que apontou ilicitudes do então presidente e de vários de seus ministros e que ACM mandou arquivar (ver Os Crimes do Presidente, do advogado José Carlos Bruzzi Castelo, L&PM Editores, 1989). Ele devia ter ficado em casa, curtindo a aposentadoria no seu confortável chalé da bela praia do Calhau. Um dia, se Deus ajudasse, ninguém mais se lembraria dele e de seus feitos.
Foi o que fizeram os generais-presidentes, que Sarney ajudou com tanto gosto e subserviência.
Ficou, agora aguente!
E explique, se for capaz. Essa nossa estranha democracia, às vezes, tem coisas admiráveis. Quanto ao sobredito FHC, voltaremos a ele, que tem tudo a ver com o tema em pauta.
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