31/05/2009 às 00:00:00 - Atualizado em 30/05/2009 às 16:58:04

Subserviência cultural

Alvíssaras! Lei municipal, recém-sancionada pelo prefeito Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, proíbe o uso de palavras estrangeiras em reclames comerciais, tanto nas páginas dos jornais quanto nas vitrines das lojas dos "shopping centers" (que, aliás, deveriam ser "centros de compras"). Basta de "sale", "off" e "delivery". Agora, tem de ser "liquidação", "desconto" e "entrega em domicílio" (a menos que junto estejam as devidas traduções).

Creio que já existe algo igual aqui em Curitiba e em São Paulo e até tramite na Câmara Federal projeto do deputado Aldo Rebello (do PCdoB) sobre o tema, mas é coisa que poucos cumprem (na capital paulista, então, é um inferno!). E aí está uma coisa que sempre me irritou. Profundamente, porque, além de intolerável submissão ao colonialismo cultural, é de uma burrice cadavérica, se me permitem a antiga expressão. Comerciante que quer ser moderninho e não confia no vocabulário nacional, deve mudar-se para Miami.

Aqui, gostem ou não, é Brasil e o idioma oficial (incluindo frases de efeito mercadológico) ainda é o (mal amado) português. Pelo menos é o que consta da Constituição Federal, outra pobre desconhecida.

A justificativa do vereador carioca Roberto Monteiro, também do PCdoB, ao fazer a proposição ora aprovada, tem tudo a ver: "Preservar a cultura do país e facilitar a compreensão das propagandas por quem não conhece outros idiomas". Até porque conhecer outros idiomas ainda não é uma obrigação. Deveria ser conhecer o nosso.

De um tempo para cá, residência virou "maison"; cabeleireiro, "hair center"; torre, "tower"; albergue, "resort"; comida, "food"; festeira, "promoter" ou "promoteur"; palestra, "workshop", programa de entrevista, "talk-show"; preparador físico, "personal trainer"; moderno, "fashion"; escritório, "office"; prédio, "building"; loja, "boutique"; cartaz, "outdoor" e por aí afora, como se não bastassem os anglicismos e galicismos já consolidados pelo uso, como "know-how", "leasing", "buffet", "layout", "menu", "slogan", "marketing", "hamburguer", "diet", "kit", "grid", "stop pit", "pole position", "light" e os recém chegados "ombudsman", "airbag", "internet", "e-mail", "site", "blog" e tantos outros estrangeirismos inúteis, como se não existissem vocábulos correspondentes na língua portuguesa, uma das mais ricas e bonitas, dispensando reforços alienígenas. Nem mesmo os títulos de filmes e de seriados da TV são mais traduzidos. Até o velho Super-Homem do nosso gibi passou a ser "Superman". E não se trata de intolerância xenófoba ou reacionarismo, do qual o deputado Monteiro chegou a ser acusado (logo ele, do PCdoB!), mas de apenas bom senso.

Além da pedância e da ilusória importância (sinal de "status" comercial?) da estrangeirice, qual a vantagem de usá-la? Aumento da clientela, maior apelo propagandístico? Pois sim! Em alguns estabelecimentos, para saber do que se trata, tem-se que entrar e indagar. E os comerciantes e os seus infelizes marqueteiros acham isso inteligente?!
A língua, claro, é coisa viva e se modifica ao logo do tempo, agregando expressões populares e até estrangeirismos. Mas também é claro que não idiotices desse tipo.

P.S.: Urge fazer uma correção, que nada tem a ver com o acima escrito mas que faço com satisfação: Mauro de Alencar, locutor e animador, um dos pioneiros do rádio e da televisão das araucárias, está vivo. E bem vivo, graças a Deus! Mal-informado, matei-o, indevida e lamentavelmente, na coluna em que, ao noticiar o falecimento de Aristeu Berger, arrolei algumas "estrelas" da arte paranaense que já se haviam "encantado" (no dizer de Guimarães Rosa), incluindo, entre elas, o nosso Mauro. Ele se afastou do ramo e deixou o Paraná, mas está firme e forte nas areias de Garopaba, na bela e Santa Catarina. Perdão, amigo Mauro. Saúde e vida longa para você.

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