07/09/2008 às 00:00:00 - Atualizado em 06/09/2008 às 18:39:56
A Pérola e a dor
O bem informado leitor sabia que para criar a pérola a ostra tem de sofrer? Confesso que, na minha doce ignorância, não me dera conta disso. Ou esquecera. Fiquei sabendo (ou lembrei-me) graças a Rubem Alves, que está com livro novo na praça, intitulado exatamente Ostra feliz não faz pérola (edição Planeta, 280 páginas de excelente leitura, como de costume).
Conta Rubem que, como moluscos mansos, sem esqueleto e defesas, as ostras são presas fáceis. Mas com natural sabedoria, que lhes ensinou a fazer as suas próprias casas em conchas duras, impenetráveis. E ali passaram a viver felizes. Até que, um belo dia, a alegria da comunidade foi interrompida por um gemido de dor de uma ostra solitária: um grão de areia havia entrado na concha dela e machucava a sua carne. E doía. Como ela não tinha como livrar-se do grão de areia, tratou de livrar-se da dor, provocada pela aspereza, arestas e pontas do intruso. E passou a envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda.
Pescada por um pescador, a sofrida ostra foi transformada numa deliciosa sopa. À mesa, porém, o comensal foi surpreendido com a presença de um objeto duro escondido dentro da ostra. Tomou-o nos dedos e abriu um sorriso de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola, fabricada pela pobre ostra, que tanto sofrera para fabricá-la. Deu-a de presente à esposa, que também ficou muito feliz.
Sofrendo continuaram apenas as pobres ostras, às quais a natureza delegou a ingrata tarefa de construir pérolas para fazer a felicidade das pessoas. Rubens respeita as ostras porque, com tamanha atribuição, não se entregaram ao pessimismo. Mais do que isso, foram capazes de transformar a tragédia em beleza.
E assenta, com propriedade: "A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável". Estou com ele.
Mas me pergunto: a história da pérola nascida da dor da ostra não seria uma enorme metáfora da vida? Aí estamos nós com os nossos grãos de areia e nossas dores. Não deveríamos a aprender a transformá-los em pérolas?
Não precisamos ser religiosos ou místicos para saber que aqui estamos para aprender. Para evoluir, física, mental e espiritualmente. Besteira negar fato tão evidente. Caso contrário, a existência não teria sentido. E este mundo seria muito pior do que já é.
Precisamos apenas parar de reclamar da vida, dos grãos de areia que ela coloca no nosso caminho. Mais do que ninguém, sei que não é fácil. Atormenta-me as desigualdades deste mundo, os patifes que nos cercam e a desesperança que nos impõem. Mas começo a achar que é chegada a hora de um novo enfoque.
Precisamos aprender a enfrentar os reveses com sabedoria, envolvendo-os com a substância lisa, brilhante e redonda da fraternidade, solidariedade, coragem e amor. Somente assim, talvez, um dia, nossos filhos e netos possam voltar a entoar alegres melodias, como ostras felizes, que não precisam fazer pérolas para aplacar a sua dor.
P.S. Na verdade, Rubem Alves não está apenas com um novo livro na praça, mas com quatro. Além do antes referido Ostra feliz não faz pérola, pela Planeta, chegou às boas livrarias com As melhores crônicas de Rubem Alves, selecionadas pela Papirus Editora com o propósito de comemorar mais de 20 anos de parceria; Cantos do pássaro encantado, da editora Verus, dedicado a um dos temas favoritos do autor: o amor; e O melhor de Rubem Alves, um belo exemplar, edição caprichada, organizada pelo também educador paranaense Samuel Ramos Lago. Todos os quatro são leitura obrigatória. Esta coluna, aliás, só foi escrita para dar ciência disso ao leitor.
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