27/02/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 27/02/2010 às 00:58:32

Dois pesos, duas medidas

Nos capítulos anteriores o leitor tomou conhecimento de todos os detalhes urdidos para que uma trama inocentasse o sobrinho de um político importante num caso gravíssimo de acidente de trânsito. E a história revelou que enquanto os ricos e influentes se sentirem acima da Lei, a sociedade se sentirá lesada e traída pela Justiça.

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Redação

Qual seria o destino do motorista do Astra preto, placa IEK-2749, se na fatídica madrugada de 27 de outubro de 2001 fosse ele a “furar” o semáforo, embriagado, no cruzamento das ruas Tibagi e Amintas de Barros e atingisse a camioneta Explorer AJA-1407, dirigida por João José de Arruda Júnior, sobrinho de Roberto Requião? E fosse Júnior e um de seus amigos que tivessem morrido ao invés de duas garotas desconhecidas que voltavam de um karaokê em companhia de amigos? O exercício de adivinhação não cabe ao jornalismo, porém, tais perguntas são pertinentes a partir de exemplos recentes que abalaram a opinião pública, envolvendo filhos de “figurões”. Está a Justiça, que deveria ser cega para atingir a todos indiscriminadamente, fazendo “vistas grossas”?

A história de Júnior repetiu-se no ano passado, mas com outros protagonistas, como Luiz Fernando Ribas Carli Filho e Eduardo Miguel Abib. O primeiro, ex-deputado estadual, filho de político conhecido, matou dois rapazes em acidente no qual “decolou” com o carro numa via rápida, devido à alta velocidade que empreendia; seu automóvel destruiu o veículo ocupado pelas vítimas, que ficaram irreconhecíveis; estava bêbado. O segundo, filho do diretor geral da Assembléia Legislativa do Paraná, também furou o sinal, em pleno Batel, e matou quatro pessoas que estavam em outro veículo, pastores de uma igreja evangélica. Carli Filho, que ficou ferido, não chegou a ser preso. Abib, preso em flagrante, ficou menos de uma semana na cadeia.

Fotos: Arquivo
Carli Filho, perdeu o mandato de deputado estadual.

No contraponto dos fatos, outro jovem, Krystopher Martins Salvador Lopes, uma pessoa comum, sem pai “importante”, saiu de um jogo de futebol (um clássico, como dizem os colunistas esportivos) e no meio de uma confusão entre torcedores, no Rebouças, atropelou dois rapazes do time adversário ao seu. Um morreu e outro ficou ferido. Lopes foi preso na hora e está na cadeia até hoje. Carli Filho e Abib, segundo a Justiça, tinham residência fixa, trabalho, bons antecedentes e não ofereciam riscos que os obrigasse a ficar na prisão. Mas para Lopes, um jovem trabalhador, que também tem onde morar, estudante e sem antecedentes, a mesma norma não valeu.


Arruda Júnior, quer se candidatar a deputado estadual.

Para as famílias de todas as vítimas do trânsito, que se transformou numa guerra urbana capaz de ceifar 35 mil vidas em apenas um ano e causar prejuízos superiores a R$ 10 bilhões, a dor da perda é a mesma, seja o causador do acidente um sujeito importante ou um cidadão comum. O que elas querem é que os responsáveis pela tragédia sejam punidos e que a punição seja levada ao conhecimento público. Penas brandas cheiram a impunidade, especialmente quando o motorista abusa do álcool, das drogas e da própria sorte. “Acidente é uma coisa que acontece sem a gente querer. Mas quando a gente concorre para o acontecimento, deixa de ser acidente para virar assassinato”, enfatiza a costureira Terezinha Pícolo, mãe de Nalini Pícolo, 17, uma das jovens que morreram no Astra atingido pela Explorer conduzida por Júnior, há 9 anos. Ele também tinha consumido bebida alcoólica. As duas vidas que ele ceifou lhe valeram alguns reais a menos na conta bancária e 1.300 horas de trabalho “voluntário”. Para as mães, a dor e a saudade tornaram-se companheiras constantes, alimentadas pelo sentimento de injustiça.

 

O que está errado?


“Nas primeiras representações conhecidas, a deusa da Justiça surge de rosto descoberto, sem venda, aparentemente aludindo à necessidade de ter os olhos bem abertos e observar todos os pormenores relevantes para a justa aplicação da Lei. Só mais tarde a figura da deusa se revela de olhos vendados. Não significa que a justiça seja cega, mas que trata a todos com igualdade. Não vê, porque a lei é igual para todos”. A explicação, encontrada no site do Ministério da Justiça, para o símbolo da deusa Themis, que tem os olhos vendados e uma balança nas mãos, parece passar muito longe do que acontece na realidade dos tribunais e dos julgamentos, onde o ditado popular “quem pode mais chora menos”, é mais palpável do que a figura da divindade.

Naquele ano de 2001, em que Curitiba tinha uma população de 1.637.690 habitantes e uma frota circulante de pouco mais de 722 mil carros, ocorreram 5.387 acidentes com vítimas, que resultaram em 94 mortes nos locais das tragédias e quase sete mil feridos. É provável que muitos destes tenham morrido nos hospitais, mas não há dados sobre isso. E também não se sabe quantos dos responsáveis por estas tragédias chegaram a ser punidos nem o tipo de punição de receberam. Caso estes dados fossem amplamente divulgados, possivelmente serviriam de alerta aos maus motoristas, coibindo os irresponsáveis mais do que as singelas campanhas educativas que são constantemente feitas e que parecem não surtir resultados.

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