20/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 19/03/2010 às 20:20:42

Sobre o fio da navalha

Ivan Schmidt

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dentro das possibilidades que se abrem segundo a ótica diplomática para suas putativas intervenções como árbitro internacional, esteve na última semana em Tel Aviv e Jerusalém, visitando também a Cisjordânia e Jordânia, a fim de manter contatos com os presidentes Shimon Peres (Israel) e Mahmoud Abbas (Autoridade Palestina). Lula tem se esforçado para desempenhar um papel de protagonista nesse conturbado espaço, mas pouco tem conseguido onde também são conhecidas as recentes frustrações de figuras da importância do vice-presidente norte-americano Joe Biden e da secretária de Estado, Hilary Clinton.

Lula já havia se oferecido para intermediar a paz entre Israel e Palestina, em dezembro de 2003, mas agora encontra um obstáculo extra no aprofundamento da divisão do poder palestino entre a Fatah e o Hamas, cujos radicais assumiram o controle da Faixa de Gaza, em 2007. Do lado israelense, a novidade inquietante foi o anúncio da construção de 1,6 mil casas para famílias judaicas no lado oriental de Jerusalém, onde a população árabe é predominante. Sobre o fio dessa navalha, Lula pretende mostrar que o Brasil está suficientemente amadurecido para pleitear e obter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

Na verdade, nem a intenção ou o esforço pessoal do presidente brasileiro são atitudes isoladas, vez que os governantes das economias desenvolvidas do mundo trabalham nessa direção, mesmo avaliando a gravidade do problema e os inumeráveis empecilhos que surgem a cada momento. Mesmo assim, Lula tenta fazer sua parte, embora o protocolo de intervenções na cena internacional o faça agir de maneira aparentemente antagônica em situações que exigiriam postura uniforme em prol dos direitos humanos e respeito à liberdade de expressão. Dias antes, o presidente não se comoveu com a desumanização imposta pelo governo cubano aos presos políticos e, pouco depois, foi midiaticamente incisivo na condenação ao muro que o governo israelita construiu na fronteira com o território palestino, além de lamentar a decisão da localização de casas para judeus no bairro oriental de Jerusalém, que os palestinos insistem em reivindicar como capital de seu estado soberano.

Nem por isso, a comitiva presidencial em visita à Terra Santa (o primeiro e único chefe de Estado do Brasil a visitá-la havia sido o imperador Pedro II, em 1876), deixou transparecer o constrangimento causado pela ausência deliberada do ministro Avigdor Liebman (Relações Exteriores), na solenidade realizada pelo parlamento e na qual Lula faria seu discurso oficial. O boicote foi anunciado em represália ao fato da recusa de Lula em depositar flores no túmulo do fundador do sionismo, o judeu-austríaco Theodor Herzl, que no início do século XIX lançara as primeiras sementes do estado moderno de Israel.

Paixões políticas idiossincráticas à parte, Avigdor passou a fazer parte do atual governo israelense como representante de um grupo minoritário extremamente radical, cuja única virtude foi ter somado escassos votos ao cabedal obtido pelo direitista Benjamin “Bibi” Netanyahu, que assim suplantou a ex-ministra Tizvi Lipi na escolha para a formação do novo gabinete. Avigdor é um daqueles políticos que não faz o menor esforço para atenuar ou esconder o que pensa, sobretudo, em relação à vizinhança palestina. Pode haver algumas diferenças, é lógico, mas a figura desse líder do radicalismo minoritário judeu foi esculpida com admirável tato e senso de observação, em 1986, pelo romancista norte-americano Philip Roth (descendente de judeus) em O avesso da vida, que a Companhia das Letras publicaria no Brasil uma década depois, com a tradução de Beth Vieira.

Na ficção, o personagem recebe o nome de Mordecai Lippman e chefia uma colônia localizada em Agor, na Judeia, em cima de um morro pelado, seco, empoeirado, onde nada crescia. Os árabes dão risada dessa iniciativa descabida dos judeus, mas as razões são pura estratégia militar: “No inverno ficamos expostos ao vento e ao frio; no verão ao calor e ao sol, enquanto lá embaixo eles estão protegidos dos rigores do clima. Mas quem controlar este morro controla o Neguev”. Lippman não mede palavras para afirmar que o “islã não está infestado por bonzinhos e bonitinhos que querem ter certeza de que não estão fazendo a coisa errada. O islã quer uma única coisa: vencer, triunfar, obliterar o câncer de Israel do corpo do mundo islâmico”, sublinhando que no Oriente Médio papel assinado não vale nada: “Não há trato a ser feito no papel com os árabes”.

O discurso nacionalista (sionista?), que a muitos perturba com desagradáveis palpitações, chega a seu tom mais agressivo quando aquele que poderia servir de modelo para o ministro Avigdor Liebman, vocifera que ninguém ali na colônia precisa de sorte: “Nós somos instrumentos de Deus! Estamos construindo a terra de Israel! Nós não somos judeus perdedores enamorados da perda. Somos gente de esperança!” Para os leitores que começam a sentir uma leve impaciência, peço um pouco mais de resignação para acompanhar o enunciado de Lippman: “O árabe pode ter a experiência que quiser, viver aqui como quiser e ter tudo o que desejar, exceto a experiência de um estado próprio. Se ele quer isto, se não pode passar sem isto, então que se mude para um estado árabe onde poderá passar por essa experiência. Existem quinze estados árabes a escolher, a maioria nem a uma hora daqui, de carro. A terra natal árabe é vasta, é enorme, mas o estado de Israel não é mais que um ponto no mapa mundial”.

O tema principal do romance não é a guerra, felizmente, embora seu espectro continue adejando sobre o incandescente terreno do Oriente Médio, onde ficção e realidade estão cada vez mais entrelaçados. Ninguém merece.

Ivan Schmidt é jornalista.

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