18/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 17/03/2010 às 20:13:32
O significado do Monte Herzl
Gilberto Sarfati
A visita histórica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Israel, na última segunda-feira, deveria ser um marco na tentativa de maior inserção brasileira no cenário político internacional e, em especial, do Oriente Médio. Entretanto, a recusa do presidente brasileiro em visitar o túmulo de Theodor Herzl, fundador sionismo, deve ser percebida como, no mínimo, uma gafe grave que pode prejudicar a posição de mediador crível.
O cemitério do Monte Herzl é carregado de simbolismo para os israelenses, pois heróis de guerras, assim como importantes estadistas, como a ex-primeira ministra Golda Meir e o ex-primeiro ministro Itzhak Rabin, estão enterrados lá.
No meio do cemitério repousa Theodor Herzl, judeu e jornalista austríaco, acompanhou em 1895 o julgamento do oficial judeu francês Dreyfus, que injustamente havia sido acusado de espionagem para os alemães. A condenação do oficial convenceu Herzl que o anti-semitismo não poderia ser curado e que a única forma de evitá-lo seria a fundação de um estado judeu. Desta forma, seu livro chamado de “O Estado Judeu” tornou-se a base do movimento de autodeterminação do povo judeu chamado de sionismo.
Herzl morreu em 1904, na Áustria, sem conseguir ver o seu sonho de um estado judeu concretizado, por isso, a transferência de seu corpo para Jerusalém em 1949 é carregada de simbolismo, já que finalmente os judeus teriam conquistado o direito de sua pátria na terra em que historicamente sempre estiveram presentes.
O direito de autodeterminação de todos os povos está expresso na Carta das Nações Unidas. Seguramente serviu de base para a decisiva atuação do chanceler Osvaldo Aranha como secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) na assembleia de 1947, na qual o plano da partilha da Palestina foi aprovado, permitindo a fundação do estado de Israel. Cabe lembrar que esta mesma carta garante ao povo palestino o seu direito de um estado independente, assim como outros povos que seguem sem um estado como os curdos ou os tibetanos.
Desta forma, um estadista que se recusar a prestar homenagens a Herzl, equivale a avalizar as palavras do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, que nega o direito de existência do estado de Israel e incita ao anti-semitismo ao negar o holocausto. Seria esta uma ação intencional do Itamaraty e da presidência para se creditar mais ainda aos olhos do grupo Hamas e dos iranianos? Prefiro acreditar que o Brasil segue fiel à memória do chanceler Osvaldo Aranha e que o presidente desconhecendo o significado da importância da visita, tenha cometido uma gafe diplomática que poderá rapidamente ser remediada com um pedido de desculpas. Com a palavra, a presidência.
Gilberto Sarfati é doutor em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP) e professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco.



















