04/07/2009 às 00:00:00 - Atualizado em 03/07/2009 às 20:19:46
Reduções jesuíticas
Ivan Schmidt
Impressionam os visitantes, por sua grandeza imponente e profundo significado histórico-religioso, as ruínas ainda existentes em São Miguel das Missões (RS), pequena cidade da região do Tape, onde os jesuítas Roque Gonzalez, Alonso Rodriguez e Juan de Castilho implantaram a partir de 1620 uma rede de reduções habitadas pelos índios guarani, os chamados sete povos das missões. Apesar da distância a ser percorrida vale a pena visitar a região, sobretudo pela recompensa da contemplação da impressionante arquitetura da catedral mais bela de todas quantas foram construídas na área, muitas delas sob a supervisão do padre Antonio Cataldino.
Considerado o apóstolo dos sete povos das missões, o padre Roque Gonzalez de Santa Cruz, nascido em Assunção (Paraguai) no ano de 1576, dedicou-se ao sacerdócio e à missão de catequizar os silvícolas em sua terra natal e também no Brasil, Argentina e Uruguai. Esteve, inclusive, na antiga região do Guayrá (atualmente Guaíra), onde as primeiras reduções jesuíticas foram estabelecidas pelo missionário Antonio Ruiz de Montoya.
Segundo as cartas periódicas que os padres se obrigavam a escrever a seus superiores na Europa, sabe-se que as reduções do Guayrá foram transferidas para o território paraguaio e argentino em função das constantes expedições realizadas pelos bandeirantes que vinham em busca de mão-de-obra escrava. Anos depois, com a troca efetuada pelos governos de Portugal e Espanha do território da Colônia do Sacramento, situada às margens do estuário do Rio da Prata (no lado português) pelas terras da região do Tape na margem esquerda do Rio Uruguai (então em território dominado pelos espanhóis), a localização das respectivas reduções passou a ser considerada como estando em território brasileiro. As reduções em número de sete: São Borja, São Miguel, São Nicolau, São Luís, São Lourenço, São João e Santo Ângelo.
No conjunto das missões jesuíticas, as ruínas de São Miguel têm um significado especial e de tão belas foram consideradas pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade. Em 1940, o governo brasileiro assumiu o controle do sítio arqueológico e edificou um prédio concebido pelo arquiteto Lúcio Costa para abrigar o Museu das Missões, onde estão expostas inúmeras peças de escultura em pedra ou madeira representando vários santos, dentre eles São Miguel, que ostenta a feição característica do povo guarani, pisando a cabeça de um demônio alado com as roupagens típicas dos bandeirantes.
Segundo a historiadora argentina Ana Maria Galileano, inaugurada em 1735, na época de maior florescimento do trabalho realizado pelos jesuítas na América do Sul, a construção da igreja foi dirigida pelo jesuíta Juan Primoli e exigiu a cooperação de um contingente de mil índios durante dez anos. Curiosamente, as ruínas da igreja de São Miguel são as mais belas e, felizmente, as únicas quase inteiramente preservadas. Na célebre viagem do naturalista Saint-Hilaire à província do Rio Grande do Sul, nos idos de 1820, depois de visitar todas as reduções jesuíticas do Tape e escrever sobre elas para leitores europeus, verificando o estado de abandono que a maioria das cidades já apresentava nos estertores do segundo império, afirmou com certeira premonição que dentro de poucos anos todo aquele tesouro cultural seria transformado em escombros.
Com a permuta entre os governos português e espanhol, os missionários planejaram a retirada dos sete povos para a margem direita do Uruguai (eram mais ou menos 30 mil), já que toda a área seria entregue ao domínio dos brasileiros. Os índios, porém, se negaram a obedecer por considerar injusta a decisão do rei de Espanha. O resultado foi a sublevação dos índios em defesa de seu território, se preciso fosse com o emprego de armas, sob as ordens do cacique Sepé Tiaraju. Aconteceu então a chamada Guerra Guaranítica (1753-1756), sendo que os missionários tomaram a decisão de postar-se ao lado dos habitantes das reduções com base na liberdade sobre a qual tinham direitos acordados pela palavra repetidamente empenhada em seu favor, pelos próprios reis de Espanha.
A luta foi violenta. Os arsenais guaraníticos tinham armas e muita pólvora, seus soldados eram guarnecidos por grossas couraças de algodão e manejavam com habilidade lanças e flechas com pontas de ferro tirados das serras locais e fabricadas na redução de São João. O general índio, Sepé Tiaraju, cavalgava em pelo e era possuidor de personalidade altiva e corajosa. Por seu valor e força era considerado o mais temível guerreiro das Missões e sua palavra bastava para levar os índios ao ataque contra as tropas comandadas pelo general Gomes Freire de Andrade, que dizia enfrentar “um verdadeiro militar, que se expressava muito bem e defendia com conhecimento de causa as reduções”, segundo escreveu Ana Maria.
Em 1756 o general Tiaraju reapareceu liderando numeroso exército de silvícolas, mas não conseguiu suplantar o poderio bélico das forças portuguesas e espanholas. Numa renhida batalha ocorrida no sítio onde atualmente está localizada a cidade de São Gabriel, o valente guerreiro guarani sucumbiu. Cinco anos haviam se passado e a guerra ceifara a vida de milhares de pessoas (de ambos os lados), custando também a Portugal muito dinheiro. Poucos anos depois esse foi um dos argumentos que levou o Marquês de Pombal a expulsar a Companhia de Jesus da corte e das colônias portuguesas no além-mar.
O silêncio hierático das ruínas de São Miguel só é cortado pelo vento frio do início do inverno e, aqui e ali, pelo alarido dos pássaros que se retiram para o pouso. Indiferentes ao fato de que aquele chão foi manchado pelo pior da maldade humana: a inveja e o ódio.
Ivan Schmidt é jornalista.
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