03/07/2009 às 00:00:00 - Atualizado em 02/07/2009 às 20:17:49

Avaliação escolar

Jamil Ibrahim Iskandar

O item avaliação talvez seja um dos mais difíceis no ofício da docência. Não difícil no sentido de sua aplicabilidade, isto é, de montar um material de avaliação mas, no “como” e “o quê”, ou seja, como dirigir as perguntas ao aluno e que tipo de questões realmente avaliam. Utilizo aqui o verbo avaliar com o significado de levar em consideração o mérito do que é respondido e não no sentido quantitativo pois, este, só serve para objetos e não para pessoas. Por falar em mérito, vamos descartar esta palavra de seu sentido jurídico; pode-se aceitá-la, aqui, como sendo sinônimo de merecimento. Na avaliação, merecimento indica que devemos apreender o que há de bom em alguém; neste caso, no aluno. Aqui reside a grande tarefa! Um bom educador não pode centrar-se apenas nos erros de seu educando para não destituí-lo do espírito crítico. Até o erro pode ser aproveitado como uma oportunidade para ensinar e não fazer do mesmo um instrumento de autoridade. Corrigindo o erro de maneira pedagógica, o educador tem a possibilidade de sanar pautas faltantes no processo de ensino-aprendizagem. Num primeiro momento, um aluno pode assimilar de modo absolutamente correto e impecável a exposição de um professor? Particularmente, acredito que é uma tarefa muito difícil! Se o professor admitir isto, já tem diante de si um ótimo horizonte para avaliar; é preciso educar-se de modo incansável para poder educar o outro e, consequentemente, para avaliá-lo.

Para ser eficiente, uma avaliação deve primar pelo que procede das perfeições intrínsecas das potências subjetivas; em outras palavras, não se pode considerar apenas aspectos de habilidades imediatas, úteis, mas e, sobretudo, elementos da capacidade cognitiva do aluno pois, esta capacidade tem íntima relação com o desenvolvimento e a formação abrangente do ser humano. Note-se que da avaliação somos levados à formação. Não há uma receituário para elaborar uma avaliação. O educador deve acumular “créditos” para avaliar o comportamento educacional geral do aluno, como, por exemplo, manifestação de conhecimentos durante as aulas, participação nas respostas lançadas à turma, amadurecimento intelectivo, ordenação das idéias, persistência para acertar, grau de participação em grupo, crescimento de sua autonomia, afeto e perspicácia bem como outros elementos que podem ser extraídos da convivência educacional do dia-a-dia, além de provas agendadas previamente, como acréscimo. Todo dia é dia de avaliar! A avaliação não pode ser, de modo algum, um instrumento coercitivo. A coerção lembra autoridade bruta. O educador exerce sua autoridade de modo natural pela postura didático-pedagógica diante de sua turma. Esta é a autoridade que todo educador deve almejar.

Para pôr isto em prática, o educador precisa de condições. Da escola, por um lado e de sua própria formação, por outro. Há, ainda, um aspecto, trágico na minha opinião. A falta de reconhecimento do real valor social do docente. Atualmente ainda é pífio o valor do educador, apesar de exercer uma das atividades profissionais mais importantes e complexas. Muitas escolas têm uma ótica mercantil por excelência no trato com o educador; outras, têm nele seu trunfo mais importante. Estas, sim, são as verdadeiras instituições que educam. É verdade que o princípio de crescimento educacional radica no educando mas, o agente que nutre este princípio é o educador. Perceber isto é uma exigência ético-educacional; e nada supera um argumento que seja ético.

Assim sendo, a avaliação escolar é uma das tarefas mais exigentes. Dá a ideia de que envolve apenas o educador e o educando e que a responsabilidade é só do educador. É muito simplista pensar assim. O educador também precisa do educando em condições para receber o conteúdo educacional; então, neste caso, envolve a orientação pedagógica da escola ou até todas as instâncias pedagógicas. Educador e educando devem estar aptos para a tarefa chamada avaliação, caso contrário, esta será um mero valor quantitativo que nada mensura. Por fim: optei por utilizar a palavra educador por ser a expressão que significa a pessoa que oferece todos os esforços possíveis para a transmissão do saber, portanto, muito além de professor.

Jamil Ibrahim Iskandar é pós-doutor em Filosofia pela Universidade Complutense de Madri, professor de filosofia na Universidade Federal de São Paulo e membro efetivo da Société Internationale pour L’Étude de la Philosophie Médiévale (Bélgica).

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