15/11/2008 às 00:00:00 - Atualizado em 14/11/2008 às 21:05:19

Viagem ao paraíso

Ivan Schmidt

Pesquisadores e historiadores diletantes receberam um brinde de fim de ano com a publicação da História da Província Santa Cruz, pela editora paulista Hedra. Trata-se do pequeno-grande livro escrito em 1576 na cidade de Lisboa, por Pero Magalhães de Gandavo e composto na oficina gráfica de Antonio Gouvêa, a mesma que quatro anos antes (1572) imprimira Os Lusíadas. O volume foi organizado por Ricardo Martins Valle, doutorando em literatura brasileira pela USP, que assina a introdução com Clara Carolina Santos, pós-graduanda do curso de teoria e história literária da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, responsáveis também pelas preciosas notas de pé de página que muito ajudam a compreender a leitura.

Quando afirmo que o lançamento é um presente aos cultores da referida ciência, refiro-me ao fato que o livro foi durante muitos séculos considerado o primeiro relato histórico sobre o Brasil, redigido provavelmente com base nas impressões colhidas por portugueses que se aventuraram a cruzar o Atlântico para viver na colônia longínqua, na época restrita às faixas de terra situadas no litoral entre Pernambuco e São Vicente.

O livro teve circulação restrita e permaneceu praticamente ignorado até 1837 ao ser traduzido para o francês por M. Henri Ternaux, circulando a versão inglesa de John B. Stetson somente no século seguinte. Há também uma polêmica ainda hoje sem resposta sobre a verdadeira identidade do autor, julgando alguns que se tratasse de imigrante cuja designação “de Gandavo” aparentemente “não foi herdada como sobrenome”, mas adotada a guisa de patronímico, “em verdade ilustríssimo naquele tempo, porque sabemos que Gandavo também era Carlos V, nascido em Guantes, Flandres, cidade distinguida justamente por esse evento de enorme significação”.

Segundo Ricardo Valle e Clara Carolina é possível conjeturar que Pero Magalhães (ou como quer que se tenha chamado) ocupou alguma função anônima na colônia, onde enriqueceu e forjou documentos para abreviar o retorno a Portugal: “Em Lisboa, muito rico e provavelmente ignorante, ou ao menos cheio de maus acentos no uso da língua, torna-se um adulador para conseguir a nomeação de escrivão, ou cronista na Torre do Tombo, seguindo talvez a tradição paterna”. Como é perfeitamente dedutível, uma prática que haveria de se alastrar como erva daninha inclusive na colônia, como se verá pelo exemplo do esforçado aspirante à nobreza: “Paga um poeta ilustre, um varão de armas sem dinheiro, um impressor e um historiador para forjar uma obra que lhe conferisse a autoridade de historiador que lhe ajudaria a receber o cargo tornando-se mais próximo de um título de fidalguia”.

Tirante esse lado caviloso, Nossa primeira história, título dado ao livro numa edição feita em 1921-22 que deveria ser lida como relato de viajantes ou literatura de informações, na verdade é um tratado descritivo da costa do Brasil, levando os organizadores da presente edição a concluir que o livro teria sido recolhido “por revelar segredos de Estado sobre a província portuguesa, como a posição de rios e cidades da costa do Brasil, segundo o que os historiadores chamaram de ‘política do segredo’ de dom Manuel I”. Não é de duvidar, pois Gandavo enumera as capitanias hereditárias de norte a sul, a saber, Tamaracá, Pernambuco, Bahia de Todos os Santos, Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Vicente. Dentre os rios estão o Amazonas, Maranhão e São Francisco, que deságuam no oceano, levando em conta que o informante conhecia apenas a costa. Sobre o São Francisco acrescenta-se que o mesmo se lança ao mar “por uma cachoeira mui grande que há neste passo, onde cai o peso da água de mui alto”, numa primeira referência a Paulo Afonso. Outro rio também é descrito por Gandavo (o Prata) “o qual entra no oceano com 40 léguas de boca; e é tanto o ímpeto de água doce que traz de todas as vertentes do Peru”, assinalando que 270 léguas por ele acima, ou seja, seguindo para o interior na rota descoberta pelos espanhóis “está edificada uma cidade povoada de castelhanos, que se chama Assunção”.

Contribuem para reforçar a crença de que a circulação do livro não interessava a coroa portuguesa, as informações sobre a riqueza da fauna e da flora, com sua fartura de animais, aves, peixes, árvores de excelente madeira ou essências exóticas, como o pau-brasil, além de plantas e frutas em abundância, resumindo Gandavo “que seria coisa infinita escrevê-las aqui todas e dar notícia dos efeitos de cada uma miudamente”. Sobre a fertilidade das águas testemunhou o historiador ser “tão grande a cópia do saboroso e sadio pescado que se mata, assim no mar alto como nos rios e baías desta província de que geralmente os moradores são participantes em todas as capitanias”, que mesmo não havendo carne o sustento de cada um estaria plenamente assegurado. Entre outros, Gandavo citou o peixe-boi, que podia chegar a tamanho descomunal e pesar até 50 arrobas (750 quilos), naquilo que bem poderia representar a raiz dos futuros exageros anotados ainda hoje na prosa de pescadores e caçadores.

A suposição de que as informações poderiam açular a cobiça alheia é comprovada pela tomada de Recife pelo holandês Maurício de Nassau, em 1629-1630, no comando de uma frota de 67 navios e sete mil homens. Não por acaso, a capitania era o principal foco da produção açucareira da vasta província, alvo perfeito para a tentacular Companhia das Índias Ocidentais, sediada em Amsterdã.

Ivan Schmidt é jornalista.

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