11/10/2008 às 00:00:00 - Atualizado em 10/10/2008 às 20:10:00

Discursos imprestáveis

Ivan Schmidt

Os raros freqüentadores desse espaço sabem que tenho um consultor bissexto, o quiromante e adestrador de pulgas Josef Nório Sculhoff, atualmente residindo em Bagdá, numa paradisíaca vila dos arredores. O que me segreda é que já está consultando o mapa mundi à procura doutro lugar mais emocionante para viver, pois com a aproximação das eleições nos Estados Unidos e da provável vitória do senador democrata Barack Obama, cujo compromisso é retirar no mais breve espaço de tempo as tropas norte-americanas lá acantonadas. Se assim for, diz ele, Bagdá perde a maior parte de seu charme, qual seja a de permitir aos moradores sentirem na pele não o realismo fantástico da ficção latino-americana dos anos 60s, mas a nítida sensação de estarem em meio a uma guerra autêntica. Idéias que somente podem brotar de um cérebro diferenciado como o do assumido apátrida.

Depois de ler na internet as matérias sobre as eleições municipais, quem ganhou, quem perdeu e a ladainha de alvíssaras e queixas, Sculhoff resolveu meter a colher no angu e, bom leitor de psicologia, aventurou-se a empreender uma entrevista imaginária com o nunca assaz louvado Erich Fromm, que enquanto Garcia Marquez, Julio Cortázar, Alejo Carpentier e outros gravavam em páginas imortais sua insólita visão de mundo, preferia investigar as profundezas da alma humana. Sem falsa modéstia, mesmo prejudicado pela distância, Sculhoff assegurou que o produto final das eleições no Paraná era-lhe de pleno domínio, pois premiou quem se fez merecedor da confiança do eleitor, ao passo que massacrou com a precisão milimétrica das armas inteligentes, sem a menor piedade, antigos e novos condoreiros, cuja característica comum acabou sendo a insensata veleidade de se acharem capazes de embair a malta com discursos tão imprestáveis quanto um chapéu velho cheio de buracos.

Usando uma expressão corrente nos anos 60s, Sculhoff sublinhou que a eleição paranaense está inserida no contexto. E, como atilado propagandista que sempre foi puxou brasa para a sardinha de sua criptográfica conversa com o autor de Medo à liberdade, lembrando que o livro saiu à época no Brasil pela antiga Zahar (RJ) em sucessivas edições, valorizado pela competente tradução de Octavio Alves Velho. Para não fomentar suspeitas impertinentes confessou que as respostas foram cuidadosamente garimpadas nesse fertilíssimo manancial, reiterando que qualquer semelhança com políticos que beijaram a lona domingo passado é mera coincidência. O que segue foi produzido pelo adestrador de pulgas, fiel ao extremo na farta colocação de aspas para destacar as idéias que não lhe pertencem, garantindo ao autor respeitoso acolhimento ao instituto da propriedade literária.

Segundo Fromm, há pessoas que adoram “ferir ativamente, humilhar, deixar os outros em situação vexatória”, agindo dessa forma em nome do racionalismo. Não por acaso sua frase mais apreciada é: “Eu sou tão formidável e ímpar que tenho o direito de esperar que as outras pessoas dependam de mim”. Esse traço peculiar foi identificado por Fromm no trabalho da colega norte-americana Karen Horney, “a primeira a reconhecer o papel fundamental dos impulsos masoquistas na personalidade neurótica”, que “tendem a auxiliar o indivíduo a evadir-se de seu intolerável sentimento de solidão e impotência”. Fromm adverte que a observação prática é dificultada pelo fato freqüente de que “este sentimento não é consciente, muitas vezes é disfarçado por sentimentos compensatórios de eminência e perfeição”.

O neurótico é um sofredor, resume, tendo em vista que “nos impulsos neuróticos, a pessoa age devido a uma compulsão que possui caráter intrinsecamente negativo: escapar a uma situação intolerável. Os estímulos tendem para uma direção que só ilusoriamente constitui uma solução. Na verdade, o resultado é oposto àquilo que a pessoa quer alcançar; a compulsão para livrar-se de um sentimento insuportável era tão intensa que a pessoa não pôde escolher uma linha de ação que pudesse ser uma solução em outro sentido que não o imaginário”. Diz-se mais que “o sadismo também aparece reiteradamente disfarçado como amor”, embora uma de suas múltiplas faces seja “o desejo irrefreado de poder”. É sabido que “desde Hobbes, o poder tem sido olhado como o motivo básico do comportamento humano” e “com o surto do fascismo, a ânsia de poder e a convicção de seu direito atingiram nova culminância”. Fromm adianta que “certamente, o poder sobre pessoas é uma expressão de superioridade de força numa acepção puramente material”, elaborando em contrapartida um argumento altamente retaliatório: “É um esforço desesperado para conseguir força simulada quando se tem falta da força autêntica”.

A diligente investigação empreendida por Erich Fromm permitiu-lhe descobrir elementos apropriados para a elaboração de respostas ainda incompletas para algumas questões instigantes: “Os fenômenos que observamos na pessoa neurótica em princípio não diferem dos que encontramos na pessoa normal”. Assim, uma pessoa sadia é capaz de desempenhar o papel que lhe cabe em dada sociedade, trabalhando e participando na reprodução da mesma ao criar uma família. No lado oposto, a pessoa neurótica pode ser definida como aquela que viu frustrada a tentativa de salvar a individualidade e “em vez de expressar seu ego produtivamente ela buscou salvar-se por meio de sintomas neuróticos e de uma retirada para uma vida fantasiosa”. É isso aí.

Ivan Schmidt é jornalista.

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