31/07/2009 às 00:00:00 - Atualizado em 28/07/2009 às 18:53:49

Doença de Chagas é a mais negligenciada

A DNDi, sigla em inglês para Iniciativa de Medicamentos para Doenças Negligenciadas, é uma organização voltada para a produção de remédios para quatro doenças prioritárias e muitas vezes ignoradas: malária, doença do sono, leishmaniose e Chagas. Pesquisadores da instituição apontam que, dentre elas, a doença de Chagas é a mais negligenciada. "A doença recebeu, em 2007, apenas 0,25% do dinheiro destinado às quatro", comentou o economista belga Eric Stobbaerts, membro do DNDi, sublinhando que este é um dos indicadores da avaliação.

De acordo com o pesquisador, outro indicador dessa negligência é que a probabilidade de termos um novo medicamento para a doença é baixa, uma vez que nos últimos 30 anos foram desenvolvidos mais de mil e quinhentos medicamentos, dos quais 21 eram para as outras doenças negligenciadas. "Nenhum para Chagas", se desaponta. Em entrevista à Agência Unifesp, Stobbaerts mostrou o cenário da doença em nível mundial.

A que se deve essa situação?

Stobbaerts: Ao perfil do doente. Chagas é chamada de "doença silenciosa" porque atinge pacientes de populações das áreas rurais, que não têm voz e têm muito pouca consciência de seu direito ao tratamento. Há aí uma negligência social e política por parte da indústria farmacêutica, dos governos e da mídia. A doença é silenciosa porque atinge uma população silenciosa.

A epidemiologia da doença justifica essa situação?

Stobbaerts: Esse é um outro sinal do descaso, uma vez que todos os números da doença são baseados em estimativas. Segundo fontes oficiais, a ocorrência varia de 8 milhões a 16 milhões de pessoas no mundo, essencialmente nos 21 países endêmicos latino-americanos, onde são estimadas 14 mil mortes por ano. Sabemos que muitas dessas mortes são notificadas como cardiopatias, não como resultado de Chagas. A forma mais comum é a morte súbita, ou seja, as pessoas nem sabem que têm a doença. Epidemiologicamente falando, há também um fato importante a ser considerado: atualmente, devido à crescente mobilidade das pessoas, encontramos casos nos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão e Europa. Está havendo uma globalização da doença. O paradigma de que Chagas é um mal latino-americano está caindo.

Essa globalização da doença pode atrair mais atenção para ela, fazendo com que seja menos negligenciada?

Stobbaerts: Sem dúvida, essa é uma oportunidade para a doença abandonar sua posição de doença silenciosa. Já está havendo uma preparação dos corpos médicos dos países não-endêmicos, que não estão preparados para ela. Há uma tomada de consciência mundial e tem se questionado a ausência de soluções no programa de prevenção da doença. Uma coisa é controlar o vetor, mas o que fazemos com as pessoas infectadas? Há apenas dois medicamentos desenvolvidos nos últimos anos. São tóxicos e não há um consenso médico sobre usá-los nas duas fases da doença a aguda e a crônica. Não são eficazes, como os medicamentos antirretrovirais para a aids, por exemplo. A diferença entre Chagas e problemas como o HIV é que as pessoas soropositivas se mobilizaram rapidamente. Para Chagas, não há sequer uma associação de doentes. O círculo do silêncio é perpetuado, mesmo depois de cem anos da descoberta da doença.

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