12/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 11/03/2010 às 20:30:38
Práticas esquecidas da negociação
Roberto Sotomaior Karam
O setor metalmecânico do Paraná vivenciou nos últimos meses de 2009 o período pré-negocial e de negociação da convenção coletiva da categoria para o ano seguinte. Esta é a fase em que normalmente acontecem as greves e os movimentos mais expressivos dos sindicatos trabalhistas.
Já em fevereiro, funcionários do turno da manhã da Randon Implementos, em Caxias do Sul (RS), decidiram realizar uma paralisação, motivada por divergências no pagamento do Programa de Participação dos Resultados (PPR) da empresa.
O pedido dos funcionários, segundo o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Assis Melo, é por maior repasse dos lucros da empresa. Conforme o dirigente, os metalúrgicos só voltariam ao trabalho quando a empresa decidisse apresentar uma proposta. Porém, durante os protestos, trabalhadores e policiais entraram em conflito. O confronto ocorreu quando a manifestação dos trabalhadores da Randon bloqueou o trânsito no trevo do acesso à empresa e a brigada militar foi chamada para liberar o tráfego.
Este confronto não tem justificativa, mas, infelizmente, a dimensão conflituosa de um processo de negociação permite que ele possa ser comparado a uma disputa, o que pode ocasionar ações negativas, como a que ocorreu em Caxias do Sul.
A palavra negociação significa, em latim, /neg /para não e /otium /para descanso. A ideia é que, em uma negociação, a pessoa só descansa quando o acordo é feito. O conceito de negociação é complexo e envolve principalmente a comunicação e a discussão entre pessoas. As partes podem, também, ameaçar, protestar e prometer. E temos percebido que estes têm sido recursos amplamente usados.
Greves que são decididas muito antes das assembleias, já que não haveria tempo hábil suficiente para se estruturar toda a cadeia logística que uma paralisação requer tão rapidamente como o que temos presenciado.
Pedidos feitos nas negociações com valores impossíveis de serem alcançados, criando uma ilusão no trabalhador de que o aumento estipulado pelos sindicatos trabalhistas poderia acontecer e, quando o resultado não é alcançado, o trabalhador achar que a empresa na qual trabalha é a culpada de toda a situação.
Se a intenção fosse realmente atender o trabalhador, o movimento sindical pediria o aumento real e não iludiria o empregado com esperanças de reajustes absurdos.
A estratégia de disputa usada pelos sindicatos trabalhistas na negociação tem se baseado na tentativa de persuadir a outra parte a fazer concessões, resistindo às tentativas de obter concessões. O uso de ameaças e a fixação em uma posição têm sido práticas comuns. Além disso, infelizmente, respostas negativas a estas ameaças também podem surgir, como ocorreu no Rio Grande do Sul.
Por que não podemos pensar em resolver problemas conjuntamente, tentando deliberar ou localizar opções que satisfaçam ambas as partes? A teoria da negociação recomenda diretrizes básicas aos negociadores. Separar as pessoas do problema, concentrar-se nos interesses e não nas posições, criar opções de ganhos mútuos e negociar com base em critérios são as principais delas. Para negociar racionalmente, é necessário compreender por que você, às vezes, pensa irracionalmente ao esperar irracionalidades semelhantes de seus oponentes.
Duas posturas são necessárias para se negociar racionalmente: avaliação objetiva de alternativas e compreensão de mecanismos distributivos e integrativos da negociação. Regras básicas que, infelizmente, não têm sido seguidas. Sabemos que é inconcebível uma ordem social sem algumas formas de negociação. Negociação, neste sentido, significa o modo pelo qual indivíduos, grupos ou organizações somam esforços. Então, a hora é de somar e não de dividir.
Roberto Sotomaior Karam é presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico do Estado do Paraná (Sindimetal-PR).



















