20/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 19/03/2010 às 20:23:15
Violência por todo lado
O Brasil ficou chocado com o assassinato do cartunista Glauco Vilas Boas. Paranaense de Jandaia do Sul, fez sucesso nos últimos trinta anos como colaborador dos principais veículos impressos do País. Consagrou-se com suas tiras que uniam grosseria e elegância nas mesmas doses, e talvez tenha sido o humorista que melhor retratou o espírito brasileiro do final da ditadura militar e do início da chamada “Nova República” - tanto na política, quanto na revolução de costumes que vivemos nos últimos anos.
Pois Glauco, com recém-completados 53 anos, foi morto à queima-roupa na madrugada de quinta para sexta-feira da semana passada. Ele e seu filho, Raoni, foram atingidos com quatro tiros cada, na frente da esposa do cartunista. O relato do que aconteceu foi dado pelo jornal O Estado de S. Paulo: “Nem tentativa de assalto, nem vingança. O cartunista Glauco Villas Boas e seu filho Raoni foram mortos, de acordo com a polícia, por um conhecido da família que frequentava a Igreja Céu de Maria, fundada por Glauco e inspirada nos cultos do Santo Daime. Segundo a polícia, trata-se de um estudante universitário de 24 anos. (...) No fim da noite de ontem, ele teria ido ao encontro de Glauco e Raoni. Levava uma pistola 765. Houve uma discussão e o rapaz disse que iria se matar. Pai e filho tentaram demovê-lo da ideia, quando acabaram sendo mortos. Depois de assassinar Glauco e Raoni, o rapaz fugiu em um carro”.
Quando a notícia surgiu, disseminada pelo twitter, todos tratavam o fato como mais um terrível efeito da violência urbana. Morador do entorno de São Paulo, Glauco estaria em casa quando teria sido abordado por ladrões que queriam sequestrá-lo. Reagiu e acabou assassinado, e logo depois seu filho, que chegara da faculdade.
Mas a descoberta que não havia sido isso, e sim uma situação ainda mais complexa, deixou a todos ainda mais atônitos com a morte estúpida do cartunista e de seu filho. Afinal, Glauco tinha uma “segunda personalidade”, de muitos desconhecida: a de líder espiritual e fundador da igreja Céu de Maria. Como disseram alguns amigos do cartunista, como Chico Caruso, é de se surpreender que um sujeito tão iconoclasta como o Glauco do “Geraldão” e da “Dona Marta” era também um sério líder com seus fiéis - carinhoso, mas sempre exigente, como apontaram alguns no final da semana passada.
Ficou novamente escancarado o risco que se corre com o exagero religioso. Algumas pessoas tomam a religião como solução para todos os males, e literalmente perdem o rumo quando se veem alijados desta “muleta”. Por incrível que pareça, há quem possa ficar “viciado” pelos cultos, passando dos limites da lógica e expressando exageradamente sua fé - o jovem Carlos Eduardo Nunes, assassino confesso de Glauco e Raoni, pretensamente em transe, dizia que era Jesus Cristo.
Glauco, certamente, tomava a igreja Céu de Maria como um local de muita responsabilidade e respeito. Por isso transformou a própria casa em um dos templos. Ao mesmo tempo, apesar de integrar uma seita que se inspirava no Santo Daime (um culto medieval), tinha sua vida profissional “moderna”, trabalhando em jornais e mantendo sempre a ironia que o consagrou. Ele sempre lidou bem com a religião. Diferente do seu assassino.
Não há como negar a importância da religiosidade para todos nós. A crença em um ser superior nos alenta, nos ajuda e nos conforta - além de, comprovadamente, haver relatos de milagres conseguidos pela oração. Mas não podemos simplesmente colocar nossa vida em cima dos preceitos religiosos, tomando os escritos de muitos anos atrás ao pé da letra. O mundo mudou, a vida é diferente, e nem tudo se resolve como há centenas de anos. E não há palavra ou crença que valha a vida de uma pessoa.



















