12/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 11/03/2010 às 20:31:33
Benefício próprio
“Assinado por treze deputados estaduais e envolto em polêmica, começou a tramitar na Assembleia Legislativa o projeto que possibilita aos ex-governadores requerer, gratuitamente, ao Estado os serviços de segurança pessoal assim que deixarem os cargos. A proteção pode ser requisitada por aqueles que tenham exercido o cargo por tempo superior a três anos. A vinte e dois dias de renunciar ao cargo para concorrer às eleições, o governador Roberto Requião (PMDB) será o primeiro beneficiado pela guarda pessoal se a lei for aprovada pelos deputados estaduais. Um dos signatários da proposta, o líder do governo, Luiz Claudio Romanelli (PMDB), disse que, embora controvertida, a proposta se justifica para governantes que têm um estilo de governo que combata privilégios. “Para uma pessoa que exerce o cargo na sua plenitude e que contraria interesses variados, a avaliação é que esse governante necessita de um período de proteção’, justificou. Na justificativa do projeto, os autores são mais dramáticos nos argumentos. “A figura do governante confunde-se, muitas vezes, após o término do mandato, com reações ásperas e agressivas por parte daqueles desprovidos de bom senso, o que deixa a pessoa do ex-governador exposta a possibilidade de reações perigosas ou até mesmo de represálias que atentem contra a sua vida’, explica a justificativa”.
Este é o texto da repórter Elizabete Castro, na edição de terça-feira de O Estado. A descoberta deste projeto pela imprensa gerou mais uma crise no legislativo paranaense - tanto que vários deputados que assinaram o pedido retiraram as assinaturas, e a semana termina com a possibilidade cada vez maior do assunto ser definitivamente arquivado. O principal beneficiário, o governador Roberto Requião, teve que apelar para uma mensagem no twitter para dizer que não precisaria desta “segurança pessoal”.
Mas então porque o líder do governo na Assembleia Legislativa teve que fazer tanto esforço verbal para justificar o projeto? Será que, depois de doze anos como governador, Requião seria magnânimo a esse ponto para autorizar o envio de seguranças pessoais a ex-governadores? Ele fez isso para ajudar Jaime Lerner, por acaso? Não, pois é para o período imediatamente após a saída do governo. Como se cria um projeto que, a rigor, beneficia uma única pessoa?
Requião queria facilitar sua vida, manter o mínimo de sensação de poder e ter a condição de continuar agindo com naturalidade e sem ser molestado. Parece que o governador não tem a intenção de ser um cidadão comum quando renunciar ao governo do Estado para disputar uma vaga no Senado Federal. Além de não ter mais a segurança, perderá também o foro privilegiado - e assim será obrigado a responder, como qualquer um de nós, ao processo que será impetrado pelos advogados do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo.
E viver sem as benesses do poder será uma novidade para Requião, que ocupa cargos eletivos desde 1983, com pequeníssimos hiatos. Agora, terá que encarar a disputa eleitoral sabendo que não será o governador ou o senador - e se perder, voltará a ser... A ser o que mesmo?
Importante, na verdade, é que este projeto maluco não vai prosperar. Seria mais um típico caso de benefício próprio para Roberto Requião, ele que tanto fez para seus próximos e áulicos nos últimos sete anos e meio. Se lembrarmos de tudo que aconteceu, faz até sentido o pedido de segurança pessoal - afinal, condiz com todo o governo, é apenas o último ato de um mandatário que pouco se preocupou com os paranaenses, e muito com os amigos e os parentes.



















