05/10/2008 às 00:00:00 - Atualizado em 03/10/2008 às 20:24:41

Mãos Coloridas

Leio pela internet que o Museu Colecção Berardo, de Lisboa, "está a promover" uma exposição no mínimo curiosa. Nas paredes da famosa galeria lusitana poderão ser vistos, até início de novembro, nada menos do que 200 obras gráficas inéditas de 150 escritores de diversas nacionalidades e escolas literárias.

Neste domingo, depois de cumprir o sagrado dever cívicode antivotar na minha própria anti-candidatura à prefeitura de Curitiba, a carregar compulsoriamente o escritor Dalton Trevisan como antivice, e de desescolher aquele vereador de carteirinha, acho que recomeço minha sempre adiada "aguada". Sim, leitor, a mim me encantam as artes. Desconheço contudo se o mesmo ocorre com o meu vice. Pois aqui vos fala um escriba que desenha; oligofrênicamente
mas desenha.

Nos Anos Loucos cariocas, por imposição de minha sempre Guita Scharifker, hoje nome internacional das artes plásticas, aprendi a sossegar o facho ao me entreter com aguadas. Sabem aí os amadores o que é "aguada"?

A receita é simples: espargem-se algumas gotas de água no papel e sobre elas pingos de guache. Alguns movimentos e a tinta começa a escorrer sobre os veios líquidos, já nos surpreendendo com cores imprevistas. Extraordinário que um simples azul, por exemplo, ao topar, no meio do papel, com um amarelo, desemboque, ao fim, num impensável violeta.

Depois da secagem do papel, o candidato (ôpa!) a aguadeiro, de posse de uma caneta a nanquim, inventa o que lhe der na telha. Eu, de minha parte, gosto de seguir o que água e tinta insinuam - aqui a remota sugestão de uma asa; ali a de um elefante. Tudo é possível. Manda o olho de quem enxerga - né mesmo, Rogério Dias?

A mostra do museu lisboeta se chama Desenhos de Escritores. E tem lá a presença de gênios como Victor Hugo, Apollinaire e até William Burroughs, viciado confesso em heroína que passava à ponta do lápis os inenarráveis delírios. Ah, também Roland Barthes, dizem que tão sutil de rabiscos quanto de escrita.

Ignoro titã literário que tenha dado em artista plástico de expressão. Invejo uma Leila Pugnaloni, capaz de numa só linha - contínua - vos traçar a silhueta de inenarrável vampiro (ui, foi sem querer...), a flor vermelha na mão feito um lampejo. Ou Dante Mendonça, com seus antológicos curitibaninhos da Rua das Flores, boina xadrez, pezinhos a Lewis Carroll. Ou este cachorrão do Solda, na contracapa de nosso rotativo, e seus cachorríssimos "insights".

É, pra desenhar não basta o tempo de sobra, o domingo, as eleições. É preciso, no mínimo, ter nascido, como no poema de Drummond, com as mãos de olhos azuis de Cândido Portinari...

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