16/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 15/03/2010 às 23:14:55
Complexo
Não estava presente, e por isso, não sei qual foi o sentido que o procurador do STJD, o Dr. Paulo Schmitt, quis dar quando disse que o “os paranaenses têm complexo de vira-latas”.
Não conheço o Dr. Schmitt, com ele nunca troquei uma palavra sequer. Mas estando presente no julgamento (e quase nenhum jornalista ou radialista esteve), não é justo fazer um juízo de que ele tenha imprimido o sentido de ofender, de identificar o nosso povo como “vira-lata”.
Talvez, o erro do Dr. Schmitt foi não perceber que lidava com uma imprensa esquisita, em que parte é demagógica e populista, gostando de fazer média com o torcedor, e a outra parte que pouco acesso teve aos livros.
Dizer que alguém tem complexo de vira-lata não significa necessariamente ofender. A origem dessa expressão é de 31 de maio de 1958, com a qual o imortal Nelson Rodrigues, escrevendo na “Manchete Esportiva”, quis demonstrar o espírito de inferioridade que dominava o torcedor brasileiro desde o fracasso na Copa do Mundo de 1950, no Maracanã.
Não confortado com o medo do brasileiro em esconder e, às vezes negar, a sua fé na Seleção Brasileira que foi para a Copa da Suécia (1958), Nelson passou um sabão no torcedor, escrevendo: “Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol”
Nelson conclui: “Eu vos digo: o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender lá na Suécia. (À Sombra das Chuteiras Imortais, Companhia das Letras, Seleção de Ruy Castro, 1993, p. 51).
A expressão se incorporou à cultura e literatura brasileiras, e passou a ser empregada, em sentido figurado, para designar um sentimento inconsciente de insuficiência (inferioridade), ou incapacidade. Quando o Coritiba absurdamente perdeu 30 mandos de campo, houve a pregação de que isso não teria acontecido se fosse com um time do eixo Rio-São Paulo. As próprias razões do recurso do Coritiba foram remetidas para uma comparação do Couto Pereira com a Arena da Baixada, com ironia foi chamada como “o estádio mais moderno do Brasil”, não obstante ser verdade.
Quantas vezes a nossa imprensa busca referência em benefícios dados aos cariocas e paulistas, para justificar as perdas e fracassos da terra.
Talvez, o segundo erro do Dr. Schmitt tenha generalizado o povo paranaense.
Se limitasse à parte da nossa imprensa, estaria absolutamente correto.



















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