27/11/2009 às 00:00:00 - Atualizado em 26/11/2009 às 22:41:21

Traquinagens

Os jogadores do Paraná fizeram greve, e ameaçam não jogar se não receberem os salários. Mais grave: além de não pagar, o clube, por seu presidente Aurival declara que “os jogadores estavam mal acostumados em receber em dia”.

Não conheço em 30 anos de futebol, tamanho desrespeito à dignidade do jogador como pessoa humana. Uma coisa é não poder pagar alimentos, e embora nenhum motivo justifique, e poderia até ser considerado; mas, outra coisa, é não pagar e tratar a inadimplência como uma espécie de castigo. Aurival falou o que não deveria; ou que o maior idiota, que tenha o mínimo de consciência de que o salário é um dos pilares do conceito de dignidade humana, não falaria. Se estivesse na Bastilha seria decapitado.

A declaração de Aurival tem uma agravante, porque faz presumir que o clube esperou sair da zona de risco da 3.ª divisão para deixar de cumprir com as obrigações. Triste final.

Com três meses sem receber, humilhados publicamente pelo clube, há nove jogos esses jogadores estão invictos. E nem precisavam estar, porque o atleta exerce uma profissão de meio, que exige responsabilidade, e não de resultado.

Sob qualquer aspecto, que o fato seja analisado, os jogadores do Paraná estão absolutamente corretos. Pela Lei Pelé, porque o jogador está desobrigado a treinar e jogar, tendo como motivo o atraso de salário; pela Constituição Federal, porque qualquer trabalhador tem direito de receber alimentos a cada 30 dias; e, ainda, pela Constituição Federal, há o direito de greve, patrimônio indisponível do trabalhador.

Se os jogadores do Paraná não receberem, e por isso não jogarem, estarão fazendo um benefício ao futebol brasileiro, pois exerceriam pela primeira vez em 102 anos de futebol, um direito, que pela sua natureza humilde, o atleta tem medo de exercê-lo.

A Revolução Paranista nem bem começou, e seus futuros dirigentes já começam a incorrer no mesmo erro: ceder os direitos de alguns jogadores revelados. Por 30 moedas, cedem para qualquer um, principalmente para amigos de dirigente como são os empresários Morishita e Oscar Yamato, velhos traquinas do mercado.

O Coritiba, também, é um devedor contumaz dos jogadores. Mas pelo menos, conscientes que é um erro, seus dirigentes correm para corrigi-lo, mesmo que isso custe a receita futura.

Por que só o Atlético não trata os jogadores e funcionários como gado? Não é porque tem dinheiro. Ao contrário, a atual diretoria carrega o ônus pesado de uma herança. Mas porque seus dirigentes são conscientes de que o jogador, por mais privilégio que a profissão lhe ofereça, é um ser humano. E como tal deve ser tratado.

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