26/01/2004 às 00:49:02 - Atualizado em 20/01/2013 às 11:36:58

Ídolo

Volto das férias e vou ter com meu querido pai. Aos 85 anos, pensei que tinha ele esgotado a reserva de tristeza que nos é imposta para gastar na execução da vida. Mas o encontrei um pouco nostálgico, como se tivesse de retorno de uma triste despedida.

Contou-me, então, que Leônidas da Silva, o "Diamante Negro", morreu. Há pouco tempo, Zizinho, ídolo maior que restara de sua geração, tinha ido embora.

Meu pai é do tempo em que o ídolo não era apenas eternizado pela história escrita em papel, gravada em fita, reproduzida em vídeo. É do tempo em que o ídolo era protegido como um valor e eternizado pelo sentimento do querer.

Não existe mais ídolo como antigamente. Nunca iremos sentir a perda daqueles que foram nossos ídolos. É que os tempos modernos corromperam ideais e mudaram os conceitos.

Adriano não quer mais jogar no Atlético. Como se fosse uma espécie indesejada, despreza-o da forma mais humilhante que pode existir: oferece-se ao grande rival.

A torcida atleticana gastou com ele até a última gota da sua paixão. O Atlético lhe é justo como nenhum clube seria: deu-lhe corpo, alma e dinheiro. Retribuiu-lhe até o último centavo do seu suor na batalha dos sete anos.

O respeito à vontade do jogador é princípio de lei. Mas essa mesma lei dá limites: a vontade tem que estar necessariamente atrelada à obrigação do contrato. Ganha bem e recebe em dia. Querer sair, mesmo com contrato, é anarquizar as relações entre clube e atleta.

Mas o tema não se esgota apenas no gesto maldoso de Adriano. Avança para provocar uma dúvida: o que leva um jogador que é adorado pela torcida, joga num grande clube, tem um contrato que lhe rende um bom salário e é pago em dia a querer ir para um clube rival?

Analisado sem o romantismo com que tratamos a figura do ídolo, a culpa imediata é do próprio clube. Acelera, sem freios, a cultura de negócios, desvalorizando a vitória como objeto de sua existência. O de Adriano é um bom exemplo. Seus direitos federativos foram rateados em cinqüenta por cento entre Atlético e Marseille. Na volta, vinte e cinco por cento ficaram com Figger. Se o empresário os adquiriu, o negócio não foi contabilizado. Se alguém tem algum acerto de contas com o empresário (caso Kléberson) deve pagar do próprio bolso.

O novo Conselho Gestor deveria intervir. Acabar com essa farra. Adriano deve cumprir o contrato. Hoje é Adriano, amanhã será Dagoberto, mais tarde Jádson e Fernandinho.

augustomafuz@terra.com.br


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