14/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 13/03/2010 às 19:52:31

Filhos mortos

O cheiro de pólvora ainda estava no ar. O sangue quente manchando as paredes dava ao lugar um aspecto de filme de terror. Mas tudo era muito real. Homens armados invadiram a casa, no início da noite, e mesmo diante dos gritos de pavor dos três rapazes que estavam lá, não demonstraram qualquer compaixão. Abriram fogo. Crivaram os três de balas, deixando os corpos estendidos na sala.

O atentado durou dois, três minutos no máximo. Saíram como se nada tivesse acontecido. Subiram em motos potentes e desapareceram sob uma cortina de poeira. Pouco a pouco as vizinhas foram se aproximando e entrando para consolar a mãe de dois dos rapazes, que parecia hipnotizada diante da cena de horror. Logo a mãe do terceiro adolescente veio berrando pela rua, arrancando os cabelos no mais desesperado dos gestos, chamando o nome do filho. Mais uma vez as pessoas que se aglomeravam em torno da casa tinham a impressão de que estavam fazendo parte de um filme violento e de difícil enredo. Não entendiam direito o que estava acontecendo.

Só conseguiam entender o choro compulsivo das duas mulheres que ora se jogavam sob os corpos perfurados ora se abraçavam, buscando consolo mútuo na dor. Quando a polícia chegou, no palco dramático passaram a existir outros atores, estes de sangue mais frio, um pouco
mais acostumados com a violência, que realizaram o trabalho e saíram, para atender novos casos.

Os cadáveres, recolhidos ao camburão, deixaram a cena do crime feito bonecos destroçados ao bel prazer de uma mente cruel. O fato estava consumado. Consolar aquelas mães é que seria a tarefa inglória de quem ficava. Da janela de sua casa, Mira acompanhou todo o drama. Amiga das duas mulheres, até hoje não sabe o que fazer para ajudá-las, mas decidiu gritar por elas, e escreveu:

MEU FILHO

Filho... Você não pode ouvir? Porque não me responde?

Quantas vezes você não respondia e eu achava normal, engraçado até. Ai, porque não te chamei mais vezes e mais alto, porque não consegui gritar desesperadamente como grito agora? Agora você não me responde, não se move. Meu Deus me ajude! Não posso fazer nada? Não há nada que eu possa fazer para que você me escute, para que venha comigo pra casa?

As horas vão passando, as pessoas chegam, olham, comentam e é tudo tão estranho, somente a sua voz não consigo ouvir.

Tanta gente aqui olhando você, dando palpite, discordando ou concordando, tentando deixar claro aquilo que eu não consigo entender. Ah! Como eu queria estar contigo em casa, falando das coisas boas e... Dando boas risadas, te protegendo das "coisas ruins".

Está muito escuro e ao mesmo tempo tem muita luz, luz dos carros, das câmeras e das viaturas (que neste momento são muitas) De repente é preciso dar passagem às pessoas que nunca vimos e que me dizem que você vai com eles, que preciso deixar você ir... Mas ir para onde? Não posso ir também e dizem que não voltas, que este é o seu fim, mas por quê? O que fez de tão mau que precisa ser o fim? Não consigo entender, você é tão jovem, é o meu menino, mas assim como você ninguém me ouve e continuam agindo como se não estivéssemos aqui, como se eu não precisasse te levar pra casa.

Aos poucos as pessoas se afastam, a rua fica vazia, levaram você... E eu continuo chamando seu nome sem reposta... Filho, porque meu filho?
*Com a colaboração da leitora Mira Magno.

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