07/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 06/03/2010 às 19:20:34

Quarta-feira de cinzas

Dizem os entendidos que para a gente conseguir sustentar uma mentira, tem que contar outras sete. Para manter as sete, conta-se sete mais para cada uma, ou seja, 49. E aí, a coisa vira uma bola de neve que fatalmente vai esmagar o mentiroso. Deve ser por isso que minha avó sempre dizia: "Mentira tem perna curta!". Por mais doída que seja a verdade, é mais nobre contá-la do que arriscar ser desmascarado de uma hora pra outra, sem chance de argumentação.

Esta lição foi aprendida à duras penas por um policial militar, muito animado e paquerador, que usava sempre a desculpa do trabalho para festar durante o Carnaval. Deixava a família em casa, lamentava profundamente estar de plantão e caía na farra com a primeira ninfeta que lhe desse "bola".

Quando os policiais começaram a atuar na Operação Verão, permanecendo durante toda a temporada de praia no litoral, ele se deliciou. Era tudo de bom, sol, mar e plantão de mentirinha. Como não queria "queimar o filme com a patroa", alugava uma casa em lugar mais retirado, num balneário onde não tivesse folia e a deixava ali, cuidando dos filhos. Saía fardado e só aparecia lá pela tarde do dia seguinte, já livre dos confetes, serpentinas, marcas de batom ou perfumes denunciadores. E assim foi levando a vida...

Num certo Carnaval, em Matinhos, há anos atrás, ele aplicou o mesmo golpe na mulher. Caiu na gandaia, com a velha e surrada desculpa de estar em serviço. Lá pelas tantas, o filho caçula começou a passar mal. Febre alta, vômito, choradeira. Assustada, ela telefonou ao quartel, pedindo para falar com o marido. Claro que ninguém conseguiu localizá-lo, apesar dos esforços, e para solucionar o problema, mandaram uma ambulância apanhar mãe e filho e levar para o hospital. Amanheceu o dia e a mulher exausta, já com o filho medicado, novamente pegou carona na ambulância para retornar para casa.

Cansado da farra, o PM caminhava pela avenida, abraçado a uma jovenzinha quando viu a ambulância e a reconheceu como sendo de sua unidade. Não teve dúvida. Saltou na frente do carro, gesticulando com a ninfeta, para pegar uma carona. Ao abrir a porta, "baita" surpresa! Mulher e filho de olhos arregalados o aguardavam. Ela não pensou duas vezes. Saltou da ambulância e encheu o marido de tabefes, na mais humilhante lição que ele poderia receber. Desde então o PM passou a detestar o Carnaval e até hoje só sai para trabalhar na quarta-feira de cinzas...

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