16/11/2008 às 00:00:00 - Atualizado em 15/11/2008 às 20:03:18

Mal-entendido

Heitor era um repórter da linha de frente. Enfrentava tudo de peito aberto, sem reclamar. Corria favela de ponta a ponta, na raça. Fazia cobertura de tiroteios como quem comia um pastel de carne na feira. Tudo para ele era normal. Vez por outra, quando diziam que a violência estava demais, ele só murmurava: "Sinais dos tempos, sinais dos tempos..."

Havia anos que perambulava pelas delegacias, com uma Bic escrita fina na mão esquerda - era canhoto - e uma cadernetinha na direita. Daquelas que as crianças usavam nas escolas, para levar recado dos professores aos pais. Heitor não abria mão da caderneta, porque cabia direitinho no bolso do paletó. Em qualquer circunstância e em qualquer lugar que precisasse fazer uma anotação, ela estava ali, segura, no fundo do bolso. Mesmo nos dias mais quentes ele usava paletó - era um hábito de família -, de forma que a cadernetinha já fazia parte de sua indumentária.

Corajoso. Era assim que Heitor gostava de ser chamado. Não era um homem bonito, muito menos rico. Também não tinha muita popularidade com as mulheres, mas era inegável sua coragem. Talvez fosse a melhor de suas qualidades. Graças a ela, fazia grandes reportagens e narrava detalhes de tragédias que mais ninguém conseguia apurar. Já tinha entrevistado muito bandidão e era tratado com respeito pela polícia. Isso lhe bastava para viver bem, apesar do minguado salário que nunca chegava ao fim do mês.

Mas Heitor tinha um medo inconfessável. Nutria verdadeiro pavor de ir ao dentista. Viciado em caramelos de leite e avesso às escovações dentárias, sempre tinha cáries. Só mesmo quando a dor era insuportável é que ele procurava um odontologista e fazia questão de ser tratado com muita anestesia. Certa vez, ao sair de um tratamento demorado, que lhe deixou boa parte do rosto amortecida, foi chamado para fazer uma entrevista com um assassino, há muito procurado pela polícia. Tentou exercitar o rosto, para desentortar a boca, repuxada para o lado que estava anestesiado. Fez mil caretas, mas não adiantou. Tinha recebido uma dose cavalar de anestésico, por conta de seu medo. De boca torta, foi à entrevista. Destemido, chegou em frente ao matador e despejou um monte de perguntas, articuladas com sacrifício por causa da paralisia momentânea, e não percebeu que o criminoso tinha a boca torta, mas para o outro lado, por conta de um problemas de infância. Ao encarar o repórter, o entrevistado achou que ele estava "tirando sarro" e não suportou a afronta. Levantou os punhos algemados e desferiu certeiro murro no nariz de Heitor, que sem entender nada, estatelou-se no chão. O repórter dali foi ao hospital, consertar o nariz quebrado e o homicida, aos berros, foi levado para a cela, dizendo que agüentava até pancada de polícia, mas não admitia que "carrapicho" desse uma de engraçadinho.

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