05/10/2008 às 00:00:00 - Atualizado em 04/10/2008 às 20:10:58

Errar é humano

Dia desses uma conselheira tutelar liga pra redação do jornal e, enraivecida, exige que seja feita retratação da matéria divulgada naquela edição. Já chamando o repórter de mentiroso e “inventador de história”, jurava de pé junto que não havia dado entrevista pra ninguém e que, portanto, o que estava escrito na matéria não era de sua lavra. A editora, munida com um caminhão de paciência, porque é só isso que resolve numa hora destas, ouviu todos os xingamentos e exigências. Pediu que a fulana repetisse a história que lhe convinha e já sentiu que ela mesma se contradizia. É muito fácil acusar o repórter de incompetente, quando se lê no dia seguinte alguma “asneira” que se disse no dia anterior.

Acostumada a este tipo de coisa, a editora ponderou, avisando que repórter não tira notícia da cartola, como fazem os mágicos nos circos - que tiram coelhos e pombos. E a mulher insistia em dizer que não tinha dito nada. Mais um pouco de conversa, ela admitiu ter dado entrevista para um repórter de rádio, mas da cidade dela (na região metropolitana). E garantia que não disse nada do que foi publicado. Sua entrevista à rádio tinha tido outro teor. Dois dedos à mais de prosa e a experiente editora percebeu que a tal conselheira havia falado demais e suas palavras -reproduzidas pelo repórter - viraram documento que depunha contra sua própria forma de trabalhar. E poderia até perder o cargo por isso. Assustada, quis virar o jogo, dizendo que não tinha dito. Quando soube que o repórter seria punido, já que publicou uma coisa que ela disse que não disse, a mulher afinou. Afinal, seria responsável por uma punição injusta. Quem sabe demitissem o rapaz! Seria um peso na consciência para o resto da vida. Ela sabia que tinha feito aquelas revelações e que não tinha dito nada por maldade, afinal não iria prejudicar a si própria. Mas agora, com a exigência que fazia, além de se meter em uma encrenca, iria levar outra pessoa junto. Devagarinho foi baixando o tom de voz, pedindo com mais delicadeza para que publicassem uma “notinha” dizendo que ela não disse, mas sem culpar o repórter, e por fim se rendeu, abrindo o jogo: “Falei bobagem e posso perder o trabalho. Vocês podem me ajudar, por favor?”

Aí sim, a conversa seguiu em bom nível e ambas chegaram a uma forma de desdizer o que tinha sido dito, sem prejudicar ninguém. A editora, assim que desligou o telefone, pensou: “Poderíamos ter perdido menos tempo se ela dissesse o que queria já de cara. Todo mundo erra e nada melhor do que reconhecer o erro e tentar consertá-lo, mas sem jogar a culpa nas costas dos outros. Afinal, repórter não é saco de pancadas!”

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