08/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 08/03/2010 às 17:27:19

Terra em transe

Juan Carlos Rueda, arquiteto chileno que por muitos anos trabalhou no Instituto de Planejamento Urbano de Curitiba, assustou-se ao aqui chegar com o padrão das nossas construções, achando-os frágeis na comparação com os de seu país. Ficou mais tranqüilo ao saber que terremotos não nos atingem. No Chile, sazonalmente penalizado por esse tipo de catástrofe, a calibragem de estruturas e fundações obedece a regras bem mais severas. E felizmente, porque isso com certeza fez a diferença nos trágicos eventos de domingo último, quando o país foi atingido por um abalo sísmico de 8,8 graus na escala Richter, o sexto maior já registrado no mundo até hoje. As conseqüências, embora dramáticas, poderiam ter sido exponencialmente piores não estivesse o Chile preparado para enfrentar tais situações.

O inventário dos prejuízos ainda está em curso, mas ninguém duvida de que a conta será doída. E o setor vitivinícola, ponto forte da economia local, figura entre as grandes vítimas. Próximos ao epicentro do terremoto, os vales do Centro-Sul tiveram muitas cantinas danificas. Nessas áreas, especialmente nas cercanias da cidade de Conceptión, localizam-se extensos vinhedos e instalações de vinificação e armazenagem.

A Concha y Toro, um dos gigantes da vinicultura do país, anunciou a temporária paralisação de suas atividades. "Perdemos plantações, boa parte dos estoques e a capacidade produtiva ficou parcialmente comprometida", informou a empresa, que, por outro lado, festeja o fato de todos os funcionários saírem ilesos. Vinícolas como Casa Silva, Miguel Torres, Montes, Lapostolle e Viu Manent perderam tanques, barricas e vinhos já engarrafados. Muitas bodegas, construídas com adobe, um ótimo isolante térmico, já resistiram a outros tremores, porém não suportaram este, desabando sobre as instalações. Há que considerar, ainda, que a colheita mal havia iniciado. A das uvas brancas começou faz uma semana e a das tintas só dentro de 10 dias. Os produtores, assim, tem um prazo curto para tomar decisões. Não é costume, entre eles, fazer seguro dos vinhedos contra terremotos.

O Vale do Maule, com cerca de 30 mil hectares de vinhas, acusa sérios danos. É, por excelência, a área da variedade Carmenére. Aí estão outras bodegas conhecidas, como J. Bouchon, Gilmore Estate, Terranoble, Cresmachi Furlotti, Calina, além da Concha y Toro. Também o Vale de Bío Bío (três mil hectares de vinhedos) foi afetado. Trata-se de uma das regiões mais ao Sul, de ocupação relativamente recente, nela se destacando as castas brancas Riesling, Chardonnay e Gewürztraminer e a tinta Pinot Noir. Os rótulos da vinícola Gracia, bem aceitos no Brasil, provem do Bío Bío. Os danos foram menores nos vales do Maipo, Aconcagua e Limari.

O Chile é nosso principal fornecedor de tintos e brancos. Cerca de um terço de todo o vinho fino que consumimos origina-se de seus vales. No ano passado, as importações totalizaram 19 milhões de litros, o equivalente a U$ 52 milhões. Os maiores compradores, entretanto, são os Estados Unidos e Inglaterra. Os governos do Brasil e Chile firmaram um acordo para a progressiva redução do Imposto de Importação incidente sobre os vinhos lá comprados. A taxa será zerada já em 2011. Os produtores brasileiros estão em campanha contra essa medida, considerada nociva aos interesses do vinho nacional. Na atual situação, e até por razões de solidariedade, vai ser difícil atende-los. A balança comercial entre os dois países pende para nosso lado. E o vinho é um dos poucos produtos que o Chile nos exporta.

Enodicas

+ Um jantar com renda em benefício da Fundação Pró-Renal acontece neste dia 13, no Graciosa Country Club. Vários chefs locais participarão de sua elaboração. O evento, já em sua segunda edição, é organizado por Miguel Riella, presidente da Pró-Renal e da confraria que congrega os apreciadores de vinhos do Graciosa. Reservas para o jantar (R$ 125) podem ser feitas pelo telefone (41) 3312-5419.

+ Chardonnay muito convincente o Reserva 2009 (R$ 23) da vinícola Aurora. Aromas de abacaxi e frutas tropicais num corpo onde o teor alcoólico de 13,5 graus é equilibrado pela bem dosada acidez. O estágio moderado em barricas de carvalho agrega elegância a esse branco, companhia adequada para ostras, pescados e massas com molhos à base de frutos do mar.

+ Os produtores argentinos passaram à ofensiva no caso da interdição de seus vinhos em países europeus, sob a acusação de conterem natamicina, produto considerado prejudicial à saúde. Na Argentina, seu uso na limpeza de tanques e mangueiras é permitido pelas autoridades sanitárias. Os argentinos alegam que suas bodegas utilizam desde sempre a natamicina na desinfecção das instalações, sem qualquer problema.

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