16/11/2008 às 00:00:00 - Atualizado em 15/11/2008 às 21:30:47

O David do Prata

Tamanho pequeno também pode ser documento, apostam nossos vizinhos do Uruguai, que se vêem como um David eternamente emparedado entre gigantescos Golias. É o Brasil de um lado, a Argentina do outro, logo ali o Chile, e, fechando o cerco, a imensidão do Atlântico. Alguma saída? Explorar as diferenças, eles já não têm dúvidas, e essa de ser menor é uma delas, particularmente quando o tema são vinhos e gastronomia, dois pontos fortes do país. No caso do vinho, a qualidade tem a ver com a escala, pois depende muito do envolvimento pessoal, direto, do produtor. Das vastas plantações e imensas adegas costumam sair vinhos corretos, mas dificilmente com o caráter daqueles oriundos de vinhedos diminutos, onde o dono chega até a conhecer, uma a uma, as plantas e suas manhas.

Enquanto as vinhas uruguaias cobrem, em seu conjunto, nove mil hectares, no Chile a Concha y Toro, apenas ela, possui sete mil. "Ponto a nosso favor", festeja Pablo Fallabrino, proprietário de uma plantação de dez hectares. Ele acaba de voltar dos Estados Unidos. Lá, seus tintos fazem boa figura em restaurantes de Nova Iorque e da Califórnia.

Ricardo Calvo, presidente do Instituto Nacional de Vitivinicultura do Uruguai (Inavi), situa seu país como um oásis de produtos naturais, genuínos, em um mundo sufocado pela onda dos transgênicos e afins. O rebanho bovino, por exemplo, soma 12 milhões de cabeças de raças como Hereford e Black Angus, criadas soltas, no pasto, "cada rês dispondo de área equivalente a um campo de futebol". Calvo lamenta, porém, a falta de recursos para divulgar melhor o made in Uruguai. A carne, de primeiríssima, é exportada para muitos mercados que a consomem sem saber de onde provém. Há importadores que chegam a anunciá-la como argentina, por ser a imagem deste país mais forte.

E algo semelhante ocorre com o vinho. A vinicultura uruguaia sofreu, nestes últimos anos, mudanças radicais. Os vinhedos foram replantados com cepas selecionadas, e as cantinas modernizadas. Ao mesmo tempo, uma nova geração de produtores e enólogos conquistou seu espaço, aportando idéias e padrões contemporâneos. Mas a assimilação dessas transformações pelos mercados pode, hoje, levar poucos meses ou décadas inteiras. Depende de quanto se investe em marketing.

O vinho uruguaio destinava-se, no passado, quase que integralmente ao público interno. A produção massiva, focada no baixo custo, resultava num produto bastante rústico e grosseiro. A reviravolta se deu a partir do início da última década, quando muitos produtores perceberam que o país podia fazer algo muito melhor, explorando sua privilegiada localização entre os paralelos 30 e 35 (a mesma latitude que faz a fortuna dos vinhateiros argentinos, chilenos, sul-africanos e australianos), e um clima temperado, com estações bem definidas. Os vinhos populares ainda predominam, nos tradicionais garrafões ou em sua moderna versão, as embalagens em tetrapak, mas há agora uma imensa e variada oferta de tintos e brancos de alto nível.  

Pablo Fallabrino é uma amostra da nova mentalidade. Ele e sua esposa, Mariana, ocupam-se pessoalmente da bodega, a Viñedos de Los Vientos, em Canelones. A Tannat, como em todo o Uruguai, é o carro chefe, mas não há limites ao exercício de uma enologia criativa e inovadora. Pablo, que é surfista nas horas vagas, resgata as tradições piemontesas da família com um Ripasso de Tannat, feito da mescla de dois vinhos - um de uvas colhidas na época normal, o outro das que amadurecem por mais trinta dias, no vinhedo. Também produz um branco fresco e agradável, o Estival, que combina as castas Gewürztraminer, Chardonnay e Moscato.

Na mesma região de Canelones, porém com área maior, de 100 hectares, pouco comum no Uruguai, está a Gimenez Mendez. Marta Mendez, a proprietária, mostra as mesmas preocupações. Seus brancos e tintos da linha básica, a Las Bruxas, são corretos e acessíveis. O Sauvignon Blanc é leve, vivaz, com boa acidez. A vinícola aposta também na alta gama, destacando-se aí varietais premium de Tannat.

Canelones é o coração do Uruguai vinícola. Fica a 30 quilômetros de Montevidéu, junto ao Prata. Ali foram plantadas, em 1870, as primeiras mudas de Tannat trazidas da Argentina pelo imigrante basco Pascual Harriague. E tão perfeita foi a adaptação que está no Uruguai a maior extensão de vinhedos dessa cepa, superando os da terra de origem, a França. Proporcionam vinhos de cor escura, densos, com generosa carga de taninos, fiéis parceiros das parrilladas, o símbolo da culinária regional.

Que a Tannat pode ser matriz de vinhos elegantes e equilibrados já não se discute. Basta provar rótulos como o Dante's Gran Reserva 2002, o Montes Toscanini Gran Tannat 2003, o Castillo Viejo El Preciado Gran Reserva 2004, o Marichal Reserve Collection 2005, o De Lucca Tannat Reserva 2004 ou o Família Deicas Prelúdio 2004. São tintos sedutores, amadurecidos em carvalho, que se identificam nos aromas de frutas do bosque, cacau, baunilha, alcaçuz e especiarias, na boca bem balanceada e na persistência. Nenhum com os excessos alcoólicos tão freqüentes em garrafas do Novo Mundo.

Mas os produtores estão igualmente botando fé nas mesclas dessa casta com outras. A Bouza elabora um corte de Tannat com Merlot e Tempranillo, o Monte Vide Eu, que se destaca, na safra 2006, pelos aromas delicados de amoras e framboesas, o corpo suculento, volumoso, e a boa acidez. Vinho esmerado, estilo europeu. Já a associação apenas de Tannat e Tempranillo revela um surpreendente frescor e vocação para harmonizações à mesa. A Filgueira, bastante conhecida do consumidor brasileiro, tem um catálogo amplo e consistente, coberto de premiações em concursos internacionais. Além da Tannat, elege varietais de outras castas. Seu Merlot Premium foi pontuado como o melhor vinho dessa uva no Uruguai pelo Guia Austral. E tem, da Pisano, o Arretxea, corte de Cabernet Sauvignon, Merlot e Tannat, em iguais proporções. Tinto de guarda, denso, rico, de bom corpo, que exibirá suas melhores virtudes se decantado.

Outra bodega muito nossa conhecida é a Carrau. Ela traz no currículo a fundação, em Caxias do Sul, nos idos de 1968, do Chateau Lacave, que lançou o clássico Vinho Velho Museu. A Carrau figura entre as principais vinícolas uruguaias, com vinhedos nas regiões de Montevidéu e do Cerro Chapéu, estes quase na fronteira com o Brasil, perto de Santana do Livramento. Seu rótulo principal é o Amat.

Ao todo, são quase 300 bodegas, que produzem cerca de 95 milhões de litros por ano e ocupam, em média, áreas em torno de 30 hectares. Ricardo Calvo torce para que as coisas não mudem. Com as vinícolas de seus vizinhos ocupando pagos cada vez mais extensos, o Uruguai poderá se valer dessa vantagem - o manejo de áreas menores, onde o conhecimento das características de cada lugar permite ao produtor elaborar vinhos de personalidade diferenciada. Foi assim, não pelo tamanho, mas pelo talento e a habilidade, que David venceu seus desafios.

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